Busca pelo bem-estar: como conteúdos motivacionais podem gerar dependência emocional

A economia do mal-estar se fortalece no anseio coletivo por uma solução rápida e indolor para a saúde mental

Foto: Shutterstock

Quer saber os segredos para um relacionamento saudável? E os passos para ser um profissional de sucesso? Que tal um mapa da felicidade? Propostas como essas se popularizaram nos últimos anos, revestidas de uma “capa de ilusão”, que afirma promover a saúde mental, mas acaba por fortalecer a dependência emocional.

Em uma sociedade cada vez mais conectada, imediatista e que sabe lidar cada vez menos com frustrações, gurus virtuais, coachs e conteúdos motivacionais fazem a engrenagem da economia do mal-estar girar, apontando caminhos e propondo soluções rápidas para problemas existenciais. Entenda como isso acontece e quais prejuízos pode trazer para os indivíduos e para a sociedade como um todo.

Seja sua melhor versão

Quem nunca se sentiu pressionado a dar a melhor versão de si em um determinado campo da vida – ou em todos ao mesmo tempo? Sucesso financeiro, profissional, amoroso, social – tudo isso sem perder a saúde mental – é a grande meta de vida de boa parte da população.

De acordo com a pesquisa Economia do Mal-Estar – Novos Olhares Para Uma Sociedade Cansada, publicada pelo Grupo Consumoteca, 58% dos brasileiros sentem-se insatisfeitos com sua vida atual, 41% sentem que não estão fazendo tudo o que podem pela sua felicidade, 58% gostariam de melhorar sua produtividade e 8 em cada 10 possuem algum projeto que não conseguem tirar do papel.

Frente a essa insatisfação generalizada, muita gente recorre a pílulas motivacionais e fórmulas prontas para alcançar a melhor versão de si e promover a tão sonhada transformação pessoal, é o que aponta a pesquisa, que entrevistou 3 mil pessoas no Brasil, Argentina, Colômbia e México.

Os dados levantados mostram que 65% consomem conteúdo sobre aprimoramento pessoal, 52% acompanham perfis motivacionais em redes sociais, 35% já realizaram algum processo de coaching e 34% consomem livros de autoajuda para melhorar aspectos ruins da própria vida.

Para a psicóloga Jociane Gatto, diretora presidente da Unifop – cooperativa de trabalho em saúde e reabilitação – e coordenadora das equipes de psicologia do Hospital Santa Teresa e Hospital Unimed Petrópolis, o acesso facilitado às informações e às redes sociais colaborou para a modificação da percepção que as pessoas têm da própria vida e trouxe uma cobrança em excesso pela felicidade, alimentando a economia do mal-estar.

“É como se nossa escala de valores estivesse se modificando para pior. A expectativa de felicidade vem de um padrão que não corresponde à realidade, envolta em uma ‘capa de ilusão’. Na verdade, isso vem acontecendo há algum tempo. O sociólogo e filósofo Bauman já falava sobre a liquidez das relações”, explica a psicóloga.

Nesse sentido, um ponto que merece destaque é a comparação quase inevitável com ‘a grama do vizinho’, que é sempre mais verde e mais bonita. “Ninguém conta a derrota. As pessoas só contam a vitória. É isso que vemos nas redes sociais. As pessoas vendem a felicidade: a beleza, a magreza, objetos de desejo. São poucas as reflexões de qualidade”, pontua Jociane Gatto.

O psicólogo Alexandre Bez, especialista em relacionamentos pela Universidade de Miami (UM) e em ansiedade e síndrome do pânico pela Universidade da Califórnia (UCLA), explica que tais comparações desencadeiam em prejuízos emocionais e psicológicos. “Neste momento crítico de pandemia que enfrentamos, nossas incertezas e medos estão mais intensificados, o que muitas vezes pode despertar essas comparações frequentes com o outro. Porém, essas comparações são improdutivas e geram uma constante ansiedade”, defende.

Dependência emocional travestida de saúde mental

E é neste contexto de busca incessante por sua melhor versão que surgem os gurus virtuais e os coachs das mais diversas áreas, com histórias de superação inspiradoras e oferecendo o mapa da felicidade a poucos cliques.

“As pessoas começam a buscar receitas milagrosas para a felicidade, como se isso fosse possível. E sempre que ela opta pelo caminho mais fácil, se sujeita a mais dor e sofrimento. Fórmulas mágicas não existem, a busca pelo bem-estar é diária, constante e árdua. Não é fácil. Além disso, é um trabalho seu. Não é outra pessoa que vai te dar aquilo”, alerta a psicóloga Jociane Gatto.

