Bar em casa: pandemia altera dinâmica do consumo de bebida alcoólica

Consumo de álcool cresceu desde o início do isolamento; destaque para o vinho, que atingiu máxima histórica no segundo trimestre do ano

Vinho é a bebida alcoólica mais procurada desde o início da pandemia

Consumir bebida alcoólica em excesso é prejudicial à saúde por diversos fatores, como é de conhecimento geral. Em um período afetado por uma pandemia, então, os cuidados devem ser redobrados, uma vez que a substância tem efeito nocivo sobre o sistema imunológico e pode comprometer a resistência ao vírus da Covid-19. O consumo, porém, aumentou durante o período.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), o brasileiro não parou, nem diminuiu o consumo de álcool durante o período de bares fechados. Em maio, quando ainda não era permitida a abertura dos estabelecimentos, houve um crescimento de 38% nas vendas de bebidas alcoólicas nas distribuidoras desde o início do isolamento social.

O aumento pode ser explicado principalmente por uma adaptação do consumidor, que, com os bares fechados, passou a consumir mais em casa. É o caso de Maurício Estradiote, 22 anos, estudante de bacharelado em Física. “Antes do isolamento, bebia apenas de final de semana, quando saia com os amigos. Agora, com mais tempo em casa, bebo ao menos duas vezes também durante os dias úteis”, afirma.

“É uma forma de me distrair, passar o tempo e enfrentar esse tempo. Apesar de fazer mal, acaba se tornando um hábito”, afirma o estudante, que não tem frequentado bares mesmo após a permissão para a retomada. Apesar de aumentar a frequência, Maurício diz que não exagera em dias úteis. “Apenas algumas cervejas. Raramente, uma dose de whisky acompanha.”

Vinho: a bebida da quarentena

De janeiro a junho, o consumo per capita de vinhos e espumantes no Brasil atingiu máxima histórica. A quantidade passou de 2,13 litros por habitantes, em 2019, para 2,37 litros, em 2020  — uma alta de 11%, considerando a comparação do período de janeiro a julho deste ano e do ano passado.

Olhando os dados apenas do segundo trimestre, período em que já vigorava a quarentena, o salto é ainda mais visível: a média por pessoa chegou a 2,81 litros, crescimento de 72% em relação a janeiro a março, de acordo com dados da Ideal Consulting.

Segundo Alexandre Bratt, diretor comercial da Grand Cru, importadora e distribuidora especializada em vinhos, a bebida acompanhou as três fases da pandemia.

“Teve aquele primeiro momento de isolamento em que as pessoas estavam quase se imaginando de férias, acompanhando as lives, tomando vinhos. O segundo momento o foi de aceitação do novo padrão de home office, de trabalhar em casa. Indo menos a restaurantes e viajando menos, acabaram aumentando o consumo. E tem esse finalzinho de quarentena, em que as pessoas já estão mais cansadas e precisam de uma válvula de escape, então o vinho acaba sendo aquele presente que a pessoa se dá.”

Com o impulsionamento do negócio, empresas viram o momento como uma oportunidade para inovar e angariar ainda mais consumidores, como a Grand Cru, que passou a oferecer um streaming de vendas, com lojistas atendendo online e em tempo real.

Streaming de vendas

Grand Cru vinhos

Grand Cru: Divulgação

A modalidade, já utilizada há algum tempo na China e em outros países, chega ao Brasil no mercado do vinho implementada pela Grand Cru. A loja online faz parte da plataforma de e-commerce da marca, mas, nela, o cliente conversa em tempo real com o vendedor, e não com uma máquina.

“Ela atende um público diferente da Grand Cru, que antes era basicamente composto por dois extremos: tinha o público que gostava de ir às lojas, conversar com o vendedor e degustar os vinhos, e o público de auto-serviço, que compra nos sites, no supermercado, que já sabe o que quer. Então nós identificamos um terceiro público: o que não quer ir a uma loja física, mas que gostaria de ter acesso a mais informações, a uma consultoria. E aí surgiu a loja ao vivo”, explica Alexandre Bratt.

Segundo o diretor comercial, o negócio vai bem e a modalidade, implementada em agosto, já aparece entre as principais lojas da Grand Cru em termos de venda. “Um vendedor em loja física atende 20, 30 pessoas por dia. Ele depende desse movimento de entrada de pessoas na loja. Mas, nesse caso, a gente sai de 20 a 30 pessoas por dia para 100, 120 pessoas por hora. Então a cada dia nós estamos tendo uma média de acesso de 1000 pessoas na loja ao vivo”, comenta.

A loja online já estava nos planos da Grand Cru desde antes da pandemia, como conta Bratt, mas o processo foi acelerado devido às restrições das lojas físicas.

Além da novidade, as demais modalidades de venda da empresa também vivem bom momento. “No e-commerce regular, chegamos a ter um pico de aumento de 6 vezes. Com o tempo, estabilizamos essa alta em cerca de 3 vezes, mas a tendência é manter o número. No nosso clube de assinatura, quadruplicamos as vendas desde o início da pandemia”, comemora.

Bares recorrem ao delivery

Garrafinha de Clitória para delivery

Eugênia Café Bar apostou no delivery de coquetéis durante o isolamento

Antes proibidos de funcionar, os bares da capital paulista puderam ser reabertos em julho com tempo de funcionamento e capacidade reduzida de pessoas. Porém, os comerciantes apontam que, devido às restrições de horário e ao receio que permanece em parte da população, a receita dos estabelecimentos ainda não alcança a do período pré-pandemia.

Desde o início das medidas de isolamento, uma saída encontrada por grande parte dos empreendedores foi recorrer ao delivery de bebidas.

É o caso do Eugênia Café Bar, inaugurado na região de Pinheiros há dois anos. O bar, que tem relação estreita com literatura e busca reafirmar o protagonismo feminino, contando com uma boa biblioteca de livros escritos por mulheres, implementou o delivery de coquetéis em março para se manter durante o período de crise.

bebida alcoólica

Eugênia Café Bar reabriu presencialmente o bar, mas delivery segue funcionando

“Começamos a nos mexer porque precisávamos manter o negócio. Não deu tempo de planejar, mas olhamos a demanda do momento e começamos a aceitar pedidos de coquetéis pela nossa página do Instagram”, conta Viviane, dona do bar.

Segundo a comerciante, o Eugênia foi um dos primeiros bares a entregar coquetéis elaborados em garrafinhas. “Pegamos carona nas primeiras tendências da pandemia, como reuniões virtuais, happy hour virtual, então conseguimos um volume considerável de vendas.”

Com o tempo, porém, explica a dona do bar, a concorrência chegou e muitos bares começaram a implementar um modelo semelhante, o que culminou em uma maior concorrência e, por conseguinte, diminuição no volume de vendas.

O bar foi reaberto há pouco mais de duas semanas, mas o Eugênia continuará  oferecendo seus drinques clássicos e autorais. Os pedidos podem ser realizados através do Whastsapp do Eugênia Bar, pela página do Facebook, ou pelo do Instagram.


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