Anormalidade como regra ou normalidade desregrada?

Pandemia, distanciamento social, máscaras, todo o ritual e o repertório associados ao momento são um teste de resistência para cidadãos e consumidores. O que será do futuro comparado a um passado que não volta mais?

Vamos para sete meses desde a chegada da pandemia. A vida da maior parte das pessoas, em centenas de países, deu um autêntico cavalo de pau. Mais do que rotina, a maneira de viver foi modificada, incorporando hábitos desagradáveis, estranhos e, até, incompreensíveis. Olhando em retrospectiva, em março começamos a ser inundados por notícias e narrativas sobre “pandemia”. Não foram poucos os que ficaram se perguntando o que isso significa. O vírus que partiu da China e ganhou o mundo em velocidade assustadora ia deixando um rastro de hospitais lotados, cenas de filmes hollywoodianos (com médicos em vestimentas especiais, cobertos da cabeça aos pés), mortes, sofrimento e desespero. E então, na velocidade de uma busca no Google, escolas, lojas, empresas, cinemas, shoppings, parques e estádios foram fechados. O mundo se recolheu e, no mês de abril, parou.

Como nos filmes, pouco a pouco começamos a colocar os rostos para fora de casa enquanto uma guerra de narrativas completamente amalucadas se desenrolava nas mídias e na internet. Sim, a pandemia foi aterrorizante e suas causas e consequências foram distorcidas de tal modo que hoje é quase impossível distinguir qual é o real poder do novo coronavírus e o grau de gravidade e sequelas da doença a ele associada, a Covid-19. O saldo dessa infodemia (a doença informacional que procurou politizar, sensacionalizar, desqualificar ou evidenciar o alcance e a gravidade da pandemia) foi uma perda de referencial e a adoção de um comportamento que varia da estupidez pura e simples, passando pelo temor irracional, até a inação conformista.

Mundo novo

É claro que esse caldeirão de emoções e perturbações afetou o consumidor. O trauma ficará presente por um bom período, para além de dois, três anos como vislumbram, erroneamente, os otimistas de fachada. Afinal, muitos de nós ainda nos resguardamos em nossas residências, saímos de máscaras, pensamos duas, três vezes antes de irmos a um restaurante ou a um shopping, vacilamos diante da ideia de ver um cinema reabrir ou de ir a um estádio, passamos álcool em gel o tempo todo em todo lugar, até quando acabamos de sair do banho. Podemos ir às lojas, mas com receio de tocar em algo, chegamos das compras e desinfetamos pacotes, não sabemos se é lícito reclamar de alguém sem máscara. E olhamos para aglomerações em ônibus e metrôs com receio. E isso não é tudo.

Bares estão liberados e depois de um certo sentido de libertação, com gente se acotovelando nos locais da moda reabertos, hoje a grande maioria apresenta um movimento bem medíocre. Estranhamente, bares abertos e escolas fechadas, punindo crianças e seu futuro pela falta de responsabilidade, maturidade e inteligência dos adultos. No feriado, milhares foram às praias comemorar uma espécie de alforria à beira-mar. Entre escandalizados e indiferentes, o fato central é que a vida perdeu muito do seu sentido. E vida sem sentido prático, sem a rotina que aprendemos a praticar – e a criticar –, cansa em demasia. Sim, estamos cansados. Sim, tivemos compensações a partir da reconexão com famílias, frugalidade, simplicidade e com nosso lar. Mas em si, ao dormir, toda essa realidade representa uma anormalidade, e nos transmite uma sensação de que o mundo saiu do eixo, a realidade se descolou da sanidade e cada dia passa a ser uma espécie de luta contra uma roleta-russa que não sabemos bem se está em ação.

Esse estranhamento vai permanecer conosco mesmo após a chegada da bala de prata que embala uma ou várias vacinas. Essa experiência vai marcar nossa forma de olhar para o outro e para nós mesmos, vai nos tornar mais reflexivos, menos propensos ao abraço fácil e ao beijinho no rosto gratuito. Vai nos tornar mais pragmáticos, mais reféns de plataformas digitais que nos ajudam a consumir, trabalhar, namorar e se entreter. A rigor, quando a vacina vier, a sensação será de alívio, mas nossa mente vai nos impor a vontade da autopreservação por um bom tempo até que todos possamos nos sentir confortáveis em adotar comportamentos que hoje são de risco.

Será então que teremos de adotar essa anormalidade como regra ou iremos nos entregar a uma normalidade desregrada, como um alcoólico que tem uma recaída e manda a abstinência para o espaço de uma vez? Viver dentro da norma do “anormal”, do “antinormal”, é um exercício de infelicidade. É impossível “normalizar” a vida com termômetros, álcool em gel, máscaras distanciamento, isolamento e cálculo de riscos para todo e qualquer lugar que se tenha de ir ao sair de casa. É torturante “naturalizar” o receio de tocar em qualquer objeto e abrir portas de refrigeradores usando os cotovelos (uma ideia criativa, mas desengonçada, adotada por redes de supermercados). Da mesma forma, desbundar ao sabor da negação para forçar a retomada de uma “normalidade” que ficou no passado é simplesmente ofensivo, desrespeita os que sofrem com a pandemia, inclusive aqueles mais frágeis psicologicamente. Nesse meio-termo, na nuance, na filigrana, devem caminhar as empresas para compreender e transmitir segurança aos consumidores. Devem ser portos seguros e oferecer experiências relaxantes para um consumidor ressabiado. O consumo, por mais que a restrição de renda seja inevitável para muitos clientes, deve ser um momento de escapismo e de alívio diante de uma realidade que se tornou mais árida.

Comedimento, temperança, frugalidade, relaxamento. Proporcionar estas sensações poderá ser uma boa aposta para quem quiser engajar o consumidor no futuro próximo. Um futuro na velocidade digital, mas de consumo cadenciado.


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