Estamos vivendo a Era do Cancelamento na internet

Gente conhecida é o alvo principal, mas no final das contas, ninguém escapa. Você pode acabar cancelado em seu micro grupo de amigos ou por pessoas que sequer conhece

As #REDES SOCIAIS se transformaram mesmo em um tribunal de julgamentos? Parece que, em certa medida, sim. “Ser cancelado é ser excluído”, explica a psicanalista Anna Carolina Lementy, especialista consultada para falar sobre essa atitude cada vez mais presente nas interações feitas no mundo digital.

Gente conhecida é o alvo principal, mas no final das contas, ninguém escapa. Você pode acabar cancelado em seu micro grupo de amigos ou por pessoas que sequer conhece. 

Numa época em que quase todos têm opinião e vocalizam isso de forma pública – principalmente no que se refere à questões de raça, gênero, discurso político, aspirações profissionais, entre outros temas delicados, é preciso ter cuidado com o ato de condenar em massa a fala de alguém.

O jogo do certo e errado na internet pode ajudar na pressão em prol de mais direitos para certas parcelas da população, como a equiparação por salários entre homens e mulheres no ambiente de trabalho, citando aqui um exemplo.

Só não pode servir para impor um único ponto de vista como o certo: “Vamos nos acostumando a viver em uma bolha”, diz Anna. Acompanhe, na entrevista abaixo, os perigos de se viver na Era do Cancelamento.

CONSUMIDOR MODERNO – Da cantora Anitta passando pelas criadoras do podcast Mamilos e pela atriz Alessandra Negrini durante o Carnaval (só pra citar alguns exemplos recentes), parece que ninguém escapa do cancelamento. Na sua visão dupla de estudo de campo tanto como jornalista quanto psicanalista, porque as pessoas pessoas cancelam às outras?
ANNA CAROLINA LEMENTY –O que posso dizer é que que vivemos em tempos de um discurso muito imaginário. A gente acredita que as outras pessoas estão no mesmo registro de vida que nós – ou seja, têm as mesmas referências, o mesmo percurso… Vamos nos acostumando a viver numa bolha porque se a gente pensa igual a todo mundo, nos sentimos mais confortáveis, com menos sensação de falta. Por exemplo: a polarização do discurso político. O que se seguiu depois das eleições foi a acomodação das pessoas onde se sentiam confortáveis. Os dois grupos principais não foram capazes de dialogar porque se fecharam entre iguais. O problema do discurso imaginário é justamente a pouca tolerância ao que é diferente, é uma visão muito chapada, quase como se a gente não pudesse suportar o que tem de incompreensível com o outro. As pautas políticas e identitárias seguem essa lógica muito fortemente. 

CONSUMIDOR MODERNO – Em uma outra análise sobre o tema, li um especialista dizer que o cancelamento do outro na internet tem a ver com uma visão infantil, até meio maniqueísta do mundo. Você concorda com isso?
A.C.L –Sim, o infantil está muito preso nesse discurso imaginário. As crianças supõem que o mundo é exatamente aquilo que elas pensam. Que se elas choram, alguém vai entender imediatamente o que querem; que o coleguinha irá emprestar um brinquedo exatamente na hora que ela desejar… Ou seja, ainda não existe o registro do outro completamente construído, a expectativa é muito calcada nesse imaginário de que o outro é igual a mim e, por isso, ele deve me dar o que eu quero. A gente acaba se infantilizando na questão do cancelamento ao não poder argumentar, colocar a própria lógica à prova. Ter uma sociedade em que não se pode ouvir o outro é ter uma sociedade um pouco mais pobre.

CONSUMIDOR MODERNO – Quais são os danos psicológicos que podem acontecer com uma pessoa quando ela é “cancelada” na internet?
A.C.L –Na minha visão de psicanalista, é difícil identificar antes o que pode acontecer com uma pessoa exposta a isso. Mas, de modo geral, ser cancelado é ser excluído. E ser excluído é muito danoso para qualquer pessoa. A gente precisa fazer parte, ter aprovação, isso não é um problema, é inerente à maneira como estamos colocados no mundo hoje. O problema é lidar com essa desaprovação – porque ela virá em algum momento e de alguma forma – e precisamos ter recursos para lidar com isso. Se sentir excluído é problemático e pode causar diversas questões em relação aos vínculos. A pessoa pode acabar, sim, ficando extremamente deprimida se ela faz parte de um grupo e ele a bane. Ela pode questionar a si mesma até que ponto vale como pessoa, principalmente se não tiver recursos para lidar com o que aconteceu. 

