O que os aprendizados da pandemia podem mudar na jornada de trabalho

Segundo especialistas, momento impulsionou mudanças, mas ainda é preciso melhorar alguns pontos

Foto: Shutterstock

A rotina de pegar horas de transporte público e passar o dia todo no escritório acabou ficando para trás para muitas pessoas durante a pandemia. Novas formas de trabalhar surgiram e a jornada de trabalho brasileira acabou mudando seu rumo de repente.

Com a situação emergencial, os preparativos para as transformações na vida profissional foram poucos e as preocupações cresceram. Além disso, a maior parte das pessoas ainda teve que lidar com outras tarefas e situações, como ter que cuidar do filho e da casa ao mesmo tempo em que trabalhavam.

Mas mudanças tão significativas não passarão em branco e, por isso, prometem influenciar a forma como a jornada de trabalho é vista atualmente no Brasil. Veja o que especialistas têm a dizer sobre!

Jornada de trabalho na pandemia

A necessidade repentina de isolamento social deixou muitas empresas com o grande desafio de liderar suas equipes de forma remota, um estilo de trabalho que ainda vinha ganhando espaço no Brasil, mas já utilizado em outras partes do mundo.

Para Ana Chauvett, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas, e Walter Vieira, CEO da Closeer (aplicativo que conecta profissionais e empresas), a pandemia apenas acelerou esse processo que já estava para acontecer.

“A pandemia naturalmente acelerou essa mudança na jornada de trabalho no Brasil, pois mundialmente já se discutia muito sobre novos modelos de contratação e trabalho”, explica Walter. Para ele, apesar das dificuldades, a habilidade de adaptação do ser humano indica que essa nova rotina chegou para ficar na vida de uma parte dos brasileiros.

Mas, para Ana, ainda é preciso prestar atenção em alguns casos específicos e no perfil do funcionário que está trabalhando para a empresa. “Eu percebo que determinados perfis comportamentais tiveram uma demora muito grande para poder entender como seria esse novo meio de trabalho.  Algumas pessoas, inclusive, não têm estrutura, não tem tranquilidade para trabalhar dentro de casa”, lembra a especialista em gestão de pessoas.

Ou seja, depois de meses em home office, alguns ainda podem sentir dificuldades em trabalhar nesse formato, principalmente aquelas que estão sobrecarregadas com tarefas da vida profissional e pessoal.

E isso causa uma preocupação principalmente com a saúde mental e qualidade de vida das pessoas durante a nova jornada de trabalho, podendo causar cansaço e estresse excessivos, além de desequilibrar a relação entre trabalho e vida pessoal.

Mudanças no comportamento

Gostando das novas formas de jornada de trabalho ou não, a realidade é que são tendências que chegaram para ficar. Um evento tão importante e significativo como uma pandemia mundial não passa em branco quando se fala em comportamento.

De acordo com Ana, não são todas as empresas e pessoas que estão preparadas para tantas mudanças, mas é preciso investir nisso para melhorar a qualidade de vida e o trabalho dos envolvidos nesse processo.

E a especialista em gestão de pessoas relembra ainda que novos formatos têm potencial nesse período: “Não é um novo normal, porque já não estava normal. Pessoas passavam de três a quatro dentro de transporte para poder ir para o trabalho, se estressavam no trânsito, enfim… a vida não vai ser mais como era”, afirma, salientando que, se bem feita, essa nova jornada de trabalho pode ser benéfica para a qualidade de vida de todos.

Investimento em tecnologia

Para conseguir aproveitar todo esse potencial, entretanto, é preciso que as empresas estejam abertas a investir na qualidade do trabalho de seus funcionários, principalmente em âmbito tecnológico.

Segundo os especialistas, empresas mais conservadoras quanto à jornada de trabalho também já estão notando os benefícios do home office para seus funcionários, mas é preciso entender que não é apenas deixá-los levar o computador da empresa para casa.

É preciso investir nesse funcionário, oferecer suporte, pensar em ferramentas que tornem a jornada de trabalho mais eficaz mesmo em meio às mudanças de formato.

