Você sabe o que é o Complexo de Lagosta?

Autocrítica excessiva, pensamentos negativos, medo de mudança: descubra se você está passando por esse momento e como ele pode impactar suas relações no trabalho, com os outros e até consigo mesmo

Criado pela psicanalista francesa Françoise Dolto, o termo Complexo de Lagosta diz respeito, principalmente, à fase da adolescência pela qual todos nós passamos para chegar na vida adulta. É aquele momento de mudanças físicas, emocionais, do mundo no entorno, certo? Mas o conceito que antes já foi restrito aos primeiros anos de juventude pode abranger também outras gerações. Vivemos em um mundo conturbado, com mil informações por hora, em que tudo se transforma rapidamente.

Parece que estamos trocando de casca, como faz a lagosta, a cada ano, ou a cada par de meses ou semanas. Essa situação de mudança constante gera medo, excesso de autocrítica, um sentimento de comparação infinito com o outro. E se colocarmos o elemento das redes sociais nesse caldeirão – com sua urgência por atualização e realidades totalmente construídas – tem-se a receita perfeita para que o Complexo de Lagosta passe a nos atingir, independentemente da idade, mas com maior ênfase na geração millennial.

Se você anda se cobrando demais, está insatisfeito com a própria vida e se sente estagnado diante de tantas comparações, essa entrevista é o que precisa ler hoje. Nela, o médico Dr. Yuri Busin, psicólogo e doutor em Neurociência do Comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, e Diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (CASME), fala como podemos sair do círculo da autocrítica negativa e parar de olhar a grama do vizinho sempre mais verde. Para anular o Complexo de Lagosta precisamos pensar na vida a longo prazo. Ela dá trabalho mesmo e é sinuosa, bem diferente da rapidez da atualização de um feed de Instagram. Mergulhe nessa conversa e confira!

Consumidor Moderno: Você poderia nos explicar melhor do que se trata o conceito de Complexo de Lagosta?

Dr. Yuri Busin: Ele representa uma fase da vida, principalmente da adolescência, na qual existe uma transição muito grande entre os comportamentos, as dinâmicas, no qual a pessoa começa a ficar exposta e muitas vezes sem aquela “casca”. A analogia com a lagosta vem daí, a partir do momento em que o animal vai crescendo, deixa essa casca para trás e fica desprotegido até criar uma nova. No mundo atual, porém, a gente vê que essas mudanças não ocorrem mais apenas enquanto somos adolescentes, mas ao longo da vida. Muitas vezes, a gente vai evoluindo, se tornando maior, se expõe, se sente desprotegido e automaticamente precisa criar novas “cascas”. Isso é um movimento muito comum no dia-a-dia das pessoas, mas mesmo assim acaba assustando muita gente. Porque ninguém gosta de sentir medo, mesmo essa sendo uma emoção comum, totalmente normal, que faz parte sentir. Então, trazendo o Complexo de Lagosta para as pessoas mais velhas, ele tem a ver com aquele momento em que você se sente exposto e com medo de se machucar.

“As pessoas se criticam, cada vez mais, muito negativamente e acabam esquecendo de olhar o lado bom das próprias conquistas”

CM: Na sua opinião, a cultura extremamente competitiva que se instalou no nosso dia-a-dia e faz com que tentemos nos superar constantemente pode ser um gatilho para o Complexo de Lagosta se manifestar com mais força?

YB: Realmente vivemos em um mundo cada vez mais competitivo hoje e extremamente conectado. Essa superconexão, essa superinformação que temos o tempo todo faz com que, muitas vezes, a gente fique se comparando com a vida alheia, achando que todo mundo é sensacional, menos nós. O que não é a realidade, porque nos tornamos muito hábeis na arte de “maquiar” um pouco como vivemos e isso faz parecer que a vida de todo mundo é boa. É como se ninguém tivesse problema, ninguém estivesse estressado, todos tivessem muito dinheiro, e assim por diante. Cada vez mais é possível perceber esse comportamento, principalmente nas redes sociais, onde existe um mundo irreal, criado para ser aprovado. E até por isso as redes sociais viciam tanto, porque gostamos de ser aprovados. A gente começa a fazer coisas para postar nas redes, ganhar o like, esse comportamento de ser mais aprovado faz a gente se sentir pertencente. Porém, isso gera cada vez mais comparação e uma cobrança exagerada, como se com 30 anos de idade todo mundo precisasse já estar com a vida resolvida.

CM: Essa pressão causada pela comparação se manifesta mais em qual grupo de pessoas?

