Pandemia muda hábitos alimentares dos brasileiros

Maior estudo sobre alimentação do país revela mudanças na dieta da população durante período de quarentena

A ansiedade provocada pelo isolamento social e as preocupações com a saúde em meio à pandemia do novo coronavírus afetaram a relação de muita gente com a comida. Você certamente conhece alguém que engordou ou emagreceu durante a quarentena – ou talvez tenha sentido, você mesmo, as mudanças no corpo.

Desde o início do ano, pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP estão realizando um estudo para entender os hábitos alimentares dos brasileiros. O objetivo do projeto – que pretende acompanhar 200 mil pessoas por 10 anos, em todo o país – é identificar os principais padrões de alimentação praticados e estudar sua associação com o risco de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis.

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Hábitos alimentares evidenciam desigualdades sociais

As primeiras análises do NutriNet Brasil, que envolveram os primeiros 10 mil participantes da pesquisa, acabaram revelando mudanças na alimentação dos brasileiros durante a pandemia. Uma das principais constatações foi o aumento no consumo de alimentos ultraprocessados nas regiões Norte e Nordeste, e também entre as pessoas de escolaridade mais baixa.

De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, esses resultados sugerem desigualdades sociais na resposta do comportamento alimentar à pandemia. “A eventual redução na renda familiar ocasionada pela pandemia pode ter limitado a compra de alimentos frescos de maior preço, como frutas, carnes e peixes, favorecendo a aquisição de ultraprocessados de menor preço, como pães, biscoitos, salgadinhos e carnes processadas. A intensificação da publicidade de alimentos ultraprocessados durante a pandemia, incluindo a distribuição gratuita desses produtos, também pode ter impactado os estratos socialmente mais vulneráveis”, explica Eurídice Martínez Steele, bióloga e integrante da equipe de pesquisadores do Estudo NutriNet Brasil.

Mas a pesquisa também trouxe boas notícias: houve um aumento generalizado na frequência de consumo de frutas, hortaliças e feijão (de 40,2% para 44,6%) nesse período. Segundo Eurídice, esse fenômeno pode ser explicado, em parte, pela maior preocupação das pessoas com o impacto da alimentação sobre o sistema imunológico, em meio a crise sanitária.

Correndo atrás do prejuízo

Além disso, as novas rotinas impostas pela pandemia podem ter estimulado as pessoas a cozinharem mais e a consumirem mais refeições dentro de casa. Foi o que aconteceu com a dentista Fernanda Panisi, que sentiu na pele os efeitos de adotar uma dieta mais saudável. Passando mais tempo em casa, os horários das refeições ficaram mais regrados, e a qualidade do que vai ao prato melhorou: “Incluí mais verduras e legumes, e diminuí embutidos, frituras e pratos congelados, como nuggets e lasanha pronta”.

Comer com companhia está entre orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira. Foto ilustrativa: Pexels.

Ela conta que tem se sentido mais disposta desde que aderiu às mudanças no cardápio. “Passei a acordar mais cedo, e a qualidade do meu sono melhorou”, diz Fernanda, que pretende manter os novos hábitos mesmo após a retomada da rotina pré-pandemia.

Depois de mudar de cidade e passar mais de três meses à base de delivery e comida congelada, a RP Manuela Musitano também decidiu rever alguns hábitos. “Lembro de uma semana fazer todas as refeições com refrigerante e pizza requentada. Como estava trabalhando em home office, nem me preocupei com aumento de peso ou questões de saúde. Mas teve um dia que precisei ir até o escritório pegar alguns documentos e me lembro do sufoco que foi para fechar a calça social, e aí o pânico bateu”, conta.

Manuela reduziu a ingestão de açúcar e outros carboidratos e adotou uma alimentação rica em fibras. Depois de 15 dias, entrou em uma etapa mais rígida da dieta: “Esta segunda fase foi mais doída, porque era um detox de alimentação restrita, que proibia até mesmo alguns temperos”. O esforço valeu a pena: ao fim do processo, as calças sociais voltaram a caber – algumas, inclusive, estão largas – e Manuela deu adeus a 5kg. Assim como Fernanda, ela também pretende cuidar mais da própria alimentação daqui em diante. “Com certeza, para a fase do junk food eu não volto mais. Reduzi muito a ingestão de bebida alcóolica no geral e também procuro ter opções mais saudáveis quando faço uma refeição. Acho que algumas mudanças podem ficar para sempre, mas tudo com muito equilíbrio”, ressalta.

Para quem quer adotar uma dieta mais saudável e variada, Eurídice recomenda seguir as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, e optar sempre por consumir alimentos in natura ou minimamente processados. Veja os dez passos para uma alimentação saudável, recomendados pelo guia:

  1. Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação;
  2. Utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos;
  3. Limitar o consumo de alimentos processados;
  4. Evitar o consumo de alimentos ultraprocessados;
  5. Comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia;
  6. Fazer compras em locais que ofertem variedades de alimentos in natura ou minimamente processados;
  7. Desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias;
  8. Planejar o uso do tempo para dar à alimentação o espaço que ela merece;
  9. Dar preferência, quando fora de casa, a locais que servem refeições feitas na hora;
  10. Ser crítico quanto a informações, orientações e mensagens sobre alimentação veiculadas em propagandas comerciais.

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