Perennials: o levante das mulheres maduras

Conheça o projeto que dialoga com desejos, anseios e experiências das mulheres na maturidade – e que já se tornou referência no assunto por seu pioneirismo

Foto: Shet_alks | Arte: Consumidor Moderno

Demorou cerca de um ano para a plataforma @Shet_alks sair do zero e chegar aos atuais 10 mil seguidores no Instagram, ter um podcast próprio, um site e uma coluna. Parece pouco tempo, certo? Mas a resposta para isso foi a percepção acertada de que uma grande parcela da sociedade simplesmente estava sem voz. No caso, a das e mulheres entre 45+ e 60 (perennials)-. Fundadoras da Shet_alks, a diretora de cena Camila Faus e a roteirista Fê Guerreiro colocaram um holofote nesse nicho ignorado tanto pela indústria do entretenimento, quanto pelas marcas – que ainda colocam modelos e personagens na casa dos 20 anos de idade para passarem por situações típicas de mulheres maduras.

Se você ainda não considerou esse público ou essa audiência, deveria. “Hoje envelhecemos muito melhor”, diz Camila em uma conversa exclusiva para o site Consumidor Moderno. A faixa entre 45+ e 60- ainda não é considerada Terceira Idade e é bastante ativa socialmente. Essas mulheres trabalham, consomem, têm desejos e anseios específicos que passam batido por quem se comunica com o público feminino no geral. Fora do Brasil, no entanto, graças ao movimento Ageless (de valorização da maturidade), essa parcela da sociedade já é mais ouvida e encontra representatividade. “Estudando o mercado, percebemos que essa faixa etária vive em uma espécie de limbo”, conta Camila. Quer saber mais sobre o assunto? Então acompanhe a entrevista com a dupla e repense se você está ou não perdendo a atenção dessas mulheres maravilhosas:

CM – Como surgiu a ideia de criar o perfil Shet_alks?

Camila Faus – A ideia de criar o SHEt nasceu quando percebemos que a mídia queria se comunicar conosco, mulheres maduras entre 45 e 60 anos mas, em vez de usar modelos da nossa faixa etária, usava modelos muito mais jovens e que de nenhuma maneira nos fazia sentir representadas. Vou dar um exemplo real. Um dia, ao voltar de uma consulta dermatológica, comprei um creme para a região dos olhos e, por acaso, esse creme tinha um bico diferenciado, não muito fácil de abrir. Dei um Google e procurei algum tutorial de uso do produto. Para minha surpresa, achei vários tutoriais e todos, sem exceção, usavam modelos jovens, sem nenhuma ruga, na faixa dos vinte anos. Fiquei indignada: “Como assim? Se esse creme é para mulheres 45+, como é que só tem mulheres jovens mostrando como usá-lo?”.

Fê Guerreiro – Além disso, havia um incômodo também com o jeito que a sociedade, como um todo, acredita que a mulher tem que envelhecer: mantendo a aparência eternamente jovem. As pessoas estão acostumadas a achar que beleza é igual a juventude. E não é. Precisamos aprender a enxergar a beleza em uma ruga, em um fio de cabelo branco. A narrativa na qual o “envelhecimento da mulher” está inserida é muito cruel com a gente. Simplesmente não podemos envelhecer em paz. Se a mulher faz procedimentos estéticos ela é taxada de “perua”; se deixa os cabelos brancos é chamada de relaxada. É uma cobrança e um julgamento absurdo. Cada uma tem o direito de envelhecer como se sente mais feliz.

CM – Vocês são amigas de longa data?

CF – Eu e a Fê Guerreiro nos conhecemos há mais de 20 anos, mas somos amigas mesmo há mais ou menos uns seus. É uma história engraçada, por que nossos ex-maridos eram amigos e falavam um para o outro que nós éramos “loucas”. Então, eu e a Fê quase nunca nos víamos e, quando nos encontrávamos, mantínhamos uma certa distância. Tanto ela quanto eu nos separamos desses maridos e, quase dez anos depois, quando eu estava procurando uma roteirista (eu sou diretora de cena), minha assistente me falou da Fê. Pensei “por que não?”. Nos encontramos e no mesmo dia já sacamos que tanto uma quanto a outra eram incríveis. Desde então, não nos separamos mais. Ela roteirizou meu longa-metragem, depois abri uma produtora e a Fê foi minha sócia na área de conteúdo. Agora estamos juntas na vida e no SHEt.

