Experiência de voz em larga escala é aposta do Hospital Sírio-Libanês

Diretor-geral do hospital, Paulo Chapchap também aponta para uma possível eliminação de doenças que conhecemos, com o uso de novas tecnologias

Como a inteligência artificial pode mudar o futuro da Medicina? O médico e diretor geral do hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, falou com exclusividade aos portais Consumidor Moderno e Whow! sobre o uso de novas tecnologias e os principais desafios enfrentados na aplicação diária, como a ética no uso dos dados de pacientes.

Ele também comentou a evolução no relacionamento com os clientes do hospital, os planos para uma expansão da aplicação da voz dentro da área médica, além da possível eliminação de doenças através do uso de big data, inteligência artificial e machine learning.

Confira a entrevista abaixo.

CONSUMIDOR MODERNO – Como o hospital Sírio-Libanês faz uso das novas tecnologias no relacionamento com o cliente?
PAULO CHAPCHAP – Por enquanto está em informatizar cada vez mais o call center. Então, a relação é telefônica, mas a operadora de call center tem cada vez mais ferramentas com inteligência artificial para oferecer possibilidades ao paciente que quer ter acesso ao hospital Sírio-Libanês.

O que nós temos que evoluir é nas plataformas em que o paciente faz interações independentemente da presença de alguma pessoa do outro lado para agendamento totalmente eletrônico. Isso ainda não está em larga escala no hospital e é um dos projetos no qual estamos nos dedicando. Tem alguma solução de prateleira para isso? Não tem, porque as instituições têm particularidades das suas agendas.

CONSUMIDOR MODERNO – Como é a atual relação da área médica com o big data? Há algum atrito, e já se pensa no uso da voz para a entrada de dados no hospital?
PC – Já usamos bastante a voz para laudos radiológicos. A única coisa mais fácil do que pegar uma caneta e escrever algumas palavras rapidamente e depositar isso em um lugar, é falar. É mais rápido. Então, temos que migrar para a utilização da voz em mais larga escala, em que o médico vai interagir com o prontuário com a voz e vai só validar teclando nas informações que vão aparecer na tela. Iremos para isso cada vez mais.

CONSUMIDOR MODERNO – Quais desafios o hospital está enfrentando no quesito de privacidade, transparência e viés dos dados na área médica?
PC – No Sírio-Libanês existem as questões da privacidade e da ética no sentido para que não exista diferenciação entre pessoas. Na área da ética, quando você participa do desenvolvimento dos algoritmos com pessoas que têm como padrão o procedimento ético, você está salvaguardado. Mas depois deve fazer auditorias para garantir que na evolução daquele algoritmo não apareçam vieses que não estavam na construção.

Em relação à privacidade de dados, aqui nós temos um enorme desafio porque a privacidade é fundamental, mas não pode criar barreiras ao profissional de saúde em uma situação de emergência. Um médico responsável por um paciente, e com a permissão dele, tem acesso total aos dados enquanto viger esta autorização. Mas nem sempre este médico responsável está ao lado do paciente quando ele tem uma intercorrência clínica. E aí, ele depende de um plantonista.

Quando você começa a fechar para uma quantidade menor de pessoas enxergarem estes dados, você automaticamente cria uma barreira para o bom tratamento intempestivo do paciente, que é fundamental na área da saúde.

Não temos uma fórmula mágica para resolver este desafio, mas temos conselhos orientadores que vão tentar construir algo que seja respeitoso ao paciente, legal – porque não desafiamos a lei. Se a gente não concorda tentamos modificá-la, mas não desafiá-la – e não prejudique a prontidão do atendimento ao paciente.

CONSUMIDOR MODERNO – Traçando um paralelo entre a vontade das pessoas que querem viver mais e melhor – a auto-otimização – qual é o seu olhar para esta tendência?
PC – Acho que não estamos fazendo um trabalho extraordinário na área da saúde. Estamos fazendo um bom trabalho. Estamos aumentando a longevidade de vida das pessoas.

E por que digo que não estamos fazendo um trabalho extraordinário? Porque ainda permitimos que a doença ocorra, mesmo sabendo quais são as questões que levaram até a doença: como os indicadores genéticos, ambientais, comportamentais e sociais da doença. Então, a gente sabe o que vai levar à doença, mas não conseguimos agir para promover a saúde e prevenir a doença. E aí reagimos a ela.

Hoje já temos os dados genéticos, sociais, ambientais e comportamentais. Então, temos que caminhar rapidamente para usar estes dados muito melhor do que utilizamos, em benefício de cada uma das pessoas e da sociedade como um todo. Se você consegue prevenir em um segmento da sociedade te sobram mais recursos para tratar naquele que você não conseguiu prevenir.

Para isso, você precisa usar o big data e uma grande capacidade analítica. E estamos caminhando neste sentido. Eu sou bastante otimista.

CONSUMIDOR MODERNO – Com um uso maior de big data, inteligência artificial e machine learning, poderíamos eliminar muitas doenças que conhecemos?
PC –
Sem dúvida. A grande maioria das doenças será prevenível. Certamente vamos conseguir eliminar, progressivamente, uma série de patologias, aquelas que a gente vai entendendo os determinantes. Mas lembre que sempre depende do indivíduo também. Uma das coisas mais difíceis que existe para nós da área da saúde é mudar a atitude das pessoas em relação a sua saúde: como fazer com que as pessoas se exercitem em um grande conjunto; que saiam do sedentarismo; que comam de uma forma responsável; que não fumem; e que se relacionem mais socialmente?

O conhecimento para eliminar grande parte das doenças nós já temos e vamos evoluir muito rápido em mais conhecimento para isso. Mas também dependemos que as pessoas queiram mudar a sua relação com a saúde e com a doença.

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