Novas habilidades para desenvolver e enfrentar o cansaço pandêmico

Isolamento, preocupação extrema e mudança de rotina afetam a saúde mental e exigem mudanças na forma de enfrentar o problema

Foto: Shutterstock

Depois de mais de um ano em pandemia, com mudanças bruscas de rotina, isolamento social e muita preocupação, o cansaço pandêmico se tornou um sentimento praticamente geral entre a população.

A situação, desde o início, exigiu jogo de cintura das pessoas, mas agora pede que novas habilidades sejam desenvolvidas para passar pelo momento com a saúde mental menos afetada.

Inteligência emocional é um exemplo dessas soft skills que podem ajudar as pessoas nesse período, mas como conseguir isso?

Pandemia e saúde mental

A pandemia de coronavírus trouxe inúmeras consequências para o mundo, sendo a pior delas, claro, a perda de milhões de vidas. Isso, por si só, já interfere na saúde emocional das pessoas. Somada a isso, a preocupação com a saúde, família, filhos, trabalho, entre outras, pode levar a questões de saúde mental ainda mais sérias, como ansiedade ou depressão.

Pesquisas mostram que a pandemia teve e continuará tendo nos próximos anos uma grande interferência na saúde mental das pessoas. O número de casos de depressão e de ansiedade, transtornos antes já considerados “epidemias”, tendem a crescer nos próximos anos.

Segundo um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2020, o número dos casos de depressão dobraram entre os entrevistados após o isolamento, enquanto os casos de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80% no período.

“Nós estamos vivendo uma prolongação desse estresse, é um estado contínuo de preocupação, desgaste e sofrimento. Com isso, temos várias mudanças em nossos comportamentos, como alteração de sono, aumento do consumo de alimentos e bebidas alcoólicas, dificuldade em manter hábitos regulares, entre outros”, afirma a Dr. Jociane Gatto, coordenadora da equipe de psicologia do Hospital Santa Teresa, em Petrópolis-RJ.

Todos esses efeitos são resultado da alteração brusca de rotina ocorrida durante todo o último ano, além das outras preocupações que cercam o momento. Essas consequências podem interferir em diversos âmbitos da vida e, por isso, merecem atenção para que o indivíduo consiga controlá-las da melhor maneira.

“Enfrentar todas as mudanças que a pandemia trouxe, por tanto tempo, não está sendo fácil. Por isso, é muito importante manter uma rotina emocional saudável para que desgastes com tudo isso não resultem em adoecimento emocional desenvolvendo patologias como estresse, ansiedade, depressão, entre outros transtornos”, diz Veruska Ghendov, psicóloga coordenadora do Projeto Brasileiro Voluntários.

Novas habilidades para enfrentar o cansaço pandêmico

Para as profissionais, é possível enfrentar o momento e cuidar da saúde mental focando sempre no que é possível fazer dentro da realidade imposta.

Tentar manter uma rotina mais regrada, com horários de sono definidos e momento determinado para começar e parar de trabalhar (uma das grandes queixas das pessoas em home office) são algumas das indicações.

Outro ponto muito importante é o lazer. Mesmo dentro de casa, as profissionais indicam que as pessoas busquem sempre realizar algum tipo de atividade apenas por lazer, algo que leve mais alegria para o dia a dia, mesmo que feito dentro de casa.

“É preciso fazer essa negociação com o momento, não adianta querer se divertir descumprindo as medidas de restrição. Precisamos negociar o prazer dentro do que é permitido, do que nos preserva. O que podemos fazer dentro de casa, com as pessoas que moram comigo. Às vezes são coisas simples, mas que reduzem o estresse diário”, explica Jociane Gatto.

Além de buscar reduzir o estresse, ambas indicam habilidades que podem ser desenvolvidas dentro de casa para que as pessoas passem pelo momento de cansaço pandêmico sem perder a saúde mental. São elas:

1.   Inteligência emocional

Inteligência emocional é a habilidade de estar bem consigo mesmo, ainda que passando por uma realidade adversa que não gostaria de estar enfrentando. É reconhecer sentimentos, entendê-los, saber “de onde” surgiram e porque estão ganhando força na mente.

Para isso, o autoconhecimento e o respeito pelos sentimentos são essenciais. Lembre-se que, na atual situação, é normal se sentir desmotivado ou triste alguns dias. É preciso respeitar esses momentos, mas tentar entendê-los.

“Não é sobre ter ilusão sobre o que está acontecendo lá fora. Trata-se de valorizar o que é possível fazer no momento e conseguir lidar com essa realidade com menos sofrimento a partir dessa inteligência emocional”, aponta a psicóloga do Hospital Santa Teresa.

2.   Resiliência

“Resiliência é palavra de ordem no momento. É a capacidade de se adaptar à realidade em sofrimento, na medida do possível. Quanto mais se consegue isso, melhor o indivíduo consegue se organizar e encontrar um conforto interior”, explica Jociane Gatto.

Segundo ela, é preciso entender que o momento da pandemia depende de vários outros fatores que não estão diretamente ligados à pessoa. São fatores que não há como resolver, apenas esperar. Por isso, a profissional diz que a resiliência é a melhor forma de entender isso. “É preciso focar no que pode ser feito e encontrar maneiras de reduzir o estresse dentro dessas possibilidades, a partir de melhores hábitos e lazer”, afirma.

3.   Foco no hoje

A falta de perspectiva para o fim da pandemia é um dos fatores que torna o momento ainda mais angustiante, já que não é possível fazer planos concretos a longo prazo. Por isso, as psicólogas indicam manter o foco no que pode ser feito hoje.

Prestar atenção nos hábitos diários, nos momentos de lazer, buscar relaxar mesmo dentro de casa, sem pensar no que poderia estar sendo feito do lado de fora, mas sim no que pode ser feito com segurança sem sair.

Fazer planos a curto prazo com atividades de lazer dentro de casa, como ver um filme, ler um livro, praticar algum artesanato, ficar longe das telas. Para Veruska Ghendov, também é possível fazer alguns planos, mesmo que sem data certa marcada.

“Crie planos para realização no futuro. A pandemia não vai durar para sempre e, quando ela terminar, a pessoa pode estar preparada para os próximos momentos e oportunidades pois já se planejou antes”, explica a psicóloga.

4.   Autoconhecimento

A busca pelo autoconhecimento é uma das mais importantes no momento atual. Saber o que tira a paciência, o que traz a ansiedade à tona ou quais os motivos levam à desmotivação são habilidades para poucos.

O autoconhecimento é uma soft skill desejada em todos os âmbitos da vida, mas ganhou ainda mais destaque durante a pandemia, quando os sentimentos se tornaram irregulares. Por isso, praticar esse autoconhecimento é essencial para evitar o cansaço extremo.

Para isso, é preciso estar atento aos sentimentos, conhecer o que lhe traz alegria, o que pode ser uma válvula de escape. A partir disso, o indivíduo também consegue ter muito mais inteligência emocional para lidar com a situação. Uma coisa leva à outra.

Desenvolver essas novas habilidades pode ser um desafio (inclusive de autoconhecimento!), mas se mostra essencial para o momento. Mas, além de focar no desenvolvimento pessoal, também é preciso perceber a hora de buscar ajuda.

Ao se deparar com dificuldades em lidar com os sentimentos, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, falta de foco ou motivação, talvez seja a hora de procurar ajuda com um psicólogo. Esse é o profissional qualificado para contribuir com a melhoria da saúde mental, principalmente em momentos de grande estresse, como a pandemia.


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