YB: As pessoas estão transferindo a rapidez das redes sociais para a vida. Só que viver é algo muito maior, é a longo prazo, a construção é vagarosa e cada um tem o seu próprio tempo. As mudanças vão ocorrer e isso não quer dizer que você esteja superatrasado ou super na frente. Quer dizer apenas que está seguindo seu próprio tempo. Algumas pessoas vão um pouco mais rápido, outras devagar. Para a geração mais nova, que já vem bastante inserida neste meio das redes sociais, da internet, a categoria dos milênios tende a ser mais impactada. E tem sintomas que são possíveis de notar que é o querer tudo “para ontem”, achar que será milionário com muita facilidade. Essas pessoas vão enfrentar diversas dificuldades porque até a entrada no mercado de trabalho tudo é muito bom. Porém, quando a geração millennial entra de vez nesse contexto e se depara com outras gerações e situações as quais não imaginavam – por exemplo, ter um chefe difícil, que dá bronca, que não os aprova – isso gera uma frustração. Pode até começar um movimento um pouco mais grave de não conseguir se manter naquele ambiente, de não entender direito a dinâmica das coisas, gerar algum tipo de transtorno. A partir do momento que eu escolho a exposição, principalmente nas redes sociais, estou sujeito tanto a aprovação quanto a desaprovação. Essa “casca” que temos, que se forma, ela está em constante mudança, porque o mundo é assim e nós também. Novas cascas vão surgindo.

CM: Como o excesso de autocrítica pode prejudicar a mente e, por consequência, a vida de uma pessoa? Ela pode chegar no ponto de travar de vez todas as suas atividades profissionais?

YB: É bem relevante falar sobre a autocrítica que muita gente têm e do excesso de comparação com o outro. As pessoas se criticam, cada vez mais, muito negativamente e acabam esquecendo de olhar o lado bom das próprias conquistas. Acho que uma das melhores formas que temos de comparação é comparar você consigo mesmo durante o passar do tempo. Isso não significa que terá sempre sucesso; mas será possível notar se está evoluindo em algum quesito. Comparar a sua vida com a do outro não dá certo. Eu acho que o ideal, nesse sentido, é se espelhar em pessoas que admira em determinados quesitos, pegar coisas boas que vêm delas e usar como molde daquilo que você pode colocar dentro da sua própria existência. Isso também não quer dizer que se fizer igual vá dá certo, mas pode ajudar a parar de comparar com pessoas que têm algum outro tipo de sucesso. Fazer uma reflexão diária sobre si, sobre suas próprias conquistas, sobre as coisas positivas que aconteceram no dia, pode funcionar. Acho que a palavra-chave nesse sentido é o também, ou seja, ver as emoções negativas, mas também as positivas e não só se fixar em um lado da moeda. Vislumbrar as duas coisas, olhar o que deu certo, tentar corrigir o que não deu. A evolução é muito importante, bem como a constância. Traçar as características que você quer desenvolver, onde quer chegar, o que gostaria de desenvolver, e não que precise ter, mais uma vez, todo o sucesso do mundo aos 30 anos de idade. É pensar o que eu posso fazer para melhorar e como, dar tempo ao tempo. Ele não é seu inimigo, ele é seu aliado, porque você tem muitos anos pela frente para desenvolver o que quiser.

CM Você acha que o Complexo de Lagosta atinge mais as gerações mais jovens, como a millennial ou a geração Z, ou é algo que acaba impactando todo mundo?

YB: Eu acho que se a gente transpor o Complexo de Lagosta para todas as gerações, ele vai atingir de forma diferente cada uma delas, mas no fim acerta todas. Porque hoje vivemos em um mundo muito vulnerável, cheio de instabilidade o tempo todo, em que as pessoas não sabem como lidar. Como as informações chegam muito rápido, isso acaba atingindo a todos, algumas gerações mais, outras menos. Todo mundo, porém, terá sempre que se remodelar, criar novas cascas, novas habilidades e assim por diante. Para a geração millennial, o Complexo de Lagosta atinge em cheio porque ela não aprendeu a lidar com o longo prazo. E já as pessoas mais velhas entendem melhor esse conceito por uma questão de vivência. As cobranças internas vão depender da personalidade que a pessoa tem, da sabedoria que foi desenvolvendo, e assim por diante. Uma ideia é olhar o movimento do mundo como um todo e tentar entender porque determinadas coisas acontecem com ela daquela forma.

“Para a geração millennial, o Complexo de Lagosta atinge em cheio porque ela não aprendeu a lidar com o longo prazo”

CM: Como identificar que estamos caindo nessa armadilha da autocrítica paralisante?

YB: Simplesmente notando sua própria produtividade. Se você tenta algumas coisas, mas está sempre estagnado, não consegue ver o progresso, vale ficar de olho. Por isso acho boa aquela ideia da reflexão diária, de coisas positivas que ocorrem e não somente o negativo. Fazer um diário positivo, por exemplo, notando suas próprias evoluções, olhando por outras perspectivas, conversando com outras pessoas… Acho também interessante buscar ajuda profissional para entender esse movimento de paralisação, se existe o medo, o que está por trás de tudo isso. Às vezes as pessoas sentem-se paralisadas, mas é uma questão de perspectiva, porque elas estão em movimento, talvez não no ritmo que elas tanto desejam, o que pode dar a sensação de paralisia. Essa é uma questão superlegal de se levar para uma psicoterapia para você se desenvolver mais. Caso alguém queira alguns exemplos de diário positivo, no meu site eu tenho um post relacionado a isso no qual disponibilizo um modelo gratuitamente para quem quiser testar. É só digitar www.yurisusin.com.br e digitar na busca para encontrar.


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