Atenção: a pandemia pode estar afetando sua percepção de tempo

Especialistas alertam que o isolamento social traz a sensação de perda de noção de tempo e o fenômeno tem até nome: distorção temporal. Saiba como melhorar esse comportamento

Uma mudança drástica, como a que estamos vivendo diante da pandemia de coronavírus, pode fazer com que as pessoas percam a “noção de tempo”. Quando deixamos de ter uma rotina diária, nossa linha do tempo interna pode ser afetada, por isso, grande parte da população passou a ter dúvidas sobre o dia em que estão – da semana ou do mês -, por exemplo.

Há pessoas que afirmam que os dias estão demorando para passar, enquanto outras pensam que estão rápidos demais. Apesar de parecer um comportamento natural, isso pode estar associado a um fenômeno chamado de distorção temporal.

Rodolfo Tamborin, hipnoterapeuta e especialista em liderança psicológica, reviravolta organizacional e desempenho pessoal, explica que é possível sentir essa distorção logo na infância.

“Com certeza você já experimentou a sensação de estar em uma aula, na época escolar, em que o tempo parecia estar parado, tendo em vista que você não gostava da matéria ou do professor, e possivelmente dos dois. Do mesmo modo, havia aquela aula ou aquele professor(a) que você adorava e nessas aulas o tempo parecia estar voando. Este último exemplo pode ser a realidade de pessoas que são mais produtivas e focadas; o primeiro exemplo pode acontecer para aquelas que se sentem entediadas e dispersas em suas atividades”, diz o especialista.

Uma vez que os horários passam a ser mais livres, nem todos conseguem se organizar para uma nova agenda interna e externa. Para muitos, os dias perderam sua estrutura e o fim de semana está sendo tratado como um dia da semana normal. Há que esteja trabalhando mais que do que é aconselhado e há quem esteja trocando o dia pela noite. Esses comportamentos, além de sobrecarregarem nossa relação com o tempo, podem afetar diretamente a saúde emocional e a produtividade no trabalho remoto.

“Estamos condicionados a trabalhar durante a semana em uma rotina e em um ambiente específico pelo menos 1/3 do nosso dia e aos finais de semana aproveitamos para termos outros compromissos; com mais horas disponíveis aproveitamos para estarmos com quem queremos, onde queremos, fazendo o que queremos. É uma espécie de recompensa pelos dias trabalhados durante a semana. Portanto, quando os dias da semana se fundem e se equalizam com os dias do final de semana, podemos passar a nos sentir mais desmotivados e improdutivos, mas, nesta fase em que vivemos é importante mantermos o foco e nos organizarmos para que possamos adaptar e criar novas recompensas como as dos finais de semana no nosso dia a dia”, orienta Rodolfo Tamborin.

Estresse e sobrecarga de tarefas

Sem uma boa organização, podemos perder a noção dos dias e do calendário, mas, essa desorientação sobre o tempo também pode ser associada a sintomas de estresse, caso se agrave. De acordo com o especialista, existem casos em que o estresse pode vir a se tornar neuro-toxico. Para que este fenômeno aconteça, uma pessoa deve estar em estado de estresse crônico, ou seja, por mais de 3 meses em uma intensidade constante.

“O estresse acontece principalmente pela ação de dois hormônios produzidos pela nossa glândula adrenal: o cortisol e a adrenalina. Em um estado em que estes são produzidos acontece em nosso corpo uma revolução de reações químicas, todas elas com a finalidade de nos proteger do perigo eminente, mas se isto acontecer com constância e diariamente, passaremos com o tempo a ter problemas de memória, concentração e atenção temporal. Por isso, é mais que recomendado que busquemos meios saudáveis para a melhor administração do estresse”, explica Rodolfo.

Quem está em quarentena dentro de casa, provavelmente, precisa de dividir entre deveres familiares, trabalho e lazer. Como tudo está acontecendo no mesmo lugar, muitas pessoas podem sentir dificuldade em manter o foco somente em uma tarefa e acaba alternando atividades com mais frequência.  Isso também pode estar associado a distorção temporal “tendo em vista que alguns possuem tarefas em demasia sentindo que o tempo está curto para a realização de todas, já outras pessoas sentem o tempo devagar, pois seus compromissos e tarefas são reduzidos ou até mesmo inexistentes”.

Tentar realizar várias tarefas cognitivas ao mesmo tempo pode ser um grave erro, afinal, nosso cérebro não foi projetado para isso. Iniciar e terminar uma tarefa é, comprovadamente, mais produtivo e gera menos estresse.

“Uma das maneiras praticáveis para melhorar esta sensação é treinarmos o ‘aqui’ e ‘agora’. Se conseguirmos nos manter no presente em uma maior fração do dia, possivelmente estaremos em maior contato com uma percepção real do tempo em que vivemos”, comenta o terapeuta.

Como podemos melhorar a relação com o tempo?

Há ainda quem esteja em batalha com a procrastinação, que pode causar mais prejuízos diante da rotina de isolamento. “O ato de procrastinar as atividades, via de regra, independe dessa situação atual. Quem já fazia isso antes só tende a piorar nesta época. Quem era mais organizado e disciplinado antes, tende a continuar agindo assim mesmo em um período de mudanças como esse que estamos vivendo”, explica José Helio Contador Filho, especialista em Neurociências aplicada ao mundo corporativo e qualidade de vida.

Então, como afastar essa vontade de deixar as coisas para depois e fazer o tempo “valer a pena”? Neste sentido, seguir uma agenda diária que respeite suas prioridades e resistir à tentações (como olhar as mídias sociais insistentemente) ajuda bastante.  Ter um horário regrado para o almoço e utilizar aplicativos de organização também são boas opções.

“Trabalhar em casa é um grande desafio, que exige muita disciplina e foco, senão a pessoa se perde totalmente em termos de tempo e produtividade. É preciso manter uma rotina como se estivesse trabalhando fora de casa, com uma agenda bem definida e respeitando os finais de semana para atividades mais pessoais. Caso contrário, o relógio “mental e cognitivo” pode entrar numa situação de descontrole total, prejudicando o foco e a produtividade”, orienta o especialista em Neurociências.

Segundo José Helio, o isolamento social também é uma ótima oportunidade para aprimorar o autoconhecimento e desenvolver novas experiências. Por isso, manter o contato com amigos e familiares e buscar atividades que possam ajudar a si mesmo e as outras pessoas, faz toda a diferença. Ajudar os outros “ativa os circuitos de prazer e recompensa do nosso cérebro, trazendo uma sensação de satisfação e felicidade”.

Além disso, a noção de tempo sempre foi e sempre será relativa às atividades e disciplina de cada um e ela pode mudar com o grau de interesse que temos nas coisas. “A sensação de melhor aproveitamento do dia só virá se a pessoa organizar uma agenda de atividades para a semana e segui-la com disciplina. Manter os horários de dormir, acordar, fazer exercícios físicos, leituras apropriadas, refeições saudáveis e bons filmes são alguns exemplos”, finaliza o profissional.Tecnologia mostra que é possível ser produtivo fora do escritório

Conheça as tendências que foram aceleradas pelo coronavírus

Carga mental: como equilibrar durante o isolamento






Acesse a edição:

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS