A importância do silêncio para a sua saúde mental

Em tempos de superconexão, horários de trabalho que se estendem e estímulos sonoros via smartphone até na hora de dormir, o silêncio ganha status de necessidade para manter nossa mente em dia

Você se lembra da última vez que ficou em um ambiente silencioso? Ou que você mesmo ficou sem emitir nenhum ruído, sem falar, apenas em estado de quietude? Com todos os estímulos que o uso da internet e da hiperconexão podem causar somados à mobilidade bem mais restrita imposta pela pandemia do novo coronavírus, estar em um ambiente sem barulho se tornou praticamente uma raridade. Nos acostumamos de tal forma ao excesso de exposição sonora que muitas vezes nem se percebe o quanto a mente precisa do silêncio para poder se recuperar.

Esse desgaste tem efeito direto em nosso desempenho, saúde mental e humor, como explica o psiquiatra Guilherme Spadini, Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo e um especialista no assunto. Ele, inclusive, ministra um curso sobre “Calma” na School of Life, instituição de aprendizado inglesa com sede em São Paulo. “O silêncio nos convida a ter ‘espaço mental’, ou melhor, nos revela que temos um espaço interno. No dia a dia não entramos em contato com esse espaço, pois ele está o tempo todo preenchido por algum ruído, barulho: música, trabalho, texto, filmes, discussões, reuniões, o que for”, diz ele.

Para saber mais sobre os benefícios de se encaixar momentos de silêncio na sua rotina – tanto para recuperar e proteger sua mente, como também para se conhecer melhor e, com isso enxergar melhor seus objetivos, conversamos com Guilherme Spadini e listamos 5 pontos de atenção para a sua relação com o silêncio. Acompanhe:

Silêncio x Hiperconexão

“Nós claramente desaprendemos a lidar com o silêncio. Isso é fácil de ver quando comparamos com a vida que levávamos há, digamos, trinta anos, antes da internet. Mas é mais óbvio ainda se pensarmos em como era a vida antes da eletricidade, por exemplo. Por milhares de anos, à noite era o momento de silenciar, acalmar e dormir. Hoje, vamos deitar com nossos celulares. Mesmo que estejamos apenas lendo, isso não é exatamente silêncio”, explica o especialista. Ele reforça que lidamos muito mal com os momentos de introspecção que o silêncio nos traz: “Preenchemos a mente com alguma coisa o tempo todo. A música de fundo, a televisão ligada enquanto se faz outra coisa, o fone de ouvido. Dá para sentir o quanto desaprendemos sobre o silêncio”, reforça o especialista.

Medo do silêncio

Estamos tão desconectados com essas pequenas ilhas silenciosas de tempo ao longo do dia, que tem gente que fica desconfortável quando não há barulho algum, você já reparou? O médico Guilherme Spadini conta o motivo disso acontecer: “Um filósofo chamado Pascal já escreveu que ‘todos os males da humanidade advém da nossa incapacidade de sentar sozinhos em um quarto’. Ou seja, isso significa que estar a sós com nossos pensamentos é uma experiência difícil, muitas vezes angustiante, porque é quando ameaçamos as defesas que construímos para nos defender de nós mesmos”, afirma o psiquiatra. Essa constatação tem tudo a ver com a maneira como cuidamos de nossa saúde mental, que na vida moderna quase nunca é prioridade. “Isso é tão mais difícil quanto mais rápido e agitado é o nosso dia a dia e quanto menos conhecemos os cantos mais escondidos de nossas mentes. Temos medo de descobrir emoções, impulsos, desejos e insatisfações que o barulho do cotidiano esconde de nós”, diz.

Reservar um tempo para desacelerar faz bem para a saúde mental. Foto: Pexels.

Benefícios do silêncio 

“O silêncio é um instrumento de autoconhecimento. É um passo fundamental para a introspecção. O silêncio nos dá tempo para pensar, para sentir”, explica Guilherme Spadini. Com a palavra “autoconhecimento” tão em moda, é estranho pensar que muita gente não se dedica a algo tão simples – que é manter-se em quieto e em um ambiente sem ruídos por algum tempo. “Ele nos obriga a ser continente das coisas que estão dentro de nós. E, assim, elas passam a ter algum espaço para sair e brincar”, fala o médico.

O silêncio na rotina 

Independentemente da profissão ou do estilo de vida, é possível, sim, inserir espaços de tempo silenciosos no dia a dia, como defende Spadini: “O primeiro passo é tomar uma decisão. Decidir que quer cuidar mais de si. Reservar um tempo para desacelerar. Meditação é um bom caminho, talvez o que mais diretamente proponha o exercício do silêncio. Mas há opções indiretas. Alguns esportes, como natação, também convidam ao silêncio. A prática de escrever algo diariamente exige que se dedique algum tempo ao silêncio, organizando as ideias”, explica. “A psicoterapia também é um excelente forma de dedicar um tempo à contemplação”, diz ele, já que não é raro pacientes ficarem em silêncio quando consultam sua consciência durante as consultas.

Silêncio e trabalho

Falando mais especificamente de trabalho, sabe-se que muita gente seguirá fazendo isso de casa por mais algum tempo ou já mudou a rotina para tornar o home office algo permanente (ainda que existam milhares de pessoas no Brasil sem a possibilidade de fazer isso). Mesmo nesse cenário, é possível ter em mente o quanto o silêncio é importante, como explica o psiquiatra: “Ajustar o ambiente de trabalho a essa nova realidade é importantíssimo. Eu vejo que as pessoas estão se virando bem para trabalhar de casa, mas é muito difícil que consigam ter um ambiente realmente adequado. Isso acaba cobrando um preço alto, pois gera muito mais estresse, cansaço, irritabilidade, podendo levar a transtornos de ansiedade e depressão”, explica ele. “Muita gente não consegue ter privacidade em casa. Alguns pacientes vão para o carro, na garagem, para fazer terapia. Isso me mostrou que podem haver dificuldades intransponíveis. mas, também, que talvez as pessoas não estejam dando a devida importância ao ambiente de trabalho em casa”, finaliza Guilherme Spadini.


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