A relação de Pedro e Bino com a Amazon do Brasil

Pedro e Bino são dois caminhoneiros de uma série de uma famosa série de TV. A profissão se tornou vital também para o comércio eletrônico

Crédito: divulgação

Carga Pesada é uma famosa série de TV que narra as aventuras dos caminhoneiros Pedro (Antônio Fagundes) Bino (Stênio Garcia) pelas estradas muitas vezes esburacadas do Brasil. A série foi exibida, com grande sucesso, em dois momentos: originalmente entre 1979 a 1981 e, depois, a refilmagem entre 2003 e 2007. Mas o que essa dupla tem a ver com a Amazon, uma das maiores e-commerces do mundo? Muita coisa.

O Brasil, como se sabe, é altamente dependente de uma logística rodoviária para distribuir todo o tipo de mercadoria entre as cidades e estados. O Brasil é o país que tem a maior concentração rodoviária de transporte de cargas e passageiros entre as principais economias mundiais. Segundo dados do Banco Mundial, 58% do transporte no país é feito por rodovias contra 53% da Austrália, 50% da China, 43% da Rússia e 8% do Canadá.

Em 2018, essa dependência ficou ainda mais evidente com a greve geral de 11 dias dos caminhoneiros, o que resultou em um prejuízo de aproximadamente R$ 16 bilhões para a nossa economia.

Crescimento de ambos lados

Nos últimos anos, a relação entre os caminhoneiros e o comércio eletrônico se intensificou por vários motivos: transformação digital do consumidor, a expansão (inclusive na quantidade de players) do varejo eletrônico e a entrada de novos grupos etários e sociais no mercado de consumo.

Em 2020, a pandemia reforçou ainda mais esse elo entre caminhão e o comércio eletrônico – que, a propósito, cresceu 47% em 2020 – a maior em 20 anos.

Um dado que confirma essa estreita ligação é da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). De acordo com a entidade, o número de emplacamento de caminhões registrado em fevereiro deste ano foi de 7,8 mil veículos, alta de 21% na comparação com o mesmo mês de 2020. Ou seja, no fundo, estamos falando de uma comparação entre o mês com medidas restritivas de circulação (fevereiro de 2021) e outro que antecedeu o início do distanciamento social da COVID-19.

O otimismo dos fabricantes é ainda maior quando o assunto é a produção dos caminhões – o que engloba os veículos que ainda não foram emplacados. Em fevereiro deste ano, ainda segundo a Anfavea, foram fabricados 11,8 mil caminhões contra 9,1 mil no mesmo período do ano passado, alta de 29,3%. No entanto, o mesmo não se pode dizer dos segmentos de carros de passeio, por exemplo.

“O segmento de caminhões foi impulsionado pelo agronegócio e pelo crescimento do e-commerce. Comerciais leves caíram 16%, automóveis 28,6% e ônibus 33,4%. Já as máquinas agrícolas e rodoviárias venderam 7,3% mais que no ano passado (comparação entre 2020 e 2019)”, informa o levantamento da Anfavea.

“Não há estoque de caminhões nas concessionárias”

Há, no entanto, um lado menos eufórico e até preocupante na alta de vendas dos caminhões. Outra entidade, a Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), por meio do seu presidente, Alarico Assumpção Júnior, anda preocupada com uma possível escassez na oferta do produto, apesar da grande procura.

“O que dita o número de emplacamentos, hoje, é capacidade de produção das montadoras, já que, praticamente, não há estoque de caminhões nas concessionárias. Assim como os demais segmentos, os caminhões vêm enfrentando a escassez de peças e componentes, o que limita a oferta. Como a demanda se mantém aquecida, tanto pelos resultados das commodities, quanto pela boa disponibilidade de crédito para o segmento, a falta de produtos faz com que os pedidos atuais tenham a entrega de alguns modelos programada até para os meses de setembro e outubro”, comentou Assumpção Júnior.

Em outras palavras, no momento em que as grandes varejistas aceleram na transformação digital, o velocímetro da produção de caminhões corre o risco de desacelerar. E o resultado disso muito consumidor viu na pandemia: o e-commerce de imóveis, por exemplo, registrou aumento nas vendas e, ao mesmo tempo, viu crescer a quantidade de queixas por causa dos atrasos nas entregas. Um dos motivos é que muitos fabricantes ficam no Sul do País e, assim, dependem dos caminhoneiros para entregar o produto em outros cantos do País.

É claro que o risco descrito no parágrafo anterior é extremamente conservador. Vale lembrar que há o comércio de caminhões seminovos e usados, por exemplo. No entanto, mesmo diante de uma ameaça aparentemente distante, é difícil deixar de perder a oportunidade de usar o bordão que marcou o personagem Pedro: “É uma cilada, Bino!”. Tomara que não.


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