Mudanças à vista: 40 horas de trabalho semanais nunca mais?

Em entrevista exclusiva com o jornalista britânico David Baker, fundador da “Wired” no Reino Unido, uma das revistas mais respeitadas no mundo, falamos sobre o assunto e outras tendências

A ação do novo coronavírus pelo mundo acelerou profundas transformações na maneira como nos relacionamos com o que se chama trabalho. E a mudança de local – do escritório para casa – foi só a primeira onda desse tsunami. Vem muito mais por aí – seja por causa dos rápidos avanços tecnológicos, seja por conta de um estilo de vida que, somado à inteligência artificial, por exemplo, nos obrigará a rever as tradicionais oito horas por dia (mínimas, sem contar as extras) no escritório ou em empresas de serviço ao público.

A jornada de quatro dias laborais já é uma realidade testada em Holanda e Nova Zelândia – implementada neste último país, inclusive, para ajudar a levantá-lo economicamente depois da contaminação. Já no território europeu, por exemplo, a média de horas semanais trabalhadas é de 30, muito abaixo das que o trabalhador brasileiro está acostumado a cumprir.

Para entender mais sobre esse movimento que já parece ser sem volta, fomos conversar com um superespecialista quando o assunto é futuro. O jornalista britânico David Baker é fundador da “Wired” no Reino Unido, publicação das mais respeitadas no mundo para falar de tecnologia, inovação, consumo e comportamento e, claro, tendências.

Ele também é um dos membros sêniores da The School of Life, em Londres, núcleo de aperfeiçoamento pessoal que tem filial em São Paulo. Para David, estamos sendo empurrados para uma mudança de visão de mundo na qual faz mais sentido dedicar horas do dia (e da vida como um todo) a coisas que nos dêem prazer do que a cargas horárias de trabalho lotadas de procrastinação e pouco resultado prático.

Qual o futuro do trabalho?

CONSUMIDOR MODERNO: Começa a surgir, com mais força, um movimento real de diminuir a jornada de trabalho de cinco dias laborais para quatro, o que pode ser visto já em alguns países do mundo como Holanda e Nova Zelândia. No Japão, a Microsoft já fez o teste de retirar um dia de trabalho e o resultado foi positivo. Você poderia explicar para a gente de onde surgiu a ideia da semana de trabalho de 5 dias?

DAVID BAKER: Eu não sou um expert em “História do Trabalho”, mas posso dizer que a semana de cinco dias de jornada laboral emergiu, nos Estados Unidos, no começo do século 20, para permitir que os trabalhadores judeus tirassem o “sábado judaico”, ou seja, deixar o sábado sem trabalhar. Desde a Revolução Industrial, os empregadores já concediam aos trabalhadores os domingos de folga (em homenagem ao sábado cristão) e meio dia de folga no sábado. A idéia era que eles voltassem ao trabalho na segunda-feira de manhã renovados – presumivelmente tanto física quanto espiritualmente. Sabe-se, porém, que ainda hoje existem muitos trabalhadores, não apenas na agricultura, mas geralmente em pequenas lojas familiares onde os funcionários ainda trabalham uma semana de sete dias.

CM: E porque essa concepção está mudando?

DB: Hoje, nosso interesse em reduzir o horário de trabalho provém de várias idéias. Começamos a perceber, por exemplo, que muito do que as pessoas fazem nesse horário é, na verdade, improdutivo. É trabalho criado simplesmente para preencher o tempo. Isso levou a um movimento a favor de uma atividade laboral “mais inteligente”, na qual se executam as tarefas que realmente importam, de maneira mais ágil, e por um período mais curto. Bons chefes deram tempo livre para lazer seus funcionários dentro dessa lógica. Chefes menos imaginativos (os quais, infelizmente, ainda existem em grande número) simplesmente reduziram o tamanho de sua força de trabalho e empilharam tarefas extras para aqueles permanecem nessa forma de atuação.

Em muitos locais estamos agora na posição absurda de que ver aqueles que trabalham com inteligência e rapidez serem punidos ao receber tarefas adicionais para executarem. Na minha opinião, devemos reverter isso. Um segundo fator é a tecnologia. Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, dentro de 100 anos, todos trabalharíamos uma semana de 15 horas, graças aos avanços da tecnologia. Keynes não poderia imaginar os avanços tecnológicos que vimos desde que ele fez essa previsão, mas muitas pessoas ainda estão trabalhando uma semana de 40, 50, 60 horas.

Dito isto, a tecnologia agora nos oferece a chance de mudar as coisas para melhor. A automação, embora não ocorra tão rapidamente como algumas pessoas prevêem, se a usarmos bem, nos libertará do trabalho que é essencialmente trabalhoso e nos dará tempo e energia para fazer coisas que nos dão prazer e realmente usam nossos recursos, nossas habilidades humanas. Acho que estamos começando a entender, finalmente, que o trabalho é apenas um componente da vida e não necessariamente o mais importante. Espero que práticas de trabalho mais inteligentes, gestão mais inteligente e melhor tecnologia se combinem, em breve, para nos dar mais tempo de lazer para viver a vida ao máximo.

