Por que as novas políticas de privacidade da Apple revoltaram as Big Techs?

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, chegou a orientar sua equipe a “causar dor” na desenvolvedora do iPhone

Foto: Shutterstock

O começo de 2021 foi turbulento para o setor de tecnologia. Ao mesmo tempo em que precisaram lidar com as repercussões das eleições norte-americanas do ano passado, as Big Techs sentiram o impacto da crescente desconfiança do público e das novas legislações de proteção de dados em seus modelos de negócios. O WhatsApp é o exemplo mais claro desse cenário. A empresa sofreu duras críticas quanto à atualização das políticas de privacidade da plataforma, que pretende permitir o compartilhamento de dados dos usuários com outras empresas do conglomerado Facebook Inc (como o Messenger e Instagram).

A Apple foi outra gigante que “deu o que falar” durante esse período, mas por motivos diferentes. Em dezembro de 2020, a empresa anunciou sua nova política de “transparência de rastreamento de aplicativos”. Apesar do nome forte, as mudanças (que devem chegar com a atualização do iOS 14) vão contra a tendência centralizadora de dados que está tomando conta do mercado. Em comunicado, a companhia informa que a próxima geração do sistema operacional do iPhone vai oferecer ao usuário a opção de limitar os dados de localização compartilhados com terceiros.

Atualmente, a plataforma permite que os usuários impeçam que aplicativos específicos coletem informações do GPS dos seus aparelhos. Entretanto, a medida não é tão efetiva. Isso porque esse é um processo que deve ser feito manualmente e certos aplicativos podem impedir o acesso daqueles que não concordarem em compartilhar sua localização.

O novo recurso permite que o usuário limite a precisão dos dados compartilhados com terceiros. Ou seja, em vez da sua localização exata, os aplicativos passam a ter acesso somente à região em que o usuário está.

O recurso, batizado de App Tracking Transparecy (ATT), também passará a exigir que aplicativos peçam permissão ao usuário para rastreá-lo em aplicativos e sites de outras empresas. Atualmente, esses dados são geralmente utilizados para conhecer os hábitos de consumo de mídia dos usuários. Sua aplicação geralmente se limita ao marketing digital.

Em seu comunicado, a Apple também exigiu mais transparência por parte das empresas que utilizarem a App Store (loja de aplicativos da empresa). Todos que desejarem submeter novos aplicativos ou atualizações na plataforma deverão informar a Apple sobre quais práticas de privacidade serão estipuladas. Essas informações também serão compartilhadas com o público.

“A App Store agora ajuda os usuários a entender melhor as práticas de privacidade de um aplicativo antes de baixá-lo em qualquer plataforma Apple. Na página de produto, os usuários podem aprender sobre alguns dos tipos de dados que o aplicativo pode coletar e se esses dados estão vinculados a eles ou usados ​​para rastreá-los”, informa a empresa.

Transparência e proteção de dados

Teoricamente, a nova postura da Apple vai de acordo com as tendências regulatórias de proteção de dados. Legislações como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), em vigor em países da União Europeia, e a brasileira Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já determinam que as empresas informem os usuários de quais dados serão coletados e peçam sua autorização para que isso seja feito.

No caso da LGPD, essas estipulações estão presentes no sexto artigo da lei. Nele é estipulado quais regras devem ser seguidas para o manejo dos dados dos usuários. Dentre elas, estão:

  • Livre acesso: garantia, aos titulares, de consulta facilitada e gratuita sobre a forma e a duração do tratamento, bem como sobre a integralidade de seus dados pessoais;
  • Qualidade dos dados: garantia, aos titulares, de exatidão, clareza, relevância e atualização dos dados, de acordo com a necessidade e para o cumprimento da finalidade de seu tratamento.

 

Mas até então o mercado vem se comportando de forma errática. O já mencionado caso do WhatsApp é um exemplo disso. A empresa foi alvo de críticas por parte de especialistas de direito digital ao mencionar de forma pouco precisa quais dados seriam coletados (e para qual finalidade) com sua nova política de privacidade. Caso os usuários não concordem com as mudanças, a alternativa é deixar de utilizar a plataforma.

Reações negativas

As novas políticas de privacidade não passaram despercebidas pelo mercado. No dia seguinte ao anúncio da Apple, Mark Zuckerberg (CEO do Facebook) passou a atacar a desenvolvedora do iPhone com anúncios de página inteira em jornais como New York Times, Wall Street Journal e The Washington Post.

Intitulada “Apple vs Internet”, a ação alega que as novas políticas de privacidade prejudicam os modelos de negócios do Facebook e de outras empresas do setor. O motivo seria que as medidas dificultariam a elaboração de campanhas de marketing direcionado, que dependem dos dados do usuário para a criação de anúncios personalizados.

“Nós acreditamos que plataformas gratuitas, cuja renda é oriunda da publicidade, têm sido essenciais para o crescimento e vitalidade da Internet, e que anúncios personalizados e privacidade do usuário podem coexistir. Apoiamos medidas de privacidade proativas e transparência de dados, mas não concordamos com as mudanças de política da Apple”, disse a empresa em comunicado.

O Facebook ainda afirma que as novas políticas de privacidade tornarão muito mais difícil para as pequenas empresas atingirem seu público-alvo, o que limitaria seu crescimento e sua capacidade de competir com as grandes corporações. Estudos conduzidos pela big tech estimam que, sem esses anúncios personalizados, pequenos negócios podem sofrer uma perda de até 60% em seu lucro oriundo de marketing.

De acordo com a empresa, o Facebook não prevê que as alterações propostas para o iOS 14 causem uma perda total de personalização, mas sim um movimento nessa direção.

Transparência ou estratégica comercial?

Mark Zuckerberg chegou a afirmar que “a Apple pode dizer que está fazendo isso para proteger seus usuários, mas as medidas claramente visam seus interesses competitivos.” Com a alegação, o executivo insinua que a Maçã restringe o acesso de outras empresas aos dados, mas continua os coletando para fins pessoais.

De acordo com as políticas de privacidade da Apple, a localização precisa dos usuários é “usada  apenas para dar suporte à funcionalidade Encontrar e localização geral”. O mal estar é tamanho que, de acordo com reportagem publicada pelo jornal The Washington Post no último sábado (13), o CEO do Facebook orientou sua equipe a “causar dor” na concorrente.

Zuckerberg não é o único a cultivar desavenças com Maçã. Empresas como a Epic Games e Spotify também acusam a Apple de adotar políticas predatórias com outros desenvolvedores de software. Ambas criticam o imposto de 30% sobre a receita do desenvolvedor em troca do uso da App Store.

Derek Andersen, CFO da Snap, empresa dona do Snapchat, também levantou ressalvas quanto às novas medidas. De acordo com o portal CNET, o executivo alertou que a política de privacidade representa um risco de interrupção da demanda por marketing direcionado. Apesar disso, as empresa ainda vê as mudanças como algo positivo. “Quanto às mudanças de política que a Apple está divulgando, realmente pensamos neles como pessoas de alta integridade e estamos felizes em vê-los tomando a decisão certa para seus clientes”, diz o CEO da Snap, Evan Spiegel.


+ Notícias 

Descubra se seus dados pessoais foram usados para pedir empréstimo bancário

As redes sociais pagam impostos no Brasil? 






ACESSE A EDIÇÃO DESTE MÊS:

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS

CM 261: O respeito ao cliente é o caminho para 2021

Anuário: A omnicanalidade em todo lugar

CM 260: Conarec 2020 e sua imersão em experiência em um mundo antinormal

VEJA MAIS