É possível manter a criatividade em tempos de pandemia?

Uma das saídas pode ser usar o conceito de “Inteligência Criativa”, que sugere acionar a imaginação para resolver até mesmo os problemas mais simples

A essa altura da quarentena no Brasil, quem trabalha em home office até já deve ter se acostumado com a nova rotina de trabalho. Mas isso não significa que a criatividade para lidar com entregas e demandas diárias esteja seguindo pelo mesmo caminho de adequação. Muito tem se falado de como a saúde mental está sob pressão diante do cenário incerto causado pela Covid-19.

São mudanças sanitárias, econômicas e sociais que nem mesmo os especialistas conseguem mapear o total alcance. Essa situação tem tudo para levar a um esgotamento criativo, mas quem está se sentindo assim precisa saber que não está sozinho ao ficar mirando a tela em branco do computador.

Uma ideia para aliviar essa sensação de pressão é prestar um pouco mais de atenção no que nos inspira a criatividade. E alimentar a nossa própria imaginação é um caminho muito válido dentro do conceito de Inteligência Criativa, como explica Alessandra Canuto, especialista em neurolinguística. “Que tal ler sobre novos temas, assistir a outros programas, desfazer hábitos?”, sugere ela, que reforça: “Momento de incubação também alimenta a nossa criatividade”. Acompanhe o bate-papo abaixo:

Consumidor Moderno: Você pode explicar para a gente o que seria o conceito de Inteligência Criativa?
Allessandra Canuto: O conceito foi abordado por Bruce Nussbaum, professor de Inovação e Design na famosa escola Parsons, de Nova York, em seu livro “Creative Intelligence”. Ele é um dos nomes a pensar sobre esses dois assuntos de forma moderna, tanto que já contribuiu como colunista para a agência Bloomberg e para o site “Fast Company”. De uma maneira geral, no meu entendimento, quando Nussbaum trata de Inteligência Criativa, ele está se referindo à capacidade de utilizar nosso repertório para resolver problemas de forma prática usando a imaginação e conectando coisas não obviamente “conectáveis”. Refere-se à nossa habilidade de usar todas as outras inteligências para fazer algo de um jeito diferente, que ninguém tenha feito antes. É como ajudar o seu cérebro a criar novas práticas.

CM: Como se manter criativo em um período de incerteza tão grande como esse? Não existe uma receita fácil, mas quais ferramentas podemos usar?
AC: A base para alavancar a chamada Inteligência Criativa é a confiança. Confiar que se tem os recursos necessários para resolver os desafios que aparecerem. Confiar que tudo vai passar e as experiências ficarão como ensinamento. Um primeiro passo bem simples é olhar para os problemas ao nosso redor e nos permitir combinar coisas já existentes para resolvê-los. Podemos também nos predispor a olhar o mundo de forma mais curiosa, questionando o que nos chega. Mas, para isso, é necessário ampliar o repertório de conhecimento para poder combinar coisas. Então, que tal ler sobre novos temas, assistir a outros programas, desfazer hábitos, desfazer rotinas, consumir assuntos que não te interessam? Outra sugestão que alimenta a nossa criatividade são os momentos de incubação: se proponha a ficar sem fazer nada e a se afastar diretamente do problema que quer resolver. Seu repertório trabalhará inconscientemente a seu favor.

CM: É possível “treinar” a mente para ser mais criativo?
AC: Recomendo um exercício que é treinar a criatividade olhando para os problemas do dia a dia, inclusive aqueles os quais você não é diretamente responsável e que não são tão sérios, por exemplo. Se permitir ficar pensando em como resolver algo de maneira inusitada já é um começo. Questione os problemas que parecem óbvios e se pergunte se essa situação se trata mesmo de um problema.

CM: Há uma certa crítica à pressão para se manter criativo profissionalmente principalmente no momento atual, em que a saúde mental das pessoas está em xeque por causa do contexto da epidemia. Como equilibrar isso?
AC: Na minha opinião, não podemos enxergar a criatividade como um dom, como um recurso extraordinário, algo exclusivo para artistas ou que acontece ao acaso. Se olharmos assim teremos que concordar que irá requerer esforço. Mas se, ao contrário, disso entendermos que a criatividade é algo que todo ser humano já tem desde que nasce… Basta olhar para as crianças, certo? Se formos por esse caminho, entenderemos que a gente desaprende como ser criativo, porque fomos no enquadrando, entrando em certas normas e, por isso, nos distanciamos de um recurso natural que é imaginar.

CM: Você fala em encontrar novas saídas para fazer as coisas, não repetir os processos antigos, da época pré-Covid-19. O que isso quer dizer, exatamente? Pode dar exemplos concretos de empresas ou de ações que reflitam isso?
AC: Posso citar como exemplo o caso de uma das maiores empresa de treinamentos corporativos em recursos humanos que foi afetada pelo trabalho remoto e precisou remodelar sua maneira de agir usando ferramentas online, algo que não era comum antes. Também ressalto que o home office, pratica que não era realidade para cerca de 51% das empresas do Brasil antes da pandemia, passou a ser visto com bons olhos para 80% dos gestores que estão experimentando essa maneira de trabalhar. Ou seja, é uma quebra de processos antigos e essa novidade pode se tornar uma alternativa mais presente na realidade de muitas empresas de agora em diante.

CM: Como gestores podem se tornar criativos em um momento delicado como esse?
AC: Existe um exercício que costumo propor e que pode funcionar. O gestor pode levar os problemas para seus times ou seus pares e solicitar que todos possam contribuir com as piores ideias para resolver a tal questão. Será algo tão inesperado, mas que irá envolver as pessoas a pontos de engajá-las na criação de uma solução de fato aplicável quando as alternativas começarem a ser analisadas.

CM: Você acha que também vamos precisar reavaliar os resultados dentro desse contexto de pandemia? As empresas precisam rever seus conceitos de desempenho?
AC: Depende do segmento da empresa. Existem algumas empresas que estão superando expectativas e sua atividade está a pleno vapor mesmo durante a pandemia. Talvez elas tenham que reavaliar até para mais o resultado que tinham previsto. Os e-commerces são um exemplo. Outras precisarão rever totalmente esses números – para menos. Mas ainda teremos uma boa parte de empresas que já se organizaram para continuar no ritmo anterior mesmo com a mudança de formato e que não precisarão mexer com os indicadores de desempenho.


Lives e uso de drone: veja o que disseram Riachuelo e Mastecard no webinar da CM
O futuro digital chegou: para o setor de seguros, é hora de agir
Como a computação em nuvem pode ser útil para o setor de saúde






MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS Prêmio Consumidor Moderno

CM 256: Os vencedores do Prêmio Consumidor Moderno de Excelência em Serviços ao Cliente

CM 255: Tudo o que você precisa saber sobre o consumidor na pandemia

Você já conhece as Identidades do consumidor?

VEJA MAIS