O que “Náufrago” e mais filmes sobre isolamento ensinam sobre resiliência

O cinema traz exemplos de como é preciso abrir mão de velhas práticas e entender que não se controla nada – a não ser nossa própria maneira de enxergar a realidade

Um dos significados da palavra resiliência – o mais usado, na verdade – é a capacidade de adaptação a uma situação de má sorte ou de grande mudança. E se ela já vinha sendo bastante usada no mundo dos negócios, em tempos de quarentena e incertezas econômicas e sociais, talvez seja para esse termo-chave que tenhamos que olhar com mais reflexão. Por aqui, caminho para ultrapassar o 40.º dia de isolamento em Barcelona. No Brasil, a situação não é diferente. Diante de um futuro que não dá pistas de como será, que aplicações práticas a resiliência pode ter em nosso dia a dia?

Fui buscar em três boas obras cinematográficas a inspiração através de como seus personagens lidam com o abandono social ou a reclusão por tempos prolongados. Como continuaram quando a ordem que existia até então lhes foi roubada de um momento para outro. O maior clássico nesse sentido é “O Náufrago”, filme estrelado por Tom Hanks. A produção de 2000 traz o ator no papel de Chuck Noland, um executivo da empresa FedEx (o “correio” norte-americano), que sofre um acidente de avião durante um voo de trabalho e cai numa ilha deserta no Pacífico Sul.

Chuck fica quatro anos sozinho, perdido naquele pedaço de terra. A princípio, ele se ajeita como dá na praia, recolhe os pacotes de FedEx que a maré devolve e fica esperando o salvamento. Nos primeiros dias, Chuck sequer abre as embalagens para saber se há algo lá que serve para ajudá-lo. Vale lembrar que ele está sem água, comida, fogo, remédios. Mesmo desprotegido, seu EU consciente demora a perceber que a velha ordem se foi. E que, à sua maneira, terá que encontrar outras formas para sobreviver.

Uma delas, inclusive, inclui transformar uma bola de vôlei em um amigo: Wilson. As cenas com o objeto se tornaram clássicas na cinematografia mundial. O personagem de Hanks fez o que podia – tanto fisicamente quanto mentalmente – para continar. Ao final da narrativa (não é spoiler contar o fim de um filme que tem 20 anos), já salvo, Chuck confessa a um amigo (de carne e osso, neste caso): “Percebi que não tinha poder sobre nada. Mas tinha que continuar, mesmo sem razão lógica para isso”. Ele, um homem dos números, que controlava o tempo das entregas, capaz de sacrificar a noite de Natal em família para voar pela empresa… Ele precisou recriar suas crenças e surgir como uma outra pessoa para seguir seu instinto de sobrevivência. E isso não foi feito sem dor.

UMA QUESTÃO DE PRIVILÉGIOS

Assistir a “O Náufrago” do conforto do sofá, com toda a infraestrutura possível – como por exemplo comer peixe cru apenas como sushi e não como opção única de alimentação – pode fazer você reavaliar seu próprio isolamento. E perceber, a sua condição privilegiada de reclusão, seja diante de Chuck, seja dentro do cenário em que se vive no Brasil. O filme “Perdido Em Marte”, de 2015, é mais um que pode colaborar para nosso entendimento do que é estar sozinho e isolado. Na produção, o astronauta Mark Watney, interpretado por Matt Damon, precisa se manter vivo sozinho em um lugar bastante inóspito – o planeta Marte. Comida? Bom, ele consegue plantar batatas e viver de racionamento alimentar, enquanto sua chance de ser resgatado é ainda menor que a do náufrago de Tom Hanks.

Como se trata de uma ficção, bola-se um plano na Terra para trazê-lo de volta. Com grandes chances de dar certo. Com grandes chances de dar errado. E com ineditismo. O astronauta-botânico Mark faz o quê enquanto isso? Escuta incessantemente as músicas disponíveis num notebook velho; conversa consigo mesmo em um diário virtual; enfrenta os fracassos quando tenta realizar algo, não consegue e precisa começar de novo. Sem garantias. Mais uma vez, o personagem cuida de si sem ter a menor ideia de como será seu dia seguinte.

CONFINAMENTO E LIMITE PESSOAL

Especialistas mundo afora especulam quais serão os efeitos mentais desse período de reclusão, que é entendido de forma diferente para cada pessoa. Uma coisa, porém, é certa: testa-se nesses dias o entendimento de nossos próprios limites. O que me leva a trazer um último filme aqui para dialogar com esse atual momento. Trata-se de “O Quarto de Jack”, também de 2015. Estrelado por Brie Larson, que ganhou um Oscar pela atuação, o drama conta a vida de uma mulher e seu filho pequeno presos em um quarto que é, na verdade, um cativeiro. Sequestrada por um homem, a personagem de Brie (que sequer tem um nome), precisa dar significado positivo para aquele ambiente a fim de continuar viva.

Aqui, a ficção traz outra experiência de confinamento: aquela permeada por atos de agressão física ou psicológica, algo que exige ainda mais capacidade de resistência. E apesar de essa realidade talvez estar longe de você, ela se tornou a rotina de inúmeras mulheres no mundo. Em todos os países onde o confinamento foi imposto, a violência doméstica aumentou enormemente. O problema é tão sério que, no Brasil, marcas como a Natura, por exemplo, entraram em cena para ajudar as vítimas através de comunicações específicas em suas redes sociais e em conteúdos como podcasts, por exemplo.

O que proponho com esses filmes, portanto, é que a gente seja capaz de alternar um pouco o ponto de vista. Em situações limites um jeito de ser antigo muitas vezes não serve – é isso que essas narrativas provam. É preciso uma grande capacidade de reinvenção. É preciso buscar dentro de si aquilo que mais importa, bem como também se arriscar. As viradas na trama das três produções pedem que seus heróis – e sua heroína – se arrisquem na base do tudo ou nada. Se você não está na posição de ter que colocar sua vida em risco para seguir adiante – como esses personagens ou como quem lida diariamente na linha de frente do combate ao vírus – é como se sua jangada rumo ao salvamento te seja entregue pronta. Bem como o foguete que te levará são e salvo para o outro lado.

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