Em tempos de hiperconeconexão, chegou a hora e a vez do slow content

A tendência de consumir conteúdo de maneira mais lenta está em alta para evitar ser engolido pela voracidade da internet atual – seja você consumidor de conteúdo ou creator

Post novo, newsletter que acabou de chegar, o alerta do YouTube bombando, uma checada na home de portal de notícias. No celular apita um link que veio pelo whatsapp, mais notificações no Facebook, mensagens diretas no Instagram e ainda há a série a ser “maratonada”, o livro que precisa ser lido, o podcast do momento… A enxurrada de conteúdo que chega todos os dias até nós se tornou opressora, essa é a verdade. E está difícil lidar com ela tanto para o público consumidor, quanto para quem produz.

A tendência do slow content vem, portanto, para colocar um freio nesse fluxo desenfreado. O conceito se consolidou de vez em 2020, como listou a plataforma digital Youpix, especialista em discutir e mapear cultura digital e tendências de mercado. “O slow content não é exatamente novo, mas cada vez mais creators aderem ao conceito que defende a produção em um ritmo menos frenético, focando mais na profundidade e na qualidade do que está sendo feito”, escreveu a plataforma Scup sobre o Summit que o Youpix realizou virtualmente este ano.

O slow content pede não só que se produza menos, mas que aquilo que é feito tenha mais personalidade e assinatura realmente relevante, seja isso feito por um criador de conteúdo ou mesmo por uma marca. Para quem cria, significa deixar para trás mantras como o “precisa postar todo dia”, por exemplo, e sair à caça de algo que tenha a ver com a sua persona e com o que realmente se quer comunicar, passando longe do “like fácil”. Já para quem lê, assiste ou ouve o conteúdo, o entendimento é outro: é lidar com o FOMO (Fear of Missing Out) de perder o assunto mais comentado do momento para se dedicar aos temas que mais gosta, que gerem curiosidade, que possam ser aprofundados e tragam, de fato, algo relevante para sua própria vida.

Slow content e pandemia

Surgido na esteira do movimento de slow living, que prega mudanças no comportamento de consumo e nas escolhas de estilo de vida, o slow content segue pelo caminho de “retirar os excessos”. E a pandemia de Covid-19 ressaltou essa necessidade já que o isolamento involuntário deixou as pessoas mais conectadas pelo fato de não saírem de casa. Essa hiperconexão rapidamente começou a cobrar seu preço, vide o tema da saúde mental ter ganhado tanta atenção desde março, quando a contaminação pelo vírus chegou fora da Ásia, seu ponto de origem.

Foram semanas com inúmeras lives, reuniões no Zoom, ofertas de cursos online de influenciadores, posts e posts sobre a pandemia, coisas a fazer dentro de casa (limpar, se exercitar, organizar) e praticamente nenhum incentivo ao ócio criativo, ao descanso, e a diminuir o ritmo, a dar o tempo necessário para a mente compreender a gravidade do que estava passando. O slow content vem como contrapartida dessa pressão para quem produz (que precisa estar sempre se reinventando) e dessa impossibilidade de estar no silêncio para aquele ou aquela que consome.

Se estamos repensando o fast fashion, que é o jeito de consumir a moda; o slow living, que é a maneira de viver; o consumerismo, que é a forma de consumir; porque não avaliar os conteúdos? A lógica vale para as redes sociais, mas pode ser uma crítica também à maneira como o jornalismo segue funcionando hoje – à base de manchetes e manchetes, muitas vezes sem tempo de se contextualizar o que passa no mundo. E em uma realidade complexa como a que vivemos atualmente, a falta desse mergulho mais profundo pode causar tanto estresse a ponto de a pessoa se tornar um evitador de notícias.

Para a estrategista e criadora de conteúdo Beatriz Guarezi, da newsletter Bits to Brands, o slow content ainda não é um conceito que chegou nos grandes (sejam marcas, influencers, bloggers, etc). Ela abordou o tema em um de seus envios de e-mail, questionando, inclusive, a forma dela mesma produzir. Do texto que escreveu, vale se guiar por essa frase, perspicaz e afinada com o tempo em que vivemos: “A consistência, a intimidade e a relevância fazem com que as pessoas que chegam até você fiquem por interesse genuíno – e não por qualquer tipo de gatilho”. Com a pandemia sem data para ir embora, está claro que em praticamente todas as áreas da vida chegou o momento de parar, ficar em silêncio e, só então, começar de novo. A roda pode, sim, girar mais devagar.


+ Notícias 

Você tem medo de postar? Conheça o FOPO

Menos é mais: a nova realidade da moda

A importância do silêncio para a sua saúde mental






ACESSE A EDIÇÃO DESTE MÊS:

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS

CM 256: Os vencedores do Prêmio Consumidor Moderno de Excelência em Serviços ao Cliente

CM 255: Tudo o que você precisa saber sobre o consumidor na pandemia

Você já conhece as Identidades do consumidor?

VEJA MAIS