China, Trump, TikTok: e eu com isso?

Restrições ao uso do Facebook e Google e proibições e ameaças à Huawei e ao TikTok são a ponta do iceberg de uma profunda disputa pela hegemonia global

É provável que um dos principais motivos pelos quais este desafiador ano de 2020 virá a ser lembrado pelos historiadores futuros tenha conexão com o acirramento das tensões sino-americanas.

Mesmo sendo consequência de um processo multidimensional bastante amplo e complexo, sem dúvidas um dos elementos-chave das diferenças entre as duas nações é a disputa pela liderança tecnológica no século XXI.

No clássico “ascensão e queda das grandes potências”, Paul Kennedy descreve com diversos exemplos ao longo da história dos últimos quinhentos anos da humanidade como se constituem os ciclos de surgimento e ocaso das superpotências. Estes ciclos se iniciam no poder material e se estendem ao poderio econômico e, em linhas gerais, tiveram seu alicerce em grandes inovações tecnológicas. São exemplos disso o advento do motor a vapor para a Inglaterra e todo o ciclo da eletricidade e petroquímica para os Estados Unidos.

Ao imaginarmos que em algum momento haverá uma paridade de poder entre China e EUA, não fica difícil perceber que necessariamente a disputa pela liderança tecnológica terá correlação ampla e irrestrita com a revolução digital que vem transformando radicalmente as diferentes sociedades do planeta, em diferentes aspectos, de maneira acelerada e provavelmente irreversível.

Restrições ao uso do Facebook e Google, proibições e ameaças à Huawei e ao TikTok e outras disputas comerciais dos governos associadas ao setor da tecnologia (digital) não são, por conseguinte, mera coincidência – mas sim a ponta do iceberg de uma profunda disputa pela hegemonia global.

O plano chinês

Todavia, não é de agora que a ascensão econômico-cultural-tecnológica da China vem ocorrendo e sendo estrategicamente construída. Desde o advento da famosa “segunda revolução”, promovida pelo líder Deng Xiaoping e que tinha seus fundamentos baseados no conceito até então inovador de “economia socialista de mercado”, todo o assombroso crescimento chinês passou a ser baseado em quatro pilares de desenvolvimento: agricultura, indústria, comércio e ciência e tecnologia.

Estes pilares eram totalmente integrados ao projeto de desenvolvimento nacional (e suportados pelos investimentos em projetos militares). Com o advento dos primeiros experimentos capitalistas em 1982 nas, assim denominadas, ZEE (Zonas Econômicas Especiais – regiões litorâneas no sudeste do país liberadas para recebimento de aportes do exterior e com liberdade para atuar de acordo com preceitos econômicos mais liberais), houve uma grande abertura do país ao recebimento de empresas atuantes nos setores de inovação e tecnologia.

Este visionário projeto tinha como base conceitual as transformações perpetradas pela Europa e principalmente pelo Japão do pós-segunda guerra mundial. O objetivo era aproveitar os investimentos ocidentais (especialmente de empresas norte-americanas) para desenvolver rapidamente o setor industrial do País com a promessa de custos extremamente baixos, e destiná-lo à exportação massiva de produtos de todos os tipos (em geral de baixa qualidade), atraindo a migração das cadeias produtivas de todo o planeta e aproveitando estes investimentos para o desenvolvimento econômico nacional.

O projeto foi extremamente bem-sucedido, e lançou as bases para a economia chinesa que hoje conhecemos: massivos investimentos governamentais em infraestrutura, migração de grande parte da capacidade industrial das grandes multinacionais para a China, desenvolvimento do mercado consumidor interno… e um PIB que cresceu por décadas em ritmo de duplo dígito, refletindo o exponencial crescimento do país.

Desenvolvimento tecnológico

Mas o mais interessante de tudo foi como a questão tecnológica foi planejada, desde o início: as indústrias estavam livres para se desenvolver na China, desde que sempre trabalhassem com empresas parceiras locais e transferissem tecnologia/conhecimento para os empreendedores locais.

A intensidade da transferência de conhecimento tecnológico foi muito grande, e por bastante tempo até mesmo roubos de propriedade intelectual e cópias integrais de sistemas e tecnologias desenvolvidas no ocidente foram abertamente praticadas – e reconhecidas posteriormente pelo próprio governo chinês, quando das negociações para adesão do país à OMC.

Este processo de desenvolvimento tecnológico permitiu que grandes conglomerados locais de negócios digitais fossem constituídos, e deu origem a empresas que hoje possuem enorme influência e escala em todo o mundo – líderes globais de inovação, como Huawei, ZTE, Foxconn, Tencent e Alibaba, por exemplo e dentre muitos outros.

