Digitalização de dados de saúde pode revolucionar o setor

Investimentos públicos e privados têm tornado a jornada online do paciente mais fácil e trazido melhoras no atendimento

Foto: Shutterstock

Transpor dados de saúde do meio físico para o digital vem se apresentando como um bom modo de construir ferramentas para a otimização do atendimento de pacientes e redução do impacto ambiental com a diminuição do uso de papel.

Já foi o tempo em que envolver a tecnologia na saúde era sinônimo de experiências mecanizadas e desumanizadas. E o público percebeu isso. Segundo um estudo da Zebra Technologies, 77% dos pacientes avaliam positivamente o uso de dispositivos móveis durante as consultas médicas.

Além disso, a pesquisa revela que esses aparelhos podem reduzir em 61% as chances de prescrever medicamentos errados, 52% as falhas na hora de etiquetar amostras e em 46% equívocos médicos evitáveis.

Dados de saúde na palma da mão

A tecnologia já está presente no campo da Medicina há alguns anos por meio de softwares em cirurgias e procedimentos estéticos. Mas como isso vem sendo aplicado nos últimos anos?

O investimento em Big Data, por exemplo, para pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) em artigo publicado na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, do Ministério da Saúde, traz ganhos em dinheiro, tempo e vidas, e precisa ser defendido.

Isso foi notado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) durante a pandemia de Covid-19 de modo a oferecer alguns dos seus serviços on-line para evitar idas aos postos de saúde e o manuseio de documentos, ambos dispensáveis em certos casos. Por isso, foi criado o Conecte SUS, sistema que realiza agendamento de consultas e exibe histórico de medicamentos, exames obtidos através do SUS, carteirinha de vacinação digital e etc.

Relações digitais com os pacientes

O setor privado também está atento à nova realidade. A Memed é uma plataforma criada em 2012 que conecta paciente-médico-farmácia e melhora o atendimento através de prescrições digitais de medicamentos. Rafael Moraes, médico co-fundador e CMIO – chief medical information officer, ou diretor-chefe de informática médica – da empresa, explica como funciona o processo.

“Para que o médico possa utilizar essas plataformas, ele precisa ter um certificado digital no padrão ICP – Brasil (Infraestrutura de Chaves Públicas). É importante ressaltar que não precisa ser obrigatoriamente uma ferramenta especializada em receitas digitais. Ele pode fazer a receita por um editor de texto digital e, quando concluída, salvar esse arquivo em formato PDF e inserir a sua assinatura digital. Depois de finalizado, ele envia para o celular do paciente, que poderá acessar essa receita a qualquer momento, e comprar o medicamento da forma que quiser”, pontua.

Pontos positivos da digitalização

Por conta da pandemia de Covid-19, a Memed apresentou novas experiências ao cliente e, consequentemente, ocorreu um boom em termos de médicos e pacientes credenciados, alcançando dados nunca antes vistos.

“13 mil novos médicos se cadastraram na plataforma em março de 2020, o que gerou um aumento de 1.000% em relação à média histórica de uso da ferramenta. Hoje, totalizamos mais de 120 mil médicos cadastrados. Além disso, antes da pandemia não existiam farmácias ou drogarias que estavam aptas a aceitar receitas médicas no formato digital. Agora, são mais de 30 mil. Ao longo do ano de 2020, foram mais de 13 milhões de receitas emitidas digitalmente”, quantifica o CMIO.

Entre os pontos positivos deste novo modo de receitar medicamentos estão:

  • Compra via internet, televendas ou presencialmente;
  • Agilidade nas tomadas de decisão;
  • Segurança da receita, que não pode ser rasurada, rasgada ou perdida;
  • Treinamento de farmácias para a dispensa de medicamentos;
  • Redução de custos e de erros médicos e farmacêuticos (legibilidade da receita, histórico de medicamentos que saíram do mercado, alerta de remédios que causam alergia ao paciente e etc);
  • Economia de gastos com papel e o fortalecimento de questões ecológicas.

Outro ponto que vale ênfase é o custo da saúde no Brasil. Dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o Ibope mostram que, em 2018, cerca de 70% dos brasileiros não tinham plano de saúde particular e 56% acreditavam que a saúde pública havia piorado nos últimos 12 meses.

Em consonância com esses índices, o médico co-fundador e CMIO da Memed, Rafael Moraes, reforça a relevância da digitalização de dados de saúde.

“Conseguimos evitar redundâncias, atendimentos múltiplos desnecessários e processos ineficientes em que não conseguimos conduzir o paciente da melhor maneira possível. Isso tudo interfere no sistema e gera custo. De certo modo, toda essa organização precisa ser monitorada quase que em tempo real para termos uma visão macro necessária para a gestão de saúde”, salienta.

É preciso se adequar à LGPD

Com tantas informações sensíveis circulando na internet, a digitalização de dados de saúde torna-se uma temática relevante, mas que deve ser tratada com cautela.

Para se ter uma ideia, mais de 100 milhões de contas de celular, com CPFs, números telefônicos e minutos gastos em ligações foram vazadas neste mês, segundo o dfndr lab, da empresa de cibersegurança PSafe.

Por isso, existe a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Criada em 2018, a norma entrou em vigor em setembro de 2020 e garante que as pessoas físicas tenham conhecimento de como seus dados pessoais são tratados pelas empresas.

As penas para quem não cumprir a lei podem variar entre multas, advertências, suspensões, bloqueios e até mesmo proibição de funcionamento. Para Guilherme Braguim, advogado da área de proteção de dados, direito digital e propriedade intelectual da ASBZ Advogados, as empresas do ramo da saúde devem tomar cuidado redobrado.

“O setor tem uma característica em especial: ela trata, rotineiramente, dados de saúde, os quais são considerados pela LGPD como dados sensíveis. O entendimento da lei é de que, na hipótese de um incidente de vazamento, por exemplo, o dano causado ao titular de dados será maior do que dos dados pessoais comuns”, explica o especialista.

Desse modo, Braguim elenca pontos importantes para nortear esses processos:

  • Analisar as atividades de tratamento de dados pessoais;
  • Verificar se há procedimentos adequados de retenção e eliminação de dados dispensáveis;
  • Aplicar medidas seguras de proteção dos sistemas;
  • Estabelecer políticas internas atualizadas de como o tratamento de dados deve ser feito.

Apesar dos riscos, se estes passos forem seguidos à risca, o advogado acredita que o avanço com a digitalização de dados será bem significativo.


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