Alienar-se tem o seu valor para dar um respiro à mente?

O interesse por conteúdos de entretenimento considerados mais alheios à realidade mostra como a pandemia deixou as pessoas exaustas mentalmente e buscando por válvulas de escape

Foto: Shutterstock

Diante de cenários complexos, o que nosso cérebro deseja fazer? Fugir para conteúdos mais leves, superficiais e que causem um tipo de entretenimento imediato. Buscar válvulas de escape para os tempos em que vivemos é mais do que natural. Por isso mesmo, é compreensível o buzz na internet em torno do “Big Brother Brasil”, o reality show global que já está no ar há mais de 20 anos. Mas o programa ficou polêmico e pesado demais, quem buscava entretenimento se viu obrigado a apostar em outras saídas na TV ou nas redes sociais, e com isso veio a pergunta: está certo querer se alienar do que acontece na realidade de vez em quando para dar um respiro à mente?

A palavra alienação é dita quase sempre com uma conotação ruim. Ela significa “estar alheio” ao que passa, ao que acontece. Portanto, quem escolhe estar nessa posição em um contexto no qual precisa se posicionar ou saber mais sobre algum tema é tido como pouco informado, que não se importa com o que se passa no entorno. Mas em tempos tão complexos como o que estamos vivendo, a alienação pode ter outros significados. Alienar-se pode, simplesmente, significar dar uma pausa ao cérebro, que tem digerido uma realidade que demanda múltiplas informações e paciência para compreender.

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“Em momentos de estresse crônico, como o que vivemos, as pessoas tendem a buscar fontes que deem prazer, como alimentos, substâncias psicoativas como álcool e drogas, e atividades que distraiam e façam com que esqueçam de tudo aquilo que traz preocupações e sentimentos e emoções conflitantes”, explica o médico e psicólogo Roberto Debski, um especialista em terapias integrativas, que procuram tratar corpo e mente de forma interligada.

Isso explica a ânsia por se distanciar da realidade assistindo a um reality show ou mesmo a uma série passada em tempos tão antigos como “Os Bridgerton”. A atração da Netflix se tornou a série mais vista em seu catálogo no mundo ao transportar o espectador para uma Londres da época pré-vitoriana onde bailes da aristocracia eram o auge da temporada de verão, na qual as pessoas conheciam seus futuros maridos e esposas.

Bem longe desse cenário de séculos atrás, a conversa é que vivemos uma espécie de “2020 – segunda parte”, com enfrentamentos ainda da contaminação em massa pela Covid-19 e incertezas acerca da vacinação no Brasil e no mundo. Essa segue sendo, portanto, a mola propulsora para as pessoas continuarem buscando por um respiro, buscando por conteúdos que sejam mesmo mais “alienantes” dessa realidade.

“Todo excesso tem como consequência o adoecimento, através de sintomas e sinais que mostram que devemos mudar nossos comportamentos”, explica o psicólogo. “Diversos sintomas como irritabilidade, alteração dos padrões alimentares e de sono, sintomas digestivos como dor de estômago e alteração no ritmo intestinal, dores de cabeça e no corpo, alergias, alteração da libido e redução da vitalidade, dentre outros, mostram que algo não vai bem”, continua o especialista. O que já é uma pista para se saber que o estresse bateu forte.

 Em busca de um “respiro”

No começo de fevereiro, muito se comentou que o programa BBB teria esse efeito de suspender o espectador da realidade, o que não aconteceu para muitos ou está começando a acontecer só agora para alguns. O mesmo se esperaria das festas de carnaval, que também acabaram canceladas pela pandemia. Diante dessas negativas, é importante saber que buscar um respiro para as situações de estresse não é algo que deve ser desconsiderado ou ter menos importância na rotina diária da atualidade.

A saúde mental pede mais atenção, como enfatiza o médico Roberto Debski: “É importante termos momentos de lazer, de distração, de deixar por algum tempo de focarmos somente em problemas e dificuldades. Sendo assim, cada pessoa, dentro do que gosta, irá escolher suas atividades. Nem todos gostam e assistirão a reality shows, há pessoas que não têm qualquer afinidade por este tipo de programa, e buscam outras formas de distração”, explica. “Podem preferir música, atividades esportivas, filmes, leituras edificantes e outros hobbies como formas de se sentirem bem.”

Então, se está liberado alienar-se sem culpa e sem precisar dar satisfação do que se está consumindo como entretenimento, como conciliar essa atividade com outras mais informativas, por assim dizer? O psicólogo faz uma sugestão de caminho: “O estresse é uma realidade no mundo de hoje. Cada pessoa tem um grau de resiliência e sabe lidar de maneira mais ou menos efetiva em relação ao estresse, e esta é uma habilidade que pode ser aprendida”, afirma. Ou seja, se faz necessário, no momento atual, saber qual é o tanto de estresse que você consegue suportar.

“Faz parte para lidar com essa tensão diária, ter momentos de lazer, entretenimento, atividades prazerosas, pausas para desfrutar de uma boa conversa, ou um silêncio necessário. Práticas esportivas, música e outras ações que nos façam relaxar e recarregar nossas ‘baterias’ são importantes”, diz Debski.

Quem ainda não estiver convencido sobre a importância de se prestar atenção a esses momentos de escape, sejam eles de puro ócio ou de alienação dos temas mais complexos do momento, vale ficar de olho na avaliação que o médico traz de sua atual experiência em clínica: “Há uma previsão que a próxima onda, após a redução dos casos de Covid-19, é a de agravamento das doenças psicológicas, estresse, burnout, ansiedade e depressão como consequências de todos esses problemas. Manter a saúde física e mental é fundamental para podermos lidar com as exigências do mundo atual”, finaliza o especialista.






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