“Estudando o mercado, percebemos que a faixa etária das mulheres entre 45+ e 60 vive em uma espécie de limbo”

CM – Como vocês chegaram ao consenso de fechar o conteúdo para pessoas entre 45+ e 60-?

CF – Estudando o mercado, percebemos que essa é uma faixa etária que vive em uma espécie de limbo. Isso porque não somos mais tão jovens, mas também ainda não podemos ser enquadradas na Terceira Idade. Além disso, a menopausa ainda é um tema tabu. Muitas mulheres passam em silêncio por esse período, que é muito difícil. Elas sofrem sozinhas porque têm vergonha de falar sobre o assunto, de não serem mais vistas como mulheres. E isso porque para a sociedade machista nós não temos função, já que não podemos mais procriar. É claro que esse não é um pensamento estruturado e, justamente por isso, por ser uma coisa enraizada no inconsciente, é tão difícil de mudar. E é exatamente aí que entra nosso projeto SHEt e vários outros que estão mostrando o valor da mulher madura. Até porque, se você parar para pensar, hoje não só envelhecemos mais como também muito melhor. Comparada à geração de nossas avós – e até mães – chegamos aos 50, 60 em muito melhor forma física e emocional do que antes. Entre as causas estão os avanços da ciência, a reposição hormonal, a independência financeira, o autocuidado e a consciência da importância da alimentação e do exercício físico.

Perennials no centro da conversa

CM – Na sua avaliação, como a mulher entre 45+ e -60 é vista no mercado de trabalho, de maneira geral?

CF – É curioso que, recentemente, fizemos uma pesquisa sobre o mercado de trabalho para a mulher nessa faixa de idade e, para nossa surpresa, havia pouquíssimos dados a respeito. Encontramos muitas informações como o rendimento médio mensal dos homens ser de R$ 2.306, enquanto o das mulheres cai para R$ 1.764, por exemplo. Vimos também que a posição de liderança das mulheres é de apenas 39,1% nos cargos gerenciais e que a nossa carga horária é quase 15 horas semanais maior do que a dos homens porque, depois do trabalho, ainda encaramos filhos e afazeres domésticos. Mas sabe o que foi assustador? Todas as pesquisas se referiam à mulheres entre 18 e 49 anos. Não encontramos em lugar dados confiáveis para mulheres com mais de 50 anos. No máximo, no meio de um texto ou outro, uma referência dizendo “e esse número ainda piora quando a mulher passa dos 50”. Triste, não?

“Comparada à geração de nossas avós e até mães, hoje não só envelhecemos mais como também muito melhor”

CM – O que vocês acham do movimento Ageless, que só cresce no mundo?

CF – Maravilhoso e necessário. É importante ressignificar  a beleza como algo que não tem idade. Não poder engravidar não significa que paramos de produzir.

CM – Você acha que as marcas, de uma maneira geral, já descobriram o poder de consumo e validação dessa faixa de mulheres? Pode citar alguns exemplos positivos nesse sentido?

CF – De uma maneira geral, as marcas estão descobrindo sim. Ainda falta muita conscientização e respeito, mas a nossa visibilidade, das mulheres entre 45 e 60 anos, é um caminho sem volta. E as indústrias sabem disso. Tanto que algumas já têm atrizes mais velhas como embaixadoras ou anunciando seus produtos. É o caso da L’Oréal Paris com as atrizes Viola Davis, Julianne Moore, Helen Mirren e também; e também de Isabella Rossellini para a grife francesa Lancôme, por exemplo. Aqui no Brasil, algumas marcas importantes já tiraram o prefixo “anti” de suas embalagens. A Natura é um bom exemplo disso.

