Comparar-se é sempre prejudicial, especialmente em tempos de pandemia

A pressão por produzir ainda mais e melhor em um cenário de incerteza precisa ser avaliada para proteger a nossa saúde mental

Se você já acorda se comparando com aquele monte de gente que, nas redes sociais, parece ter conseguido transformar a quarentena em um momento brilhante para comer melhor, se exercitar mais e ser ultra produtivo no trabalho saiba que não está sozinho ou sozinha. A realidade pós-Covid-19 mexeu, inclusive, com os conceitos de produtividade, que vinham sendo questionados já há algum tempo por empresas que propunham semanas com menos horas de trabalho ou novas formas de se medir o cumprimento de tarefas.

Em um momento de certa instabilidade profissional e econômica como esse, no entanto, é normal nossos instintos competitivos se aguçarem. O que não pode acontecer é perder o controle e essa comparação excessiva se tornar muito mais um freio do que um motivador para as realizações diárias. “Essa pandemia exige de nós uma espécie de isolamento sem isolamento: apesar da distância física, temos que nos envolver, conversar, dividir, do jeito que for. E lembrar que ela passará”, explica o especialista Dr. Luiz Scocca, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da USP, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Americana de Psiquiatria (APA).

Ele alerta para uma onda de distúrbios mentais que deve vir a reboque dos dias de confinamento e da pressão causada pelas mortes e situações de exceção causadas pelo surto de Covid-19. Mas é possível ficar de olho em como estamos nos sentindo para não deixar os pensamentos e os sentimentos saírem do controle. Acompanhe na entrevista abaixo:

Consumidor Moderno: Em primeiro lugar, gostaria de saber se existe algum mecanismo de funcionamento do cérebro que faça com que a gente se compare com o outro? É um comportamento normal?

Dr. Luiz Scocca: Primeiramente é preciso dizer que como espécie já temos algo inato de competição. O Homo sapiens compete como qualquer espécie animal por território, recursos naturais, preferência do sexo oposto, etc. Além dessa característica comum a tantos animais, no nosso caso o ser humano luta também por poder, dinheiro, fama, etc. É inata essa competitividade. É normal e até por essa razão é importante adquirirmos um certo controle sobre nossas comparações, pois elas poderão nos fazer sofrer muito.

CM: Você poderia explicar um pouco melhor, então, como esse funcionamento inato de competição funciona?

LS: Recentemente, pesquisas com neuroimagens sugerem que, de fato, os seres humanos têm uma mudança na atividade cerebral quando buscam comparações. Nós julgamos! Por exemplo, para concluir que alguém é alto nós o fazemos por comparação que varia de grupo a grupo. Então, o ato de julgar está intrinsecamente ligado à comparação. Julgamos uns aos outros e a nós mesmos, e muitos estudos psicossociais demonstram que julgar está relacionado ao bem-estar e ao comportamento. Eu sou alto em relação à população mais próxima a mim, então estou bem. Ou mal quando não. E o fulano é baixinho ou alto demais. Isso interfere, portanto, em um sistema cerebral da mais alta importância para uma série de comportamentos que temos, que é o sistema de recompensa. Ele inclui várias estruturas cerebrais e tem estreita relação com outros sistemas. A principal substância produzida no cérebro que envolve a sensação de prazer é a dopamina. Em condições de pesquisa podemos ver essas regiões mais ou menos estimuladas nas imagens conforme as comparações acontecem.

CM: Essa necessidade de aprovação externa pode se tornar algo delicado para a saúde mental em um momento tão único como esse da pandemia de Covid-19?

LS: Eu posso dizer que ainda muito deverá ser pesquisado para entendermos esse desastre de proporções mundiais que foi a pandemia para a saúde mental das pessoas. Já sabemos que ela trouxe um incremento nas queixas de transtornos da mente, com surgimento de novos casos, recaídas e recrudescência. Mas acredito que alguns fenômenos interessantes têm acontecido. Por exemplo, muitos pacientes que antes se sentiam mal em ter que ir para a escola ou o trabalho estão se adaptando muito ao isolamento, enquanto outros que gostam de se vestir bem, se produzir, ver pessoas, estão sofrendo mais. Algumas pessoas estão mais ansiosas e, muitas vezes, deprimidas. Também notamos diferenças nas personalidades, que conforme mais ou menos resilientes, apresentam maior ou menor adesão às medidas preventivas sugeridas.

