Tempos de quarentena em um bunker em New Jersey

“O fundamental para mim foi criar uma nova rotina no novo normal para manter a sanidade mental”, conta Caio Blinder, colunista da Consumidor Moderno

Uma ironia que eu marque os 25 anos da revista, da qual sou colunista decano, escrevendo este texto digital do meu bunker em New Jersey. Quando escrevo, eu estou na condição de quase 1 em 3 americanos, em regime de confinamento. Meu dia-a-dia nesta era D.C. (depois do corona) mostra a capacidade de ajuste do ser humano. O fundamental para mim foi criar uma nova rotina no novo normal para manter a sanidade mental.

Nada se compara à nova rotina de minha mulher, Alma, uma guerreira. Professora de escola Montessori (com muitas crianças em condições especiais), ela precisou fazer uma transição brutal em uma semana para o ensino remoto. No jargão desta revista, isto que é um fantástico serviço de atendimento ao cliente (o aluno).

Já que entramos no assunto e no trocadilho infame com o nome da revista, eu sou um consumidor moderníssimo. De repente, me dei conta da importância de tantos trabalhadores agora visíveis que nos servem.

Não falo, claro, de médicos e enfermeiras, mas dos funcionários dos supermercados se desdobrando e se arriscando para que nós, aflitos com a próxima hora e o destino da humanidade, possamos comprar o que precisamos e, na neura tão comentada, também nos entupirmos de papel higiênico.

Mais ironia nesta coluna: eu sou um evangelista do otimismo e da globalização. O psicológo Steven Pinker fez minha cabeça com seus livros, mostrando como as coisas melhoraram desde que saímos das cavernas. Claro que no meio do caminho (apenas para ficar do século 20 para cá), tivemos alguns “percalços” como duas guerras mundiais, Holocausto, cenários nucleares apocalípticos e agora este novo companheiro de viagem, o coronavírus.

Duas eras diferentes

Mas, antes que eu me desgalhe ainda mais, de volta ao ponto. Meu evangelho da globalização e das fronteiras abertas neste março de 2020 é bem mais modesto. Significa caminhar com muito cuidado e protegido por três quadras até o supermercado, onde estão trabalhando os meus heróis.

E outros heróis nesta era D.C. são os porteiros do meu prédio, que seguem trabalhando e uma das tarefas essenciais destes heróis cada vez menos invisíveis é catalogar a montanha de entregas a domicílio pelo pessoal da Amazon e similares.

Mais ironia: eu moro segundo andar, com janela da sala para uma rua relativamente movimentada, praticamente acima da portaria do prédio (imenso, horizontal, quatro andares, ocupando um quarteirão). Na era A.C., eu trabalhava boa parte da semana em casa e me irritavam os entregadores da Amazon que paravam os furgões de entrega, deixando o motor ligado e a música a todo volume. Na era D.C., o barulho é uma sinfonia de Beethoven.

Na era A.C., eu era um fiel cliente do Tony, meu barbeiro italiano. Claro que a barbearia está fechada. Entre minhas incertezas prosaicas, está o destino de minha barba, companheira desde que eu tenho 20 anos. Talvez a raspe e na minha fidelidade de consumidor ao Tony eu vou comprar um gift certificate da sua barbearia.

Desejo saúde e resguardo aos leitores da revista e obviamente à equipe. Por uma questão de sanidade, eu acho fundamental manter algumas rotinas da era A.C. Assim, eu mantive esta coluna, em linhas gerais (sic) com cerca de 3 mil caracteres da edição impressa.


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