A crise do sono: por que estamos dormindo tão mal?

Excesso de trabalho, medo do futuro na pandemia, mudança na rotina: dormir bem está se tornando um desafio atualmente. Especialista fala sobre o impacto das noites mal dormidas na vida pessoal e no trabalho

Atire o primeiro travesseiro quem não anda tendo problemas para dormir ultimamente. A gama de motivos é das mais variadas e, às vezes, se soma: medo da pandemia de Covid-19; questões com o trabalho para quem está empregado; busca por novas oportunidades para quem foi demitido; hiperconectividade com as diversas reuniões virtuais e mensagens no smartphone. O fato de haver menos mobilidade para quem ainda está evitando, ao máximo, sair de casa sem necessidade nas cidades brasileiras também contribui para que na madrugada o sono seja dos piores.

“Posso dizer que a pandemia do novo coronavírus tem sido bastante dura em relação ao sono. Primeiro porque aumentou a ansiedade – seja por conta do isolamento, seja por questões financeiras”, diz Dr. Fabio Porto, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, especialista que conversou com exclusividade com a Consumidor Moderno para falar sobre esse momento de crise do sono. “O outro aspecto é porque como muita gente está fazendo home office, perde-se os compromissos sociais, que são outra coisa que ajuda a regular o sistema de sono e vigília”, continua o especialista. “Dormir não é um luxo, é uma necessidade”, completa.

Criar o que é chamado de “higiene do sono” é um dos primeiros fatores para trocar hábitos ruins relacionados ao momento antes de ir dormir por outros que ajudam a garantir relaxamento e qualidade de sono. Além disso, para o Dr. Fabio Porto, os impactos na vida profissional das noites mal dormidas podem ser ainda mais sentidos do que na vida íntima de cada indivíduo: “Quando você não está atendo a uma reunião, não está apto a resolver um problema complexo no seu trabalho, seu desempenho cai, por exemplo.”

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Como funciona o seu sono?

“O sono é dividido em várias fases, mas, basicamente, existem duas: a REM e não-REM. REM são as iniciais de Movimento Rápido dos Olhos, em inglês (Rapid Eyes Moviment)”, explica o neurologista. “O sono não-REM é dividido em três, sendo a fase 1 a mais superficial e a 3 a do sono mais profundo, de ondas lentas. Já no sono REM a atividade cerebral aumenta. Esses dois ciclos (REM e Não-REM) vão variando a cada 90, 120 minutos durante a noite”, diz. “O cérebro oscila entre sono de ondas lentas e sono de ondas rápidas. O de ondas lentas é o que faz a reparação cerebral, a fixação da memória, a limpeza no cérebro, e dá aquela sensação de acordar descansado. Enquanto que o sono REM tem a função de fazer o processamento emocional, de ajudar também na memória (cortando aquelas não-importantes)”, afirma. Por isso mesmo, o sono não é simplesmente “apagar o cérebro”, como muita gente pensa de maneira equivocada, segundo o médico. “É um ciclo de processos mais e menos ativos fundamentais para manter a boa saúde e um bom controle da memória e até do humor”.

Menos vida social = menos sono

A ansiedade de ficar quase que permanentemente em casa teve impacto certeiro na nossa rotina de dormir. “As pessoas quando estão muito ansiosas têm dificuldade de pegar no sono, ficam acordando de madrugada sem motivo, tem sonhos muito fortes, muito intensos”, diz o especialista sobre o que tem visto atualmente, em tempos de pandemia. “Ter que acordar às 7 horas da manhã para sair de casa às 8h é um estímulo para você manter um horário fixo para ir dormir. Quando perde-se muito isso, às vezes o ciclo desregula. Além disso, a pandemia também aumentou o uso das telas – de televisão, de celular, do computador – e isso vai expondo muita luz nos olhos, que ajuda a desregular o sono das pessoas”, alerta o Dr. Fabio Porto.