Soluções rápidas e uma narrativa envolvente, aliás, são ingredientes fundamentais da receita vendida pela economia do mal-estar, que promete problemas resolvidos instantaneamente, seguindo um passo a passo já percorrido por alguém com sucesso, ignorando a necessidade de análises profundas e a construção de um percurso próprio, do mergulho no autoconhecimento e do enfrentamento do sofrimento.

“Quando uma pessoa está em um momento de fragilidade emocional, tudo o que ela mais quer é que alguém lhe diga o que fazer, que aponte uma direção, que resolva seus conflitos. Você deposita nas mãos do outro uma responsabilidade que é sua e evita caminhar sozinho. Isso gera dependência emocional, alimenta a neurose e dificulta a saúde mental. Eu atribuo ao outro um saber que ele não tem”, pondera a coordenadora das equipes de psicologia do Hospital Santa Teresa e da Unimed de Petrópolis.

“É importante lembrar que aquilo que faz bem para o outro pode não fazer bem a você”, complementa Alexandre Bez.

Outro ponto levantado por Jociane Gatto referente ao discurso promovido por coachs e gurus virtuais está relacionado ao que ela chama de ‘halterofilismo de ego’, que promove uma falsa sensação de bem-estar, ignorando o sofrimento profundo e investindo no aspecto motivacional.

“O halterofilismo de ego funciona, mas tem prazo de validade. Enquanto eu estou me exercitando ele tem um efeito, mas a duração é curta. Quando eu paro, aquilo não se sustenta, desmonta”, explica a coordenadora de equipe de psicologia do Hospital Santa Tereza.

Porém, é interessante notar que, na economia do mal-estar, ao mesmo tempo em que a pessoa atribui ao outro a responsabilidade de resolver seus problemas, apontar os caminhos, ela se torna responsável direto por seu fracasso ou sucesso, independentemente de fatores externos, naquilo que a psicóloga Jociane Gatto chama de distorção do discurso de responsabilização.

“Quem trabalha com aconselhamento fica em uma situação confortável – eu te digo o que fazer, mas se não der certo a culpa é sua que não fez direito. Isso chega a ser perverso e gera um sentimento ruim de fracasso que não é verdadeiro nem acrescenta em nada”, avalia a psicóloga.

Bem-estar real

De fato, encontrar soluções para problemas existenciais e para o sofrimento não é uma missão simples: requer paciência, consciência e tempo. Os conteúdos motivacionais até podem auxiliar neste processo, desde que filtrados e usados com moderação. Também é preciso ter em mente que soluções rápidas e milagrosas não existem e nem são aconselhadas.

“Este tipo de conteúdo traz benefícios até o momento em que a pessoa entende e filtra o necessário para melhorar o seu desenvolvimento emocional e autoestima. Mas é preciso ressaltar que quem quer buscar autoconhecimento e a solução de problemas sem cair nas armadilhas da economia precisa ter paciência e consciência. Fazer as coisas que nos fazem bem, reduzir o estresse, conflitos e a poluição existencial é um grande começo. Além disso, é primordial entender que não há perfeição, mas, sim, erros e aprendizados”, destaca Alexandre Bez.

O especialista em relacionamentos, ansiedade e síndrome do pânico também lembra que todo indivíduo é reflexo da criação que recebe, do ambiente familiar em que vive, de suas ações, traumas e conflitos e que esses elementos influenciam diretamente em sua trajetória durante toda a vida.

“Coaches atuam como conselheiros, mas vale lembrar que esses profissionais não são entendedores da saúde mental e nem possuem habilidades para entender o passado do indivíduo nem os processos mentais”, ressalta o psicólogo Alexandre Bez.

A psicóloga Jociane Gatto reforça a indicação do colega de profissão e pondera que coaches e gurus virtuais podem ter uma função de direcionamento e mesmo uma didática de ordem prática, porém, a solução real dos problemas passa pelo enfrentamento de questões mais profundas.

“É preciso entrar em contato com coisas que acabamos fugindo, não queremos olhar. Precisamos nos despir desse ideal de sucesso, de juventude, de riqueza. Precisamos olhar para si e entender nosso potencial e nossas limitações e encontrar uma equação que faça sentido para nós dentro disso”, explica ela, que acrescenta: “Não é superficial. Não é mágica. Não tem passo a passo. Essa armadilha alimenta o mal funcionamento e não permite com que a pessoa desenvolva sua autonomia, seu saber fazer, seu saber de si. Alimenta a dependência emocional”, finaliza.


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