Os benefícios da inovação aberta para o processo de P&D durante a pandemia

Em um momento em que as mudanças ocorrem com maior velocidade, contar com a inovação aberta é uma forma de não ficar para trás

Foto: Shutterstock

Quais são as maiores dificuldades da sua empresa quando o assunto é P&D? Encontrar mão de obra qualificada? Os altos investimentos? A demora em obter resultados? Nada disso deve ser encarado como algo completamente inesperado. São obstáculos naturais que aparecem em todo processo de disrupção. Mas um executivo moderno sabe quais ferramentas podem ser utilizadas para contornar esses problemas – e a inovação aberta pode ser uma delas.

O termo surgiu em 2003, quando Henry Chesbrough, professor e diretor executivo no Centro de Inovação Aberta da Universidade de Berkeley, observou o comportamento das grandes empresas norte-americanas ao longo do século XX. O especialista notou que essas firmas tinham uma tendência conservadora em seu processo de pesquisa e desenvolvimento, mantendo seus projetos trancados a sete chaves dentro dos seus laboratórios.

Apesar de ter funcionado por tantos anos, esse comportamento começou a ruir durante a década de 2000. A crescente globalização, acompanhada pela ascensão do ecossistema de startups, fez com que as corporações adotassem uma postura descentralizadora em seu processo de P&D. Os negócios sendo cobrados por velocidade. Agora, durante a pandemia, a necessidade de velocidade se intensificou e a inovação aberta se tornou essencial.

Afinal unir velocidade com quantidade e qualidade pode ser algo difícil – e extremamente caro. Logo, se duas cabeças pensam melhor que uma, por que não compartilhar essas responsabilidades com parceiros? Além de permitir o acesso a toda uma infraestrutura terceirizada, muitas vezes essa estratégia se mostra mais barata e eficiente do que criar um departamento interno.

A inovação aberta consiste basicamente nisso. A estratégia acontece quando um negócio busca ajuda de parceiros para conduzir o processo de desenvolvimento de novas soluções. Esses podem ser startups, universidades ou até mesmo concorrentes. O importante é a colaboração visando um objetivo em comum.

O fator “único”

Uma dúvida comum sobre a inovação aberta é: como tornar a minha solução algo único sendo que estou a desenvolvendo em conjunto? Mas, segundo Rodrigo Miranda, diretor de inovação na GAC Group, uma coisa não anula a outra. “É possível adotar a inovação aberta e ainda assim garantir a confidencialidade no seu projeto.”

Isso pode ser feito de uma forma mais tradicional, como assinar termos de confidencialidade entre os envolvidos, mas essa não é a única opção. Imagine que você está desenvolvendo um software complexo que precisa unir diversas técnicas diferentes. Dentre elas está o desenvolvimento do back-end, criando um banco de dados capaz de dar conta do trabalho. Outro ponto seria a interface da aplicação, essencial para garantir uma boa experiência do usuário. Nesse exemplo, gestores podem designar um parceiro diferente para desenvolver cada parte da solução. No final, equipes internas juntam todas as etapas do processo em um produto final. É a união da inovação fechada e aberta em um único processo.

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Por outro lado, existem situações em que o conhecimento compartilhado pode não ser tão ruim assim. Temos como exemplo empresas concorrentes colaborando na pesquisa de uma solução. Além da somatória de diferentes expertises, a maior pluralidade de opções no mercado contribui para diminuir a resistência do mesmo à disrupção ao mesmo tempo que ajuda na formação de um ecossistema de parceiros que podem te ajudar no futuro.

Como qualquer coisa do mundo corporativo, a inovação aberta precisa ser feita considerando os aspectos estratégicos do processo. Cabe ao gestor ter uma visão aguçada das possibilidades que surgem a partir da mesma.

Inovação aberta na prática

Agora que já temos o conceito em mente, entender como esse tipo de gestão de inovação pode ser aplicado é essencial. Rodrigo Miranda reforça que, apesar de ser uma estratégia que não discrimina modelos de negócios, não é toda empresa que está preparada para adotá-la. Em muitos casos, é necessária preparação antes de embarcar na inovação aberta.

Tal preparação começa na cultura corporativa da organização. “Se a empresa não está acostumada a trabalhar colaborativamente, a tendência é que as coisas deem errado.” Muito além de mindset, essa visão inclui possuir os mecanismos jurídicos necessários para a formação de parcerias. Possuir um compliance empresarial é algo essencial para qualquer organização. Entretanto, os problemas começam quando essa ferramenta dificulta as negociações e relacionamentos com os parceiros.

“Não é como se a empresa precisasse mudar todo seu compliance, mas ela precisaria fazer o ‘fast-tracking’”, diz o executivo do GAC. Também conhecido como “Overlapping”, o conceito consiste na capacidade de um setor em adotar medidas que aceleram um processo, mas sem mudar o escopo de suas atividades. É aquele contrato, elaborado sob medida para um projeto específico, que ao mesmo tempo que supre as necessidades daquele caso individualmente, não “passa por cima” dos princípios e regras da organização.

Apesar de parecer algo simples, na prática é necessário ter os profissionais corretos para realizar essas manobras, de forma que obstáculos burocráticos sejam superados sem comprometer a segurança da organização.

Miranda também reforça a necessidade de ter em mente quais são os objetivos que devem ser alcançados com a inovação aberta. “Você precisa entender no que quer trabalhar, qual é o tipo de projeto, em que grau de desenvolvimento está, como você quer que seu parceiro atue e como ele é capaz de te ajudar.”

Uma gama de alternativas

A inovação aberta não se limita apenas aos já mencionados exemplos de parcerias com outras empresas. Existem diversas outras formas de conduzir esse processo com eficiência. Uma hackathon está entre as possibilidades.

Uma hackathon consiste em um evento em que programadores, designers e outros profissionais ligados ao desenvolvimento de software se reúnem em maratonas. Geralmente essa dinâmica funciona como uma competição, em que os participantes criam soluções em troca de um prêmio.

As hackathons podem se mostrar uma importante fonte de disrupção, permitindo um maior contato da organização com o mercado de trabalho ao mesmo tempo que se beneficia da produção dos candidatos.

Outra possibilidade citada por Miranda é o uso de Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT). Essas são entidades sem fins lucrativos que possuem como missão institucional executar atividades de pesquisa básica ou aplicada. Regularizados pela Lei nº 13.243/16, conhecida como Novo Marco Legal da Inovação, os ICTs dão mais liberdade e flexibilidade para os profissionais de P&D. Os valores transferidos a essas instituições também podem ser convertidos como benefícios fiscais para as empresas.

Nesse caso, executivos podem procurar ICTs públicos (como os gerenciados por universidades) ou privados. Na realidade, caso seja estratégico para a empresa, existe a possibilidade de até mesmo criar seu próprio ICT. Além da já mencionada vantagem de angariar recursos financeiros para pesquisa, esses institutos atraem talentos e criam ainda mais oportunidades de se conectar com parceiros.

Mas não é só com as Instituições de Ciência e Tecnologia que tais benefícios podem ser adquiridos. Miranda cita a Lei 11.196/05, também conhecida como “Lei do Bem”, que garante incentivos fiscais às pessoas jurídicas que realizarem pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica – e a inovação aberta também está incluída nessa equação.

Com tantas ferramentas disponíveis, executivos são capazes de levar o conceito de “juntos somos mais fortes” para outro nível.


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