Mudanças na gestão e na cultura

E a tecnologia, por si só, não consegue resolver todos os problemas. Os especialistas concordam com um ponto: as maiores mudanças devem ser na gestão e na cultura da empresa. Hábitos e valores antigos deixaram de caber na realidade atual e vão perder espaço no futuro.

“As empresas vão precisar investir em tecnologia, em uma mudança cultural significativa e também em um novo modelo de gestão de pessoas, por conta da flexibilidade. Hoje as pessoas podem estar em qualquer lugar, é preciso pensar em formas de ter um trabalho alinhado e saber qual o resultado esperado pela organização”, diz Susana Campos, CEO da HSD Recursos Humanos.

Sobre a gestão, Susana explica que “o modelo de gerenciamento focando resultados, com prazos e com pessoas capacitadas, pode ajudar muito dentro de um novo formato de gestão e de processos”. Ou seja, a gestão por controle de tempo, por exemplo, não é tão ideal para esse novo tipo de jornada de trabalho.

“A mudança impôs um regime de trabalho mais flexível, em que se tornou necessário que o chefe desenvolvesse uma relação de maior confiança com os colaboradores e, ao invés de cobrar horário, a cobrança passou a ser por meta de trabalho”, concorda Alexandre Pegoraro, CEO da legaltech Kronoos.

Melhora da qualidade de vida

Se feito da forma correta, a jornada de trabalho, seja à distância ou não, é capaz de garantir a qualidade de vida e bem-estar dos colaboradores. E esse é o principal foco citado pelos especialistas: o trabalho remoto trouxe uma possibilidade de melhorar a vida dos funcionários.

Ana, especialista em gestão de pessoas, salienta que para isso é preciso que o indivíduo consiga organizar sua rotina, separar trabalho e vida pessoal, algo ainda bem desafiador no momento, principalmente por conta da pandemia e a sobrecarga de tarefas para muitos.

Isso, entretanto, é um reflexo do momento, em que crianças não estão na escola, perdeu-se a rede de apoio e houve uma sobrecarga de tarefas pessoais e profissionais. Sem a pandemia, o trabalho remoto torna-se muito fácil de ser organizado. Em grandes centros esses benefícios acabam sendo mais claros: economia no tempo de locomoção é um deles, sem contar com a diminuição do estresse no trânsito ou o aumento do tempo passado com a família.

O que esperar do futuro

Para os especialistas, o trabalho remoto e essa nova jornada de trabalho chegaram para ficar e não vão mudar apenas o dia a dia das pessoas empregadas, mas de toda a sociedade.

De acordo com Ana, durante a pandemia, com as taxas de desemprego altas, ocorreu uma mudança na forma de pensar o trabalho.

“Um estudo da FGV mostrou que aconteceu um fenômeno chamado ‘desemprego desencorajado’, quando as pessoas deixaram de procurar emprego por acreditarem que não havia oportunidades nesse período. Isso fez com que muitos resolvessem empreender, ser autônomo, algo que antigamente era visto como algo muito arriscado”, explica.

Essa dinâmica é capaz de alterar o mercado de trabalho brasileiro e dar espaço para outras mudanças no futuro.

Além disso, a jornada de trabalho autônoma, muitas vezes, também impulsiona novos formatos de trabalho, como “home office”, “work from anywhere” (trabalhe de qualquer lugar) e gestões mais focadas no resultado e não no controle.

O trabalho remoto (híbrido ou full time) e a gestão baseada em resultados e entregas são dois modelos que, segundo os especialistas, vão ganhar ainda mais força em um futuro próximo, tanto no Brasil quanto no mundo.

“Cada vez mais trabalho é uma coisa que se faz e não para onde se vai. O importante é que a empresa esteja sempre preocupada com o bem estar deste colaborador e busque formas de engajá-lo estimulando o espírito de equipe, mesmo que remotamente”, afirma Alexandre Pegoraro.

Assim, a jornada de trabalho brasileira ainda vai se adaptar às novas realidades, considerando a retomada de uma certa “normalidade” na vida social, que irá alterar novamente o comportamento dos trabalhadores.


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