Como o isolamento social potencializa nossa dependência da tecnologia

Mesmo os desconfiados passam a usar apps de carona para fugir do transporte público e quem não comprava pela internet abastece sua dispensa comprando online

O isolamento social promovido para conter o avanço da Covid-19 tem várias implicações. A economia tem grandes desafios com a mudança no perfil do consumo e sua redução. A saúde luta para correr atrás do prejuízo causado pela pandemia e até práticas religiosas são afetadas.

Entre essas implicações está a dependência da tecnologia. Na medida em que ficamos mais em casa, cresce a frequência das compras online, do uso de aplicativos de videochamada para reuniões de trabalho, o consumo de serviços de streaming, redes sociais e o uso de aplicativos de entrega de comida.

De acordo com uma pesquisa da Coresight Research, os consumidores estão mais cautelosos ao fazer compras em lojas físicas com grande concentração de pessoas e estão se voltando ainda mais para o e-commerce como um meio para obter suprimentos básicos.

O levantamento realizado nos Estados Unidos mostra que quase metade (47%) dos consumidores consultados no fim de fevereiro está evitando fazer compras em shoppings, e 32% estão evitando evitando lojas físicas de rua, fora dos shoppings. Naquele momento, 74% disseram que se afastariam completamente dos shoppings se a situação ficasse pior – e ficou.

O crescimento no uso de redes sociais também vai nos mostrar como estamos mais dependentes da tecnologia para nos aproximar. A agência de marketing de influência Obviously mostrou que houve aumento de 76% nas curtidas diárias de postagens no Instagram por hashtag, nas últimas duas semanas.

Adaptação acelerada

Diante da crise e das incertezas que ela gera, temos ao menos uma certeza: não seremos os mesmos depois que as coisas se acalmarem.

Se por muito tempo ouvimos ou produzimos críticas sobre o modo como a tecnologia afasta as pessoas, agora vivemos o momento em que a tecnologia é fundamental para nos aproximar. Essa é a reflexão que propõe Marina Roale, líder em Pesquisa e Conteúdo da Consumoteca.

“Estamos vivendo um momento de experimentar uma nova face da tecnologia. Vamos repensar nossa relação com o digital com outro viés. É bem provável que quando esse momento acabar vamos sair dele com novos hábitos”, Marina Roale

A necessidade do isolamento social deve fazer com que empresas que não admitiam o home office repensem seus modelos de trabalho, pessoas que tinham desconfiança com aplicativos de carona usem essas plataformas para fugir do transporte público e consumidores que não compravam pela internet passem a abastecer suas dispensas comprando online.

“São tantas coisas novas que vamos poder repensar o modelo em que vivemos atualmente”, afirma Marina.

Para Daniela Klaiman, fundadora da Unlock the Future, a crise do novo coronavírus não cria tendências, apenas acelera um movimento de dependência da tecnologia já existente. Para a futurista, esse choque espalha para todos a necessidade de adaptação a ferramentas tecnológicas, o que antes era obrigação para apenas uma parte da sociedade.

“Quando falávamos em futuro do trabalho já falávamos sobre reuniões não presenciais e o fim dos escritórios. Já estávamos vendo nômades digitais, pessoas trabalhando como freelancers, empresas cada vez mais enxutas. Isso começaria em um topo de pirâmide e depois desceria para a grande massa. Não acho que é uma mudança radical, isso já iria acontecer e agora o processo está sendo adiantado”, Daniela Klaiman

Ou seja, um processo lento de integração a ferramentas tecnológicas se torna acelerado com a chegada de uma crise que obriga as pessoas a ficarem em casa. Mesmo quem não havia se adaptado a ferramentas como trabalho remoto, compras online e aplicativos de economia compartilhada, passa a aproveitar os benefícios dessas utilidades.

Adaptação das empresas

Ao mesmo tempo em que os consumidores passam a usar mais as ferramentas digitais desenvolvidas pelas empresas, uma das incertezas gira em torno da capacidade das companhias em atender demandas cada vez maiores.

A Amazon, maior varejista online dos Estados Unidos, anunciou que seus centros de distribuição no país norte-americano vão receber apenas itens de necessidade básica. Por aqui, o comércio está fechando as portas e transferindo parte da demanda para o e-commerce.

As empresas de economia compartilhada ilustram bem as incertezas que os tempos de crise geram. Seus modelos de negócio estão baseados em plataformas que conectam oferta e demanda. Portanto, é interessante olhar para as medidas que as companhias estão tomando. Afinal, essas empresas têm grande participação nas mudanças de hábitos de consumo nos últimos anos.

A Rappi é uma plataforma que deve ser bastante exigida nas próximas semanas. A empresa já identificou o aumento de pedidos nas verticais de farmácias e supermercados. A tendência é que esses segmentos continuem a crescer acima da média.

Foto: Divulgação

” No momento, acreditamos que podemos ser um grande aliado e uma solução coerente para as pessoas que estão seguindo a recomendação de ficar em casa e evitar aglomerações”, afirma a empresa.

A empresa afirma que o número de entregadores está estável, mas a demanda vem crescendo. Para minimizar os efeitos da Covid-19, a Rappi vai habilitar um botão de entrega sem contato físico. Os consumidores poderão solicitar que os entregadores deixem os pedidos em suas portas, sem a necessidade de entregar em mãos.

A Uber, principal opção para quem quer fugir do transporte público, está ajudando seus motoristas parceiros. Aqueles que tiverem quarentena solicitada por um órgão de saúde receberão ajuda financeira da empresa por 14 dias.

A companhia ainda está disponibilizando recursos para que os motoristas mantenham seus carros limpos. Além de ter um papel importante na prevenção contra o novo coronavírus, os esforços da Uber tentam evitar a queda na oferta de caronas.

O TruckPad, aplicativo que conecta caminhoneiros a cargas, percebeu que a oferta não deve cair. A empresa fez uma pesquisa com caminhoneiros e identificou que eles não vão parar por causa da Covid-19. Ainda assim, a startup toma alguns cuidados.

A empresa vai ajudar na localização e contratação online de caminhoneiros para realizar o transporte de produtos essenciais para hospitais e abrigos.

“Temos informações da nossa base de dados de que a grande maioria dos caminhoneiros não pretende parar de trabalhar nesse momento, o que nos deixa mais seguros em relação ao abastecimento, mas queremos fazer nossa parte para ajudar a fazer com que as demandas essenciais sejam atendidas”, afirma Carlos Mira, CEO e fundador do TruckPad

Já o Airbnb ampliou sua política de cancelamento por causas de força maior para permitir que anfitriões e hóspedes cancelem suas reservas sem custos ou penalidades.

Ficamos mais dependentes da tecnologia mais rápido do que estávamos imaginando. Se estamos nos adaptando ao uso dessas plataformas, as empresas também estão correndo para adaptar a oferta à medida que a demanda cresce – ou diminui, no caso do Airbnb – verticalmente.






MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS Prêmio Consumidor Moderno

CM 256: Os vencedores do Prêmio Consumidor Moderno de Excelência em Serviços ao Cliente

CM 255: Tudo o que você precisa saber sobre o consumidor na pandemia

Você já conhece as Identidades do consumidor?

VEJA MAIS