10 apostas para o jornalismo e a comunicação em 2021

Relatório de especialistas no assunto indica que será um ano de retomada econômica para a mídia; mas modelos são diferentes

O relatório anual do Instituto Reuters e da Oxford é um dos mais esperados da comunicação. Nele, dados se cruzam sobre a área, uma das mais afetadas nos últimos anos pelas redes sociais, registrando a perda de receita de publicidade e a migração de audiência para outros conteúdos – inclusive em portais de fake news. Mas, se 2020 foi o ano-castástrofe para muito negócios, no caso do jornalismo e da comunicação, em geral, ficou clara a sua importância.

Em meio ao caos de acontecimentos inéditos, o trabalho do profissional de informação foi considerado de primeira necessidade. Pensando nisso e de olho na ofensiva que governos pelo mundo têm se organizado para fazer em torno das principais empresas tech – como Facebook e Google – confira abaixo 10 tendências para 2021 elencadas pela parceria do Instituto Reuters, um dos mais renomados da área, com a Universidade de Oxford.

1. A inteligência artificial chegou para ficar

A automação feita por conta da IA já vista em muitos outros setores de mercado deve dar as caras com mais força na comunicação a partir de 2021. “Novas tecnologias, como inteligência artificial (IA), levarão a uma maior eficiência e automação em muitos setores, incluindo o editorial este ano. Mas, à medida que a IA sai dos laboratórios para a aplicação na vida real, podemos esperar um debate mais acalorado sobre seu impacto na sociedade – sobre o ritmo da mudança, sobre transparência e justiça”, explicam os dados do relatório.

Muitos veículos ainda estão fazendo transição para o digital. Mas de uma forma ou de outra, a pandemia de Covid-19 acelerou esse cenário de transformação online, que culminará com mais IA dentro das empresas de comunicação. De qualquer maneira, segundo o material, “os planos de negócios incluem trabalho mais remoto e uma mudança mais rápida para modelos de negócios focados no leitor”. O tempo parece que nunca correu tão rápido para os jornalistas.

Leia também: Como 2020 impulsionou o uso de inteligência artificial 

2. Imparcialidade X opinião

De acordo com o documento, as noções de imparcialidade estão cada vez mais difíceis de serem atingidas nesse momento de polarização de ideias. “As noções tradicionais de imparcialidade e objetividade jornalística estão sob pressão em uma era de maior polarização política e social – com meios de comunicação mais parciais previstos para lançar este ano.” Em outras palavras, ganhará mais atenção da audiência quem claramente disser a que veio.

“Apesar disso, a grande maioria (88%) dos pesquisados, o que inclui um grande número de editores seniores, afirma que o conceito de imparcialidade é mais importante do que nunca. Ao mesmo tempo, quase metade (48%) concorda que existem algumas questões políticas e sociais em que não faz sentido ser neutro”, mostra o relatório. Essa aposta de produção de conteúdo se une a de que, em um mundo cada vez mais complexo, será necessário expertises cruzadas (de sociologia, antropologia, História, ciências, etc) para poder explicá-lo com neutralidade.

3. Limites para a chamada “liberdade de expressão”

Em um ambiente tão polarizado como o que encontramos hoje nas redes sociais, alguns limites do que pode e não pode ser dito foram pulverizados. “Com vidas em risco e sob ameaça de regulamentação, espere uma abordagem mais intervencionista sobre conteúdo prejudicial e não confiável e maior destaque para marcas de notícias confiáveis ​​- juntamente com maior apoio financeiro”, enfatiza o relatório.

Já foi possível ver isso na prática, nas primeiras semanas do ano, com as restrições impostas ao ex-presidente Donald Trump por parte do Twitter e do Facebook. De acordo com o material, a perspectiva é otimista para quem produz notícia: “no final do ano, o jornalismo pode estar um pouco mais separado da massa de informações que é publicada na internet”, diz o relatório.

4. A volta do contato cara a cara

Ainda que o trabalho jornalístico tenha sido considerado de primeira necessidade durante a pandemia de Covid-19, muita gente está há meses trabalhando de casa no contato com suas fontes e apurações. Para 2021, o relatório prevê que isso deve mudar e os jornalistas serão vistos mais em campo, como se diz.

“Podemos esperar uma sede de contato face a face após um ano de bloqueios e restrições ao movimento. Os eventos da vida real devem retornar este ano, conforme a fadiga do Zoom se manifestar.”

