O papel do mercado de smartphones seminovos para a sustentabilidade e a inclusão

Iniciativa vem ganhando força a partir da mudança de comportamento do consumidor

Foto: Shutterstock

Em um mercado onde novas tecnologias surgem com uma frequência vertiginosa e os celulares – os principais dispositivos da era digital – são trocados em uma velocidade que gera muito lixo eletrônico, o mercado de smartphones seminovos desempenha um importante papel.

Conforme os dados da 31ª Pesquisa Anual do FGVcia, o departamento de pesquisa da FGV, existem 424 milhões de dispositivos digitais em uso no Brasil, entre smartphones, computadores, notebooks e tablets. Contabilizando apenas os smartphones, há mais de um aparelho em uso por habitante no País. Isso significa que, ao todo, 234 milhões de telefones celulares inteligentes estão em circulação ou, em muitos casos, esquecidos no fundo de uma gaveta.

E, quando um smartphone não serve mais para seu dono, ele é comumente esquecido em um canto de casa, ou se torna estatística, sendo um componente a mais na pilha de mais de 2 milhões de toneladas de lixo eletrônico produzidas no Brasil por ano.

Pensando em uma escala global, em 2019 o mundo bateu o recorde de produção de lixo eletrônico, com 53,6 milhões de toneladas. Esse número é equivalente à produção de lixo eletrônico de 7,3 quilos por habitante no período de um ano, de acordo com a International Solid Waste Association (ISWA). E a projeção para 2030 é de exorbitantes 74,7 milhões de toneladas.

Contudo, segundo Guille Freire, CEO da Trocafone, 80% do conteúdo de um telefone celular é reciclável. “Uma vez removidos a bateria e os cabos, é possível recuperar certos materiais (ferrosos, não ferrosos, plásticos, etc.) para recuperá-los e reutilizá-los na fabricação de outros produtos. O ‘ABS’, por exemplo, é um material plástico que representa cerca de 50% de um telefone celular, e pode ser reaproveitado na fabricação de controles remotos. Já os materiais não recuperáveis podem ser transformados em energia”, esclarece.

Existe uma estimativa do setor que diz que um aparelho celular leva de 100 a 500 anos para se decompor. Porém, a bateria e outros metais pesados não se decompõem, prejudicando a natureza pela eternidade.

O mercado de smartphones seminovos e seu papel na sustentabilidade

Apesar da reciclagem ser o primeiro passo para combater o desperdício, ela pode não ser exatamente a solução certa, uma vez que apenas 20% de todos os resíduos gerados no mundo são reciclados. O restante permanece na natureza poluindo o solo e a água.

Quanto ao processo de reciclagem em si, que envolve coleta, classificação de peças, desmontagem, despoluição de resíduos, entre outros procedimentos, ele é longo e caro, e deve ser feito apenas por empresas sérias ligadas a esse setor, uma vez que muitos componentes de um smartphone são poluentes e nocivos à saúde. Por isso, todo cuidado é pouco quando o assunto é reciclagem.

Porém, existem ainda outras alternativas sustentáveis relacionadas ao aproveitamento de smartphones, que vão além da reciclagem. É o caso do mercado da revenda de produtos seminovos.

“Na Trocafone, incentivamos o consumo de produtos recondicionados, que chegam até nossa equipe de técnicos especializados que, por sua vez, se encarregam de revisar minuciosamente todas as peças que recebemos a fim de garantir seu perfeito funcionamento. Muita gente associa o recondicionamento apenas a um aparelho usado que foi devolvido devido a uma falha e foi consertado para revenda. Pois esse não é o único caso. Você pode vender seu aparelho em perfeito estado, conseguir uma renda extra com ele e deixar seu novo proprietário satisfeito”, exemplifica Guille Freire.

Em qualquer dos casos, todos os telefones recondicionados são verificados e testados para garantir que estão em pleno funcionamento. As peças que não puderem ser recondicionadas, são destinadas a empresas certificadas de reciclagem.

Sendo assim, essa prática consegue absorver o que seria considerado lixo, reinserindo no mercado produtos seminovos, diminuindo o impacto ambiental e promovendo a inclusão tecnológica, já que é uma forma mais acessível de pessoas terem acesso a aparelhos com bons recursos por um preço mais em conta.

“Hoje em dia, notamos que os seminovos estão ganhando uma posição de tendência, assim como Airbnb e Uber na economia compartