IDENTIDADES: Como se reinventar na terceira idade? A moda agora é autenticidade

Na era das idades emocionais, vidas se descolam de aparelhos biológicos. Aos 62 anos, a profissional de relações públicas Ana Lúcia de Mello se reinventa todos os dias em busca da felicidade

Foto Paulo Reis

Devemos pautar nossas vidas em rótulos? O que nos impede, hoje, de alcançar nossos sonhos? Existe tempo certo para traçar um novo objetivo?

É possível começar um negócio aos 18? Ser mãe aos 50? Poupar dinheiro e aprender a investir com 10 ou 80 anos? Ser modelo aos 65, é possível? Casar aos 70? Desistir e separar aos 24 ou talvez nunca se casar?

Em um mundo onde desejos e aspirações vêm em primeiro lugar, nossa idade emocional transpõe as barreiras do tempo.

Assim é com Ana Lúcia de Mello Castanho, profissional de relações públicas, que aos 62 anos, na busca pelo autoconhecimento, se reinventa todos os dias e inspira outras mulheres a fazer o mesmo.

“Fiz um ensaio de moda no ano passado e amei. Fui um sucesso representando a terceira idade. Foi nesse momento que comecei a perceber o encantamento das minhas amigas com o meu descobrimento nessa fase da vida. Precisava fazer alguma coisa. Foi aí que criei uma página no Instagram, o Rebeca 60 ou mais, onde coloco as fotos dessas mulheres para valorizar a beleza e a autoestima da terceira idade. Hoje a longevidade vai até os 90 anos e poderá ir mais longe. Ainda temos muita coisa pela frente, então é importante que cada um encontre seu caminho”, relata.

Na contramão do discurso otimista que hoje a define, a autoestima já foi um tabu. Esse contrassenso veio de uma criação carregada de estereótipos e sem espaço para a valorização do processo de envelhecimento.

“Fui criada para ser professora, trabalhar meio período, ser mãe e mulher. Durante 20 anos fui mãe, mulher e muito submissa em relação ao marido. Não por questões de machismo da parte dele, mas por opção minha, porque compreendia que era o certo”, conta.

A relações públicas descreve que se sentiu como em um caldeirão prestes a explodir durante 20 anos. “Me olhava no espelho e não me sentia plena, apesar de sempre ter sido muito vaidosa. O que eu via era muita angustia e tristeza. Era como se tivesse alguém por trás daquela pessoa querendo se libertar.”

Para Michel Alcoforado, antropólogo e pesquisador da Consumoteca, essas aflições relatadas são reações naturais das gerações mais velhas.

“Na época dos nossos pais e avós o que ditava as gerações eram os momentos da vida em que eles estavam, que eram marcados, basicamente, por rituais de passagem fundamentais para um processo de construção da identidade”, explica.

“Então, por volta dos 20 anos, você tinha que arrumar um emprego, depois tinha que casar, em seguida tinha que ter filhos, depois educar os filhos, depois se preocupar em aposentar e cuidar dos netos, sucessivamente até morrer. A vida estava estruturada em um ciclo onde as pessoas obedeciam muito numa lógica do “tem quê”, exemplifica.

O antropólogo explica que a libertação dessa lógica se deve muito ao uso da tecnologia ao longo do tempo.

“Quando eu falo de tecnologia, não estou falando apenas de celular, mas de tecnologias como na biomedicina, onde você pode escolher engravidar com 50 anos. Sim. Essa disruptura da sociedade permite que você tenha um filho aos 20 anos, aos 50 anos, que você decida ter um filho sem marido ou um filho sem mulher e ainda que você nem tenha um”.

“Isso tudo gera uma grande confusão no nosso papel social e na nossa trajetória biológica. O foco dessa tendência, que apelidamos de idades emocionais, é justamente entender que há uma possibilidade de você viver uma vida de liberdade, descolada do seu aparelho biológico”, completa Michel.

O processo de luto após o falecimento do marido de Ana Lúcia não foi fácil, mas funcionou como um ponta pé inicial para todo o seu processo de redescobrimento.

“Quando meu marido faleceu eu me reinventei. Quando o luto passou agarrei a oportunidade de ser quem eu sempre quis e isso em um momento de transformação na minha vida”, conta.

“A minha nova e talvez, verdadeira, apenas escondida identidade, agora era visível para família inteira, para as minhas filhas, para todos. As pessoas perguntavam: quem é você? Achando que eu fosse morrer de angustia ou que minha vida fosse acabar após perder meu marido, mas eu apenas respondia: agora estou tendo a oportunidade de ser quem eu sou”.

Fotos Paulo Reis

“O ponto mais importante nas gerações mais velhas, como é o caso da Ana Lúcia, que se tornou até inspiração para outras pessoas, é o fato deles estarem entendendo que já cumpriram com todas as obrigações e têm a liberdade de se reinventar e poder escolher quem são”, explica Michel.

O antropólogo afirma que entre gerações há sempre uma tendência pela ruptura de padrões a serem seguidos. O mesmo acontece agora com os baby boomers, que estão entrando na terceira idade e começam a perceber que não precisam envelhecer como os pais ou os avós.

“Minha missão e o que eu tento passar através do Rebeca 60 ou mais e para as minhas filhas é que não tenham medo de envelhecer como eu tive assistindo meus pais. É possível envelhecer com qualidade”, justifica Ana Lucia.

“Hoje vivo um momento de felicidade. Acho que cada um tem a sua fórmula, a minha foi essa: uma oportunidade agarrada de me reinventar. Mas, cada um tem a sua e precisa buscar, independentemente do momento em que esteja na vida, o que precisa para ser feliz”, termina.

Juntamos 7 pessoas do cotidiano que representam o futuro e tendências do aqui e agora que moldarão o amanhã. Ieda, por exemplo, é uma chefe de cozinha da Chapada Diamantina e espalha sua culinária por onde passa. Hoje encanta os paulistas com uma comida tradicional e nordestina em um restaurante que leva seu nome. Por isso impossível não falar de LOBAL, quando o local é muito maior do que o que vem de fora.

Também descobrimos Leandro, preparador de atletas, que muda a vida das pessoas através da AUTO-OTIMIZAÇÃO. Já Urick é púpilo dessa geração de pessoas preocupadas com PRIVACIDADE E PROTEÇÃO DE DADOS. E tem o Fabrício, tão ligado em tecnologia que já fala em uma ROBOTIZAÇÃO DA VIDA.

Sem falar da Renata, que acredita em um mundo em que é possível (e necessário) VIVER MELHOR, assim como a Ana Lúcia, que sabe que número não define nada, que IDADE é EMOCIONAL. E a Júlia? Uma NATIVA ECOLÓGICA que quer transformar o mundo através do ativismo ambiental e na sua crença de um planeta melhor.

Esses são 25 anos da nossa história e é você consumidor que a define. O mundo do consumidor sem rótulos. Um mundo de IDENTIDADES. A cada semana um novo personagem! Conheça nosso manifesto vivo e um evento que moldará o novo olhar sob o consumo e o comportamento na nova década: identidades.consumidormoderno.com.br

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