“A competitividade é algo normal do ser humano. E, até por essa razão,  é importante adquirirmos um certo controle sobre nossas comparações,  pois elas poderão nos fazer sofrer muito”

CM: Em tempos de estresse e incertezas por causa da contaminação de Covid-19, que prejuízos pode trazer para a saúde mental a prática de se ficar se comparando com os colegas de trabalho? Quando devo começar a me preocupar?

LS: Nós já estamos preocupados, essa é a verdade. Muita gente tem lutado bravamente neste momento: tenho pacientes que conseguiram manter uma rotina diária, uma disciplina em relação às medidas de isolamento, mantiveram seus trabalhos e até começaram a fazer ginástica, perder peso, se alimentar melhor. Outras pessoas, porém, aumentaram a ingestão de álcool, engordaram, estão dormindo tarde e acordando tarde sem se sentirem descansados. E essas comparações são um ciclo vicioso, elas perpetuam o ciclo. O que deveria servir como exemplo serve como mecanismos de autodepreciação, que é o pior aspecto da comparação por gerar ansiedade, angústia, tristeza, depressão.

CM: Essa comparação intensa no ambiente de trabalho, com outros colegas, pode ser resultado da Síndrome do Impostor ou Impostora, aquela em que o profissional não se acha bom o suficiente para desempenhar determinada tarefa ou chegar a determinado posto de trabalho? Como identificar se já não estou dentro desse perfil de comportamento?

LS: Pode, seria um fator a mais, e é um tipo de comparação carregado de vieses. Claro que devemos diferenciar essa condição de outros transtornos, como um dos diversos tipos de depressão, um transtorno ansioso e outras neuroses, de modo que profissionais de saúde mental deverão ser consultados. Nesses casos o transtorno apresenta sintomas mais graves, afetando outras esferas da vida, mas a síndrome do impostor incomoda muito e poderá ser tratada em terapia.

CM: Como atenuar esses pensamentos de competição excessiva e de impotência?

LS: Há dicas importantes para lidar com esses sentimentos se você ou alguém que conheça pareça tê-los. O principal é saber que a Síndrome do Impostor acontece e às vezes as pessoas nem se dão conta! Ao saber é preciso olhar e analisar mais criticamente esses sintomas: “Algo como: esse pensamento serve para quê? O que vai me trazer de bom? Não será pior para mim e meu grupo eu fazer assim?”. E daqui partem outras dicas: notar que pessoas que não se sentem assim apresentam desempenhos semelhantes ao seu. Então, que economia de energia cerebral seria se a pessoa não pensar assim. Perceba que começa a surgir uma crítica mais construtiva sobre essas questões. Não é que eu não possa me sentir assim, mas vou interromper o processo de desmerecimento e não deixar que ele tome conta.

CM: Você acha que quem se compara muito com o outro no ambiente de trabalho também pode fazer isso na vida pessoal?
LS: Definitivamente sim, está muito ligado à personalidade da pessoa, esse “juiz cruel dentro de mim”. Quantas vezes já ouvi: “Sou um fracasso no trabalho, nas relações afetivas e não tenho amigos!”.

“Essa pandemia exige de nós um isolamento sem isolamento: apesar da distância física, temos que nos envolver, conversar, dividir, do jeito que for. E lembrar que ela passará”

CM: Que conselhos você pode pode dar para quem por insegurança ou por uma tendência de comportamento costuma se comparar muito com os outros no ambiente profissional? Como neutralizar esse comportamento?
LS: Quero enfatizar que muitas vezes a comparação é boa para o ser humano quando ela serve de estímulo para a pessoa ser melhor, atingir aquele nível, seguir aquele exemplo. Quando só serve para se diminuir, a autoestima será extremamente prejudicada. Se a pessoa já possui uma condição mental, isso pode piorar. Eu sugiro que a pessoa identifique os gatilhos que a fazem pensar que é pior e tente controlá-los. Se possível leve isso ao psicoterapeuta, ao amigo, ao mentor, converse sobre como se sente e quando. Claro que um profissional de saúde mental terá mais instrumentos, treinamento e não julgará, não dirá frases do lugar comum, usará estratégias técnicas baseadas em estudos e, portanto, essa conversa será mais eficaz. Sugiro também que a pessoa se engaje em grupos onde seja possível se abrir honestamente sobre o problema. Há grupos de auto-ajuda que estão se encontrando na internet para abordar exatamente essa problemática. É preciso focar em criar laços com outras pessoas, particularmente que sejam compreensivas sobre tais questões. De você para você, tente focar em seus valores, em ser mais gentil consigo mesmo, procurar entender bem as escolhas que faz. Também sugiro que crie um mantra, uma oração para usar diariamente sobre si mesmo, com palavras de estímulo e de autovalorização.






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