“Acho que estamos começando a entender, finalmente, que o trabalho é apenas um componente da vida e não necessariamente o mais importante”

CM: Como a pandemia de Covid-19 acelerou essas mudanças na maneira como nós trabalhamos hoje? Pensar na semana de 4 dias é um desses exemplos?

DB: Muitos de nós (não todos, claro) estivemos trabalhando em casa durante essa pandemia e descobrimos algumas coisas importantes vindas do experimento acidental pelo qual passamos. A primeira é que para pessoas que costumam trabalhar em um escritório, pelo menos, é possível trabalhar em casa, graças, acima de tudo, à existência da Internet. Muitas pessoas nessa situação também descobriram que as tarefas são executadas muito mais rapidamente quando você não é interrompido por colegas ou reuniões departamentais e isso levou à ideia de que talvez possamos concluir o trabalho para o qual somos pagos em quatro dias, ao invés vez de cinco.

A desvantagem de trabalhar em casa, é claro, é que tem sido difícil para as pessoas em lares pequenos e com crianças. Elas acharam mais complicado atuar dessa maneira do que em um escritório. Existem ainda pessoas – nas indústrias de manufatura e serviços, por exemplo – que não puderam trabalhar em casa. Muitos não foram capazes de se proteger do vírus sem correr o risco de perder sua renda. Quando nossos países saírem da pandemia, acho que veremos uma divisão – entre pessoas que são capazes de permanecer em casa por uma ou toda a semana, e outras que precisam (ou preferem) se mudar para uma ambiente de trabalho. Não sei se essa mudança em si levará a uma semana de quatro dias nos escritórios – os gerentes ainda ficam muito ansiosos quando pensam que as pessoas de sua equipe não estão trabalhando e vários deles usam o Zoom ou o e-mail para vigiá-los.

CM: Como podemos repensar o conceito de produtividade no trabalho, já que tantos outros elementos estão mudando nos últimos meses por causa da contaminação do vírus?

DB: Vamos compreender que precisamos nos concentrar nas partes do nosso trabalho que são verdadeiramente produtivas. Para a maioria de nós, a maior parte do que fazemos realmente não produz nada ou contribui para o resultado final. Frequentemente, vamos às reuniões, escrevemos um relatório, entregamos um PowerPoint para outras pessoas que, em seguida, têm uma reunião e escrevem um relatório sobre isso, e assim por diante, no que pode parecer uma vida em espiral de inutilidade.

Não estou dizendo que algumas dessas coisas não sejam úteis ocasionalmente, mas, em muitas empresas, tudo o que estão fazendo é preencher o tempo e fazer as pessoas se sentirem importantes. A regra 80/20 pode ser aplicada aqui. Certamente, 80% do que produzimos no trabalho é gerado por 20% de nossa atividade. O trabalho inteligente é identificar os 20% que realmente são entregues à organização e abandonar o restante. Se pudéssemos fazer isso corretamente, todos nós poderíamos trabalhar um dia por semana para 80% do nosso salário. Quem não iria querer isso?

“O trabalho inteligente é identificar os 20% que realmente são entregues à organização e abandonar o restante. Se pudéssemos fazer isso corretamente, todos nós poderíamos trabalhar um dia por semana para 80% do nosso salário” 

CM: Uma semana com menos dias laborais tem chances de ser implementada no Brasil? O que a gente precisaria?

DB: Receio não conhecer o suficiente o Brasil para responder bem a essa pergunta, mas suspeito que serão empresas e startups menores que lideram o caminho. Faz muito sentido explorar as oportunidades de trabalho mais inteligente e uma semana de trabalho mais curta e há diversas pessoas inteligentes em empresas como essas que, a meu ver, entendem bem esse conceito.

CM: Se uma empresa quiser aderir a esse tipo de forma de trabalho, por onde ela pode começar?

DB: Acho que, em primeiro lugar, os funcionários precisam ver quais tarefas, reuniões, relatórios, etc. podem ser abandonados sem prejudicar a função principal da empresa. Às vezes, coisas como reuniões diárias da manhã e relatórios semanais são feitos apenas porque sempre foram feitos –  e ninguém sabe ao certo o motivo. Sócrates, o filósofo grego, sugeriu que questionássemos tudo perguntando por qual razão o fazemos repetidamente. Por que sempre temos uma reunião de segunda-feira de manhã? Por que precisamos escrever este relatório? Por que temos que enviar um email para todos? Em breve, se você aplicar isso ao que fazemos no trabalho, descobriremos que algumas coisas são essenciais e outras podem ser eliminadas. Isso liberará tempo e dará às empresas a oportunidade de experimentar uma semana de quatro dias.


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