Quando a cobrança (ilegal) da vacina da COVID-19 resume o modelo de saúde pública dos EUA

Uma reportagem no site The Verge revela a cobrança ilegal de uma taxa administrativa pela imunização da Covid-19. A história, aparentemente um equívoco, ajuda a entender o funcionamento da saúde pública dos EUA

Crédito: Unsplash

Uma reportagem publicado nesta terça-feira pelo site The Verge aponta que pessoas vacinadas contra o novo coronavírus no estádio DC’s Entertainment and Sport Arena, em Washington, nos EUA, receberam uma cobrança de uma taxa administrativa de até US$ 50 por dose. A prática é proibida nos Estados Unidos.

De acordo com a reportagem, a administração da medicação no estádio tem sido feito pela One Medical, uma empresa especializada em saúde primária. A The Verge ouviu duas pessoas que receberam a dose no estádio e afirmam que, posteriormente, foram cobrados pela empresa. Uma delas afirma ter pago US$ 56 pela primeira dose e US$ 40 pela segunda. Outro vacinado afirma que gastou US$ 40 pela primeira dose até o momento.

Em seu site, o Centro de Controle de Doenças (da sigla em inglês CDC), órgão responsável pela vacinação nos EUA, informa que a cobrança é proibida, pois a vacina é oferecida gratuitamente pelo poder público. O que é permitido pela lei americana é a chamada cobrança indireta, ou seja, as empresas cobram o governo pelos gastos com vacinação.

Outro lado

Em resposta a denúncia feita pelo site, a One Medical informou que houve um erro no sistema da empresa, que acabou enviando automaticamente a cobrança para os vacinados. A companhia, inclusive, afirma que já pediu a desconsideração pelo pagamento do valor.

Fake news

Independentemente se houve ou não um erro, a confirmação de casos de cobrança de vacinas preocupa as autoridades públicas em Washington. A reportagem levantou a hipótese de que a exigência de pagamento da taxa administrativa poderia alimentar uma rede de notícias falsas sobre a vacinação, o que poderia desencorajar a imunização de milhões de pessoas por causa da cobrança.

Infelizmente, o número de pessoas que acreditam na cobrança da vacina não é pequeno. Uma pesquisa feita pelo Censo dos EUA mostra que 6,9 milhões de residentes americanos planejam não se vacinar contra a COVID-19 justamente porque acreditam que há um custo relacionado a imunização.

A mesma pesquisa aponta que o número de pessoas no grupo de risco que acreditam na cobrança é expressivo. De acordo com o Censo, 282 mil americanos com idade acima dos 65 anos (justamente o grupo de risco) afirmam que a imunização tem custo, logo não planejam tomar a vacina.

Por que a confusão?

Um dos motivos que justificam a confusão dos americanos sobre a cobrança da vacina está relacionado ao modelo de saúde “pública” nos EUA.

Diferentemente do que acontece no Brasil, a saúde pública nos EUA não é universal, ou seja, ela não está acessível para todos os americanos. Um dos grupos beneficiados são as pessoas com mais de 65 anos, que recebem ajuda da administração federal por meio do programa estatal chamado Medicare. Outro programa, o Medicaid, auxilia pessoas pobres ou que recebem até 4 vezes o chamado Nível de Pobreza Federal (NPF).

Em 2010, a aprovação de uma legislação apelidada de Obamacare, norma que criou incentivos de acesso aos planos de saúde, impulsionou o número de pessoas com acesso aos planos de saúde. Um desses “incentivos” foi à fórceps: a norma obrigou pessoas e empresas com mais de 50 funcionários a adquirem para si e para os trabalhadores, respectivamente, um plano de saúde sob pena de multa. No fim, a multa foi revogada pelo ex-presidente republicano Donald Trump.

O lado positivo do Obamacare é que 90% dos americanos possuem um plano de saúde, segundo recentes estimativas – no Brasil, esse percentual é de 25%. Por outro lado, a obrigatoriedade do plano virou uma dor de cabeça para alguns americanos. Muitos optam pelo plano mais barato, como é o caso de um modelo que prevê uma gestão partilhada de despesa médica – nele, parte da conta é paga pelo consumidor americano.

No fim, muita gente simplesmente prefere não ir ao médico ou hospital porque não podem pagar essa despesa. Tratar uma perna quebrada, por exemplo, pode custar US$ 7,5 mil. Além disso, em junho do ano passado, houve o caso que ilustra bem o funcionamento desse modelo: um americano de 70 anos recebeu uma cobrança de US$ 1,1 milhão de um hospital em Seattle pelos 62 dias internados por causa do novo coronavírus. Felizmente, para ele, as despesas foram pagas pelo Medicare.


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