Leia também: Dating Burnout: entenda o fenômeno que acomete cada vez mais solteiros 

5. Vídeos online e algoritmos

Quando o assunto é desinformação, o material aponta os vídeos online ainda como a maior fonte para fake news. Ele deve seguir sendo uma preocupação para quem atua na área.  “Ele se torna o principal foco de preocupação em torno da desinformação, com o surgimento de canais hiper partidários baseados na opinião e podcasts de vídeo distribuídos por plataformas como YouTube e Spotify”, dizem os dados do documento. Ou seja, é mais uma pedra no sapato na hora de lidar com a regulação de conteúdo e a delicada fronteira que pode transformar em censura a remoção de algo do ar. Essa experiência terá que ser feita em modo beta, ou seja, com tudo já acontecendo.

6. Áudio, a estrela da vez

A pandemia fez o auge da comunicação em áudio se acelerar e agora os podcasts são o que há de mais novo e interessante quando o assunto é produção de conteúdo. O relatório aponta esse caminho também e novas movimentações no mercado brasileiro não podem deixar isso passar despercebido, como o surgimento da plataforma brasileira Orelo para podcasts.

“O áudio continua a ser um ponto brilhante para a mídia de notícias, com forte inovação em conteúdo e modelos de negócios. Espere ver um foco crescente em podcasts pagos e pagamentos de plataforma, ampliando a gama de opções de monetização.” Em outras palavras, quem ainda não começou a focar em conteúdo de áudio já está perdendo tempo.

7.  Prepare-se para o 5G

Só se fala na tecnologia 5G, que vai dar um salto ainda maior no volume de consumo de dados e, consequentemente, de conteúdo. “Os lançamentos 5G ganham ritmo em todo o mundo, junto com uma proliferação de novos dispositivos, incluindo wearables e smart glasses”, adianta o relatório.

Editores e CEOs devem se preparar para um futuro em que a distribuição do conteúdo será essencial para manter suas marcas vivas – e não só a produção garantirá o interesse. Se não chegar nas pessoas, nesse mar de informações diárias, não adiantará nada focar em qualidade ou volume.

8. Jornalismo orientado para fato e explicações

Nunca se valorizou tanto o papel do jornalista-especialista em sua área de atuação quanto agora. Saúde, economia, política, história… Tudo isso ganhou destaque com a pandemia de Covid-19 e as matérias mais aprofundadas, com explicações que vão além das manchetes e devem ser as preferidas do público.

“As empresas que investiram em recursos especializados e talentos antes da crise estavam em melhor posição para aumentar sua reputação. Jornalistas de saúde e especialistas médicos se tornaram nomes conhecidos distribuindo seu conhecimento pela TV, rádio, podcasts e online – respondendo a perguntas do ouvinte e ajudando a corrigir informações falsas”, diz o relatório.

9. Renovação da confiança no jornalismo

Tanto por parte da audiência quanto pelo lado dos profissionais, o mundo virado pelo avesso que a pandemia de Covid-19 trouxe teve como resultado um reconhecimento maior da necessidade de se fazer bom jornalismo. Isso tanto por parte de quem o consome, o público espectador, quanto por parte de quem o produz. Sob pressão, o apuro precisou ser ainda maior e, como essa pressão não deve se dissipar tão cedo, esse cenário se mantém.

O que é bom em matéria de conteúdo deve prevalecer. “Apesar do panorama econômico desolador, a confiança em empresas individuais permanece surpreendentemente forte (73%), enquanto a confiança no jornalismo de forma mais ampla aumentou de 46% para 53%, em comparação com a pesquisa do ano passado”, informa o material da Reuters com a Oxford.

10. Impulso na assinatura digital e outras formas de pagamento

O relatório já havia indicado, em 2020, que essa forma de financiamento por parte dos veículos de mídia seria cada vez mais usada: o pagamento para se poder consumir o conteúdo. Seja por meio de paywall, seja por assinatura digital ou colaboração coletiva, os caminhos estão sendo delineados, ainda que não alcancem o mesmo valor conseguido com projetos publicitários.

Mas é fato que a partir de agora o leitor terá que pagar: “A Covid-19 deu um grande impulso a essa tendência, com o especialista em assinaturas Zuora relatando que a publicação de mídia foi o segundo segmento de crescimento mais rápido – depois de serviços de streaming de vídeo como Disney +, Netflix e Amazon Prime. A média de assinaturas em notícias, de acordo com Zuora, foi cerca de 110% maior do que no ano anterior, na comparação dos meses de março a maio de 2020”, informam os dados. “O New York Times sozinho adicionou mais de um milhão de assinantes digitais em 2020 – citando uma demanda sem precedentes por jornalismo de qualidade, original e independente.”

No Brasil esse esclarecimento sobre o valor das notícias e do jornalismo de qualidade já começou, mas ainda precisa avançar para chegar a níveis mais próximos aos de Estados Unidos e Reino Unido.






Acesse a edição:

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS