O mundo pós-pandemia: desmaterializado, asséptico e descontextualizado

Michel Alcoforado, antropólogo especializado em consumo e comportamento fala sobre as transformações na sociedade após a chegada da pandemia do novo coronavírus

Pandemias mudam por completo as maneiras como as sociedades se estruturam e a maneira como pensamos nossa própria vida e historia. Foi assim pós-pandemia de HIV, que reforçou a importância dos métodos contraceptivos. Foi assim com a cólera, que nos fez ficar mais atentos à origem da água que bebemos. No painel Comportamento e pós pandemia, do CONAREC 2020, Michel Alcoforado, antropólogo PHD, especializado em consumo e comportamento e sócio fundador do grupo Consumoteca falou sobre as transformações do comportamento humano no contexto atual.

Segundo o antropólogo, o ciclo de transformação está pautado em quatro pontos fundamentais: limpeza, individualismo, vigilância e preocupação com saúde.

“Em qualquer epidemia as pessoas saem mais preocupadas com limpeza. Na China, após a de 2002, a venda de sabonetes alcançou índices astronômicos. Saímos mais individualistas e acirramos também o nosso nacionalismo, ficamos cada vez mais preocupados com as fronteiras nacionais. Também ficamos mais vigilantes, com medo de morrer, e mais preocupados com a nossa saúde.”

Efeito DAD

Sabemos que a pandemia acelerou de forma colossal a digitalização do capitalismo. O antropólogo Michel Alcoforado afirma que passamos por um efeito DAD: desmaterializado, asséptico e descontextualizado. Ele explica:

“Desmaterializado devido à transformação digital, já que tudo o que pode ser digitalizado, será. Asséptico pela necessidade de novos mediadores de segurança que pautem nossa relação com os outros, sobretudo entre marcas e consumidores, produtos e consumidores. Mais do que nunca, a reputação da sua marca é um ponto fundamental que dá ao consumidor a certeza de que ele pode confiar em você. E descontextualizado porque os rituais que nos balizavam foram para o ralo. Você está dentro de casa e já não sabe muito bem quando é segunda, quarta ou sexta-feira.”

Para ilustrar a digitalização, Alcoforado traz alguns dados. Nos Estados Unidos, em janeiro de 2020, a Associação Nacional de Marketing Americano tinha previsto que o varejo digital ia dar conta de 12% de mercado. Agora, depois meses depois, mudaram, dizendo que pode chegar a 32%. E no Brasil não foi diferente: 43% das pessoas disseram que começaram a comprar mais digitalmente. O mercado de delivery aumentou drasticamente: 56% dos brasileiros disseram que mudaram a expectativa de gastos em relação ao delivery. Além disso, 32% das pessoas disseram que pretendem diminuir a frequência de visitar restaurantes , pois levarão esses hábitos de consumo pra dentro da própria casa.

“A descontextualização desfavoreceu alguns setores, mas favoreceu outros. O consumo de bebidas só aumenta. Por que? Porque você não precisa mais esperar chegar sábado para ‘tomar uma’. Pode tomar no almoço, na quarta, todo dia é igual. Enquanto isso, o setor mais desfavorecido foi o de moda, afinal, como você não tem mais reunião, festa do trabalho, casamento, não tem mais a prioridade de comprar roupas para essas ocasiões. A moda perdeu, no começo da pandemia, 78% de vendas no varejo.”

Impossível ignorar também a influência que o WhatsApp ganhou no varejo a partir do início das medidas de isolamento social. “O WhatsApp ganhou uma importância gigantesca. Todo mundo começou a comprar e vender pelo whatAapp. Até mesmo mercados e supermercados, que eram muito sensíveis ao sistema de venda digital”, complementa.

Por fim, o antropólogo diz que o mundo do futuro nada mais é do que o mundo do passado, que já conhecíamos, com muitas contradições resolvidas e outras tantas mais acirradas. “Esse mundo que está vindo por aí você já conhece, mas estava demorando para entrar no jogo. Mas o coronavírus te obriga a vivê-lo.”






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