CONSUMIDOR MODERNO – Sabe-se também que existem pessoas nas redes sociais que vivem de fazer polêmica e que para elas o lema “falem mal, mas falem de mim” vale mais do que o anonimato. Você acha que, de uma certa forma, essas pessoas alimentam uma Cultura do Cancelamento?
A.C.L – Sem dúvida existe uma Cultura do Cancelamento. Na minha opinião, já faz um tempo em que, como sociedade, percebemos que nosso discurso é muito mais visto e ouvido na internet. Não é à toa que as últimas eleições, por exemplo, mudaram totalmente o jogo do marketing político em todas as esferas. A voz na internet hoje é bem mais potente. Existe uma percepção clara de que pautas identitárias ecoam mais nesse ambiente digital e, por isso, temos tantos nichos se colocando. É importantíssimo esse movimento de esses grupos serem ouvidos, mas a questão aqui é quando isso anula todo o resto ou quando se acha que apenas um discurso é o certo. E eu acredito que existam pessoas extremamente cientes disso e que manipulam essa situação seja para vender produto, evento ou um viés de pensamento… Um discurso pode virar uma camiseta instantaneamente. Existe muito aquele ativismo de sofá, de celular, porque você estar comentando e compartilhando. Só que essa é apenas uma parte da história, é preciso ocupar o espaço público de fato e fazer parte dos debates que se seguem. Me preocupa que as pessoas se fechem cada vez mais em seus celulares e achem que estão mudando alguma coisa concreta. 

CONSUMIDOR MODERNO – Está disponível na Netflix o documentário Miss Americana, que fala um pouco sobre a carreira de Taylor Swift. E ela é um caso bem relevante de como as redes sociais se mobilizaram para falar mal e “cancelar” sua existência como pessoa pública através de haters e também da imprensa de celebridades. O caso dela tomou uma proporção gigante e a artista precisou sumir por um tempo. Você acha que quem entra na onda de “cancelar” alguém consegue ter noção do estrago capaz de causar? O que essa pessoa, o “cancelador”, precisa saber antes de apertar o ENTER?
A.C.L – Pra mim ainda é um enigma a crueldade das pessoas que promovem esse tipo de ação desenvolvem em relação ao outro. De verdade. É muito difícil uma pessoa não entender a dimensão daquilo que faz. Só que, por incrível que pareça, as pessoas estão cada vez mais desapropriadas do poder da própria palavra, porque é tudo muito rápido, instantâneo, ao alcance do dedo. Se você quiser compartilhar uma fake news hoje em dia, isso se faz com a maior facilidade. E esse tipo de facilidade foi deixando as pessoas alienadas do poder que cada uma delas têm. Porque, por exemplo, você pode contratar o serviço de uma empresa que tem robôs digitais capazes de disparar mensagens em massa e criar um discurso na internet. E é óbvio que terá gente REAL que replicará esse discurso e a força das palavras ditas começa a vir daí. Às vezes, a pessoa se acha superpolitizada mas está colaborando com o “cancelamento” de alguém ao compartilhar algo que não pode ser checado ou confirmado de nenhum modo justo. Ainda assim, essa pessoa se sente fazendo parte de alguma coisa. Isso se explica bastante pela lógica de condomínio, criada pelo psicanalista Christian Dunker –  aquela que nos coloca cada um em sua própria bolha, sem um senso de comunidade, sem olhar para o outro, considerando apenas a si mesmo (nem mesmo os seus “iguais”).

CONSUMIDOR MODERNO – Existe algo bom que pode vir do Cancelamento de alguém na internet?
A.C.L –
Eu acho que não. Qualquer ação que não permita o diferente, a discordância, pode ser danosa para a gente em termos de sociedade. É isso que produz discursos violentos. Não creio que qualquer pessoa possa também se colocar no papel de “reprimido”, porque também isso é problemático. Reprimir uma ideia torna ela muito mais potente, já vimos isso acontecer. O debate, o questionamento, é o que nos faz evoluir como sociedade e pensar em caminhos. Silenciar equivale a fermentar uma espécie de ódio que pode ir para caminhos que não conseguimos prever ou controlar. Se a gente para pra pensar o que foi o nazismo chegamos um pouco a esse raciocínio. Então, é preciso poder falar e ouvir o outro – e isso só se dá se todo mundo tiver voz. Não vejo o cancelamento ser benéfico olhando por esse sentido. 

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