O segredo para sobreviver sem abraços na quarentena

O abraço é um ato de carinho ao qual estamos culturalmente adaptados. Saiba por que ele é importante e como lidar com a falta que faz

As demonstrações de afeto e carinhos físicos são extremamente essenciais para que as pessoas se sintam queridas. Em tempo de quarentena, quem não gostaria de ter aquele amigo ou familiar que está distante para abraçar? Com o decreto de isolamento social, as relações pessoais praticamente migraram para o ambiente digital, mas a necessidade de um abraço ainda está fortemente presente durante os dias. E não é à toa que sentimos isso.

Está comprovado que o simples ato de abraçar pode liberar hormônios que trazem felicidade e ajudam a diminuir os níveis de estresse. Parece controverso, mas, é por isso que precisamos ficar isolados por enquanto: quanto mais nos cuidarmos agora, mais rápido poderemos abraçar as pessoas de quem sentimos saudade.

Para entender sobre o assunto, conversamos com Fabiano Abreu, psicanalista e neuropsicanalista.

Veja a entrevista abaixo:

CONSUMIDOR MODERNO: Quais benefícios um abraço pode trazer à saúde física, mental e emocional?

FABIANO ABREU: As intenções são decifradas pelo cognitivo do recebedor do abraço distinguindo-as. Um abraço de agradecimento ativa o hormônio da satisfação. Um abraço de amor,  o hormônio do amor. Ou seja, o sentimento depositado no abraço é o que vai determinar qual hormônio irá produzir em maior quantidade de quem recebe e de quem dá o abraço. Quando o aumento da produção desses hormônios da emoção acontece, melhoramos a nossa saúde mental e prolongamos esses momentos na memória já que a emoção é essencial para uma melhor memorização.

CM: O abraço é muito associado a liberação da oxitocina. Qual a importância disso?

FA: É o que chamam de hormônio do amor. Eu chamo de “hormônio da empatia e suas nuances”, pois são as variantes da satisfação, recompensa e conquista, pois ele define o amor, a amizade, o prazer, o bem-estar, a recompensa, a atração e o desejo. A sua produção é necessária para que sempre possamos buscar essas recompensas para a nossa sobrevivência.

CM: Por que em situações, como o isolamento social, em que não podemos abraçar, nos sentimos frágeis e carentes?

FA: Porque o abraço pode trazer conforto através de uma segurança. Quando nascemos somos abraçados pelos nossos pais e acolhidos no peito da mãe. Há este contato desde o nascimento e quando nos sentimos desamparados, retrocedemos inconscientemente a este momento em busca de uma solução.

CM: Essa necessidade de carinho e abraço é algo que acontece a partir de quanto?

FA: Desde que nascemos! Está impresso em nosso código genético. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência que a produção de hormônios nos dê estímulo para seguir adiante.

CM: Como suprir a ausência de um abraço na quarentena?

FA: O que não temos, compensamos, nada está perdido! Na falta do abraço, podemos substituí-lo por outras ações que forneçam os mesmos benefícios do abraço. Palavras, mensagens, adquirindo conhecimento com cursos, aprendendo e fazendo um autoconhecimento, podemos proporcionar uma grande mudança em nossa vida.

CM: A falta do contato físico pode causar reações mais graves nas pessoas?

FA: Tudo o que é cortado da nossa linha cronológica nos causam danos. Em nosso código genético está impresso tudo o que vivemos desde o nosso nascimento. Tudo o que cortarmos deste cotidiano ancestral nos causará impactos.  A falta reflete em tristeza e solidão, pois implanta em nosso inconsciente uma necessidade não suprida.

CM: Do ponto de vista psicanalítico, se as pessoas ficarem muito tempo isoladas por conta da pandemia, elas podem perder o desejo de contato físico e se adaptarem a viverem mais “sozinhas”?

FA: Não totalmente, como disse anteriormente, está impresso em nosso código genético. O que pode acontecer é a pessoa se adaptar a uma nova realidade e não buscar mecanismos para suprir a falta e sofrer as suas consequências. Somos seres adaptáveis, mas sofremos com a adaptação e demoram ciclos e ciclos de vida para nos adaptarmos a elas. As pessoas poderiam substituir os desejos e aliviar assim a tensão causada pela falta; mas, nem todas teriam este cognitivo desenvolvido a ponto de conseguir buscar este equilíbrio e podem precisar de uma ajuda profissional.


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