CM – Em tempos de pandemia de Covid-19, como você avalia o tratamento dado por alguns setores da sociedade de relativizar a importância da contaminação e da eventual perda de vidas de pessoas a partir dos 60 anos de idade?

CF – Eu e a Fê estamos trabalhando de casa e respeitando ao máximo a questão do isolamento social. Acho que relativizar a importância da contaminação é um erro. Países em que a Covid-19 chegou primeiro e que não deram a devida importância ao vírus (até porque ainda não sabiam) estão pagando muito caro por isso. Milhares de vidas estão sendo perdidas. Quanto a achar que uma vida com mais de 60 anos vale menos do que uma vida mais jovem, eu me pergunto: quem decide isso? Façam-me um favor, não se trata da escolha de Sofia. E se tem alguma coisa para aprender com essa história toda é que, dentro de nossas diferenças, somos todos iguais.

CM – Na sua opinião, quais são os assuntos mais tabu de se falar sobre as mulheres acima dos 45? E os maiores preconceitos?

CF – Quando começamos a falar de menopausa, a aceitação era praticamente zero. Pouquíssimas pessoas respondiam ou interagiam com o tema. Era um tabu total. Hoje, é um dos mais falados. Talvez porque além de informação, também tratamos com leveza e até com humor, as mulheres começaram a se abrir mais. Por outro lado, acho que um dos assuntos com mais preconceitos é sobre o prazer feminino nessa idade. Não porque as mulheres não sintam ou porque escondam, mas ouvimos muito o quanto elas se sentem julgadas pela sociedade por “ainda” sentirem prazer.

É sobre visibilidade

CM – A invisibilidade pela qual a mulher acima dos 45 anos passa, a partir do momento em que não pode mais engravidar, é ainda muito forte na nossa sociedade. Em filmes, novelas, livros… As histórias femininas costumam privilegiar narrativas que primam pela juventude. Iniciativas como a plataforma de vocês vão de encontro a isso e são importantes. O que mais, na sua opinião, pode ser feito?

CF – Muita coisa ainda pode ser feita, mas eu começaria pela transparência do assunto. Nós, mulheres da minha geração, deveríamos falar abertamente sobre esse período com nossas filhas e filhos, com nossos maridos e amigas. É um momento difícil para a maioria e criar uma rede de apoio em que todos ao nosso redor saibam mais sobre o assunto já é um bom começo. Além disso, matérias, artigos, músicas e filmes poderiam ser feitos tratando o tema com mais naturalidade. Afinal, só não passa pela menopausa quem passa para a outra vida.

CM – Quanto tempo vocês dedicam, hoje, à plataforma? Ela também tem site e podcast, certo?

CF – Essa é uma boa pergunta e a resposta mais correta seria “nós nos dedicamos muito, mas ainda assim é menos do que gostaríamos”. Isso porque tanto eu quanto a Fernanda não tiramos nosso ganha pão desse trabalho. Precisamos trabalhar com outras coisas para pagar nossas contas. Eu como diretora de cena e a Fê como redatora. Além disso, nós duas temos filhos, mas a ideia é, cada vez mais, fechar parcerias para podermos nos dedicar exclusivamente ao SHEt. Quando começamos, há um ano, ele era só Insta. Hoje, já temos também site e podcast. Aproveitamos a quarentena para gravar nossa segunda temporada de podcast.

CM – O Instagram da SHEt traz muitos conteúdos pessoais, especialmente seus, Camila. Esse compartilhamento de experiências é proposital?

CF – Sim, é proposital. Sabemos que o olho no olho é muito verdadeiro e que, ao contarmos sobre nossas experiências pessoais, trazemos para perto da gente a pessoa que está ali do outro lado. Isso porque ela se identifica, vê que também somos passíveis de erros, temos nossas dores e nossos amores como todo mundo. O que nos guia são nossos sentimentos e histórias pessoais.






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