Por que cinza e amarelo serão as cores usadas em 2021

Eleitas pela Pantone, elas revisitam os anos 70, mas ganham identidade própria na hora de ditar o que está em alta no design e na decoração para este ano

Se você começar a ver por aí referências em decoração ou design focadas no amarelo ou no cinza, saiba que há um motivo. Essas duas cores foram as eleitas pela empresa Pantone para 2021 com os nomes de Illuminating (o amarelo) e Ultimate Grey (o cinza). Mas você tem ideia de por qual motivo isso acontece? Por que, a cada ano, certa tendência aponta um tom que deve predominar para roupas, móveis, decoração, entre outras áreas?

“Muita gente não sabe, mas as empresas químicas, que são um verdadeiro oligopólio mundial, definem a cartela de cores. Elas baseiam-se em pesquisas dos chamados forecasters que tentam captar alguns gostos, sobretudo dos jovens”, explica a especialista Ethel Leon. Ela é doutora pela Faculdade de Arquitetura da USP (Universidade de São Paulo), autora de livros como “Design Brasileiro Quem Fez Quem Faz” e “Memórias do Design Brasileiro”, entre outros.

Amarelo e cinza são as cores do ano de 2021. Foto: Reprodução Pantone

Portanto, de onda em onda, a cada temporada um tom passa a ser mais relevante do que o outro. Você se lembra da “febre” do chamado rosa millennium? Pois bem, de repente, por onde quer que se olhasse, esse tom pastel estava lá. Mas a pandemia de Covid-19 também deixou legado nas apostas de tons que se firmariam depois de sua chegada. Afinal, com o mundo enfrentando diversos obstáculos inéditos para essa geração, opções de cores, digamos mais “fofinhas” ou mesmo muito chamativas, como os fluorescentes, saíram de cartaz.

“De fato, talvez fluorescente não seja algo que condiz com período pandêmico. Mas esta é uma questão de mercado. As escolhas das empresas (a Pantone tem grande poder aí) definem muita coisa na cadeia produtiva da moda, dos automóveis, etc”, explica Ethel.

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Por que usamos os tons que usamos

Mas nem sempre foi o “mercado” que ditou qual seria o tom do momento como acontece agora. Viajando um pouco mais no tempo, outros fatores como religião ou a disponibilidade de material orgânico de tingimento influíam muito mais no que se ia vestir ou ostentar. “A História cultural das cores trabalha a partir de períodos muito mais longos, percebendo as cores como símbolos que são construídos a partir de hábitos, práticas e crenças que envolvem preferências vestimentares, dos objetos domésticos e urbanos, de rituais, entre outros fatores”, diz Ethel Leon.

Quer um exemplo concreto? A especialista conta: “Os historiadores têm nos mostrado que durante a Antiguidade Ocidental e em muitas outras sociedades, o preto, o branco e o vermelho constituíram o sistema dominante de cores, seja pelo seu emprego mais frequente do que outras cores, seja porque foram pigmentos que, desde as pinturas das cavernas, foram desenvolvidos pelos seres humanos”, diz Ethel.

De acordo com ela, o vermelho era um tom que tinha muita presença na roma Imperial, por exemplo, mas ao longo da Idade Média, depois do ano 1000, foi lentamente perdendo espaço: “O azul  passa a ganhar importância”, diz. “Antes, essa era uma cor mal definida na Grécia e mal vista em Roma porque estava ligada aos bárbaros do Norte. Alguns historiadores veem aí, ou seja, há cerca de quase mil anos, a passagem para nosso sistema de cores composto de preto, branco, vermelho, azul, amarelo e verde”, explica Ethel Leon.

“Há que entender também que as cores foram teorizadas por Aristóteles: suas teorias colocavam o preto numa extremidade e o branco em outra, intermediadas por vermelho e verde. Essa ideia só foi drasticamente rebatida por [Isaac] Newton no  final do século 17. Para ele, que era físico, o branco era a luz, soma de todas as ondas de cor. E o preto a ausência de cor. Até hoje há quem diga que preto e branco são não-cores”, completa a especialista.

2021 e suas cores

Mas como o amarelo, o cinza, também presentes nos esquemas de decor dos anos 70, podem nos influenciar neste ano? Será que essas podem nos ajudar a passar por esse momento de turbulência? Para a expert, a resposta é outra: “Na minha perspectiva, as cores não ‘ajudam’. Quem trabalha com esse tipo de ponto de partida é a psicologia das cores. A preferência pelas cores passa pela formação cultural, ou seja, hoje achamos que o azul é repousante e frio, apesar de ele ser a cor da chama do gás, por exemplo. Ou que o verde acalma – mas isso vem de Goethe [autor que foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu do fim do século 18 e início do 19]”, diz a expert. “Aqui no Ocidente, associamos ao preto do luto, às perdas. E nossas sociedades estão enlutadas”, finaliza.

Ainda que o poder “curativo” das cores não seja algo de comum acordo entre as diversas áreas que lidam com o tema, o fato é que 2021 está associado pela união de dois tons bem distintos. Para a Pantone, que vem promovendo essa combinação como sendo “a cara deste ano” desde o final de 2020, a proposta do amarelo com o cinza é propor uma “união que passe uma mensagem de força e esperança imperecíveis e energizantes”. A escolha dupla, segundo Leatrice Eiseman, diretora-executiva da Pantone, deve representar resiliência e esperança diante da realidade em que vivemos. Que assim seja.


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