Em paralelo, um outro projeto de proporções até então nunca testadas e sob diversos aspectos também inovador foi lançado: a grande muralha tecnológica da China.

A internet chegou às fronteiras chinesas em 1994 (mais ou menos na mesma época em que as primeiras universidades tiveram acesso aqui no Brasil). Apesar de ser bem recebida inicialmente pela capacidade de modernizar o acesso à comunicação, rapidamente o governo central entendeu que o controle do acesso à informação (importante ferramenta de manutenção do poder) seria fundamental para reduzir os inúmeros riscos que uma rede de conectividade sem controles poderia trazer ao regime.

Assim sendo, ainda no século XX, houve a constituição de uma nova muralha da China (agora tecnológica), que impossibilita a navegação digital sem algum mecanismo de controle por parte do governo central e do partido comunista chinês. Diversos sites são simplesmente proibidos ou banidos do País. Todos que navegam na internet, seja em apps, celulares ou na experiência desktop, são monitorados. É obrigatório inserir elementos de código definidos pelas autoridades locais para rastreamento e censura, em qualquer empresa chinesa ou que pretenda atuar no mercado digital chinês.

Esta cultura já foi constituída há mais de 20 anos, funciona de modo robusto e é um dos pilares do desenvolvimento tecnológico chinês. Ou seja: não se vislumbra qualquer possibilidade atual ou no futuro próximo de uma internet realmente “livre” no país, uma vez que o controle da internet é importante ferramenta de estado.

Adicionalmente, um outro fenômeno interessante ocorrido na China foi que, com a rapidez do crescimento do País e a rápida evolução do poder aquisitivo de seus cidadãos, a maior parte dos “internautas de primeira vez” iniciaram sua experiência digital diretamente no mobile, e não no desktop/web tradicional – um massivo leapfrogging tecnológico que deu origem, por exemplo, a todo o ecossistema dos “super apps” chineses e suas implicações em cadeias de valor e produção completas.

O aplicativo chinês TikTok conquistou o mundo. Foto ilustrativa: Pexels.

Da China para o mundo

Ou seja: em pouco mais de vinte anos, a China deixou de ser um país desconectado para se tornar um pujante líder digital, com empresas relevantes de escala e ambições globais; uma população internauta enorme (mais de 900 milhões de pessoas, sendo 99,3% deles usuários mobile); uma sociedade totalmente monitorada e vigiada por meios digitais, sejam eles câmeras, sensores ou a simples navegação; o país com maior penetração de e-commerce e social-commerce do mundo (segundo artigo da Mercado & Consumo, 88% dos internautas chineses farão uma compra pelo e-commerce este ano e 41% de todas as vendas do varejo local ocorrerão pela internet).

Como se todos estes pontos anteriores não fossem suficientes por si, ainda há que se recordar que estamos na iminência da entrada em funcionamento comercial das redes 5G. As redes 5G, por suas características, possibilitarão que pela primeira vez na história da humanidade tudo que puder ser conectado, esteja conectado. E talvez o principal fornecedor global desta tecnologia é uma empresa chinesa.

Qual o problema?

Pois bem, se a quarta revolução industrial da humanidade é exatamente a revolução digital e ainda por cima ela é baseada em dados (e nenhum outro país possui tantos habitantes dos quais obter dados em tempo real, para alimentar o desenvolvimento acelerado de seus próprios sistemas de inteligência artificial), fica agora mais fácil entender os recentes posicionamentos do presidente americano Donald Trump em relação a empresas chinesas.

Não é difícil conceber uma sociedade do século XXI totalmente conectada em alguns poucos anos, a uma velocidade quase instantânea, e que isso possibilitará a quem detiver o controle das tecnologias uma enorme vantagem sobre outras nações – que reverterá em vantagens econômicas, industriais e inclusive competitivas em diversas dimensões. O ótimo posicionamento chinês para esta realidade projetada ameaça a hegemonia americana de muitas décadas.

Mas e o TikTok? Qual a correlação deste aplicativo com uma disputa geopolítica de tais proporções?

Empresa surgida apenas em 2014, na China, era um app para dublagem de músicas. Após sua aquisição pela ByteDance em 2017, ajustes estratégicos fizeram com que se tornasse um fenômeno global principalmente entre os jovens (dois terços dos usuários têm menos de 30 anos), que adoram criar e multiplicar vídeos curtos e divertidos (incluindo memes) através da plataforma.

Somente em 2019, o app do TikTok foi baixado 750 milhões de vezes – tendo massiva penetração em países como Índia e Estados Unidos, e atingiu-se a marca de 1 bilhão de vídeos vistos em apenas 24 horas.