A crise do sono pode atrapalhar também nas funções do dia a dia. Foto: Pexels.

Noites mal dormidas X carreira profissional

“O sono é fundamental para se ter uma boa saúde, tanto física, quanto mental”, alerta o médico. “As pessoas que não dormem bem estão frequentemente cansadas, sonolentas, desatentas. A restrição de sono traz problemas de humor – as pessoas ficam mais tristes, mais cansadas, mais irritadas”. E essa informação pode chocar muita gente mas uma simples noite de sono mal dormida já altera o funcionamento do nosso cérebro e causa redução da performance cognitiva. “As pessoas ficam com dificuldade de organizar, planejar, tomar decisões planejadas. E tudo isso provoca dificuldades tanto na vida pessoal, mas eu diria que, principalmente, na vida profissional. Quando você não está atendo a uma reunião, não está apto a resolver um problema complexo no seu trabalho, seu desempenho cai. Você vai demorar mais tempo para fazer a mesma tarefa. Se está irritado, a sua relação com os colegas de trabalho fica alterada. Dormir é fundamental”, explica o especialista.

Como fazer a “higiene do sono”

“A atual questão da ultraconexão é um problema. Mas a gente precisa praticar esse conjunto de medidas ambientais que nos faz dormir melhor”, diz o neurologista. “Uma das coisas fundamentais aqui é ir reduzindo o ritmo pelo menos umas duas horas antes do horário que de dormir. Começar a fazer coisas mais devagar. Desconectar de problemas do trabalho, evitar ao máximo o celular, a luz eletrônica (que é essa luz azul) direto nos olhos”, conta o Dr. Fabio Porto. É preciso pensar que só um estado mais relaxado de mente e corpo é que ajuda na boa qualidade do sono. “Frequentemente as pessoas têm problemas para parar de ver mensagens no celular e isso é um hábito ruim. Se você deitar na cama e ficar pensando em problemas, isso cria uma insônia crônica. O se precisa fazer é dessensibilizar esses hábitos e entender que a gente precisa desacelerar um pouco antes de dormir”, define ele.

O mito de “dormir pouco, trabalhar muito”

“É um grande erro você achar que a privação crônica de sono, que é algo fisiológico do ser humano, vai funcionar para alguma coisa”, alerta o especialista. “O cérebro humano, para ter um bom desempenho, precisa dormir. Não existe essa ditadura das 8 horas de sono, porque essas horas podem ser variáveis. Algumas pessoas podem ficar bem com 6 horas dormindo, por exemplo. Mas, em geral, de 6 a 8 horas é o necessário para um adulto. Mas achar que a pessoa ficará bem não tendo dormido o suficiente ou se expondo a uma privação crônica de sono, isso é uma falácia, não acontece. As pessoas que dormem pouco passam a ficar irritadas, tristes, desatentas – e isso causa uma alteração no desempenho cognitivo e profissional”, diz o neurologista. Ele alerta, inclusive, que dormir é essencial para quem está empreendendo: “Se você quer ser um bom empreendedor, precisa ter ideias novas, que resolvam problemas. Como a pessoa pensará em algo fora do habitual se esse sistema de tomar decisões não estiver funcionando bem? A minha visão é que as pessoas andam esquecendo que dormir é algo fisiológico, que é normal, e quando se faz algo que não é fisiológico para o seu corpo, se enfrenta problemas. Pode não ser agora, exatamente, mas daqui a alguns anos, certamente, terá grandes impactos negativos. Há estudos que mostram que quem tem insônia crônica tem mais chances de ter doenças cérebro-vascular, além de infarto, derrames, doenças degenerativas. Ou seja, o sono tem essa função de ‘limpar’ o cérebro, de relaxar as artérias, de fazer o ajuste do controle autonômico do sono. Não dormir não é algo que a gente deveria tolerar. Dormir não é um luxo, é uma necessidade”, finaliza o médico.


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