Este crescimento massivo e a grande popularidade do app fez com que o mercado passasse a observar na empresa um possível gigante digital para os próximos anos. E foi a primeira vez que um aplicativo de origem chinesa conseguiu obter alta penetração de usuários junto a um público-alvo importante, em países até então avessos a soluções desenvolvidas por lá.

Estados Unidos em ação

Todos estes fatores já vinham sendo monitorados pelo governo americano com cautela, pois imaginar que jovens em todo o mundo estavam tendo seus dados monitorados e gerenciados em tempo real pelo governo chinês por intermédio da grande muralha tecnológica não era um pensamento que lhes parecesse muito reconfortante.

Porém, a gota d’água veio quando jovens organizaram um criativo “boicote digital” ao comício de lançamento da candidatura para reeleição do presidente Donald Trump, utilizando o app.

Esta questão pessoal, aliada à questão estratégica, tornou imperiosa a resolução do “problema TikTok” para os atuais governantes americanos.

A solução mais simples, pensada ainda com o mindset do século passado, seria bloquear o uso do TikTok no País. O argumento da segurança nacional sempre encontra eco na sociedade americana, e de fato não se sabe ainda ao certo quais informações são capturadas dos usuários no aplicativo e com quem/para que são compartilhadas.

Porém, quem imaginava que haveria reação tão forte dos americanos de origem chinesa e dos jovens usuários do app (super engajados) a esta polêmica decisão? (basta lembrar da reação dos brasileiros quando juízes de primeira instância bloqueavam o uso do WhatsApp para compreender melhor). Em pleno ano eleitoral, quem arriscaria perder parte importante dos eleitores deste grupo?

E eu com isso?

Enquanto escrevo este artigo, ainda se discute se o acordo com Oracle e Wal-Mart terá efeito ou não, se haverá banimento local do TikTok ou não etc. Mas isto pouco importa por hora.

Para mim, o mais importante é entender se realmente podemos estar assistindo, em 2020, ao ano no qual, pela primeira vez, empresas de tecnologia digital e suas aparentemente inofensivas soluções farão parte explícita de políticas de estado e de modelos de dominância militar e cultural.

Uma visão que dificilmente poderia estar mais distante do ideal do fundador da internet como a conhecemos hoje, Sir Tim Berners-Lee, de uma internet aberta e voltada para o bem da humanidade…

E principalmente como tudo isso se correlacionará com os hábitos, desejos e preferências do consumidor, que possui voz cada vez mais atuante – seja através de seus múltiplos grupos sociais, seja individualmente.

Para nós, usuários e executivos(as) ligados ao digital e à experiência do cliente, pode estar próxima a necessidade de nos adaptarmos para gerenciar um maior número de soluções e protocolos tecnológicos, se este processo se intensificar e cada país/grupo de países começar a procurar desenvolver seu próprio ecossistema digital – algo análogo ao fenômeno de unbundling que vem sendo causado pelos múltiplos apps de streaming de vídeo cujo conteúdo antes podia ser encontrado em um único local.


Sobre o autor

Fernando Moulin é um dos pioneiros da indústria de Marketing Digital e do CRM no Brasil. Atualmente é Business Partner da Sponsorb, consultoria boutique de business performance e 16 anos de atuação. É Professor do Master em Gestão em Experiência do Consumidor da ESPM, além de conselheiro deliberativo do IBRAMERC e Professor de temas diversos ligados ao universo da transformação digital na Live University.

Graduado em Engenharia Química pela Universidade de Campinas (UNICAMP), possui MBA Executivo Internacional pela FIA/Universidade de São Paulo, além de diversas especializações executivas em marketing e gestão de instituições como Kellogg / NorthWestern (EUA), Cambridge (UK), INSEAD (França e Cingapura), Vanderbilt (EUA), Lingnan University (China) e FGV-SP, entre outros. Sua última especialização foi relacionada ao campo da Transformação Digital, no INSEAD Fontainebleau.

Executivo de marketing há mais de 20 anos, é palestrante e jurado de diversas premiações de mercado. Já atuou em diferentes empresas líderes em seus setores como o Banco Citibank, Claro, Pão de Açúcar, Nokia e Cyrela.

Por mais de 6 anos esteve responsável pela liderança do projeto de Transformação Digital e pelo desenvolvimento e gestão dos mais de 130 canais digitais da Telefônica|Vivo, com cases como o Meu Vivo (plataforma digital que conta com mais de 18 milhões de usuários ativos e 300 milhões de transações mensais), todo o desenvolvimento e operação do e-commerce da empresa (B2B e B2C) e o lançamento da Vivi, a 1a solução de Inteligência Artificial de telecom no país.

Adicionalmente, foi o responsável pela concepção e gestão do Vivo Digital Labs e seus squads, que representam um importante símbolo de todo o processo de transformação digital baseado em gestão ágil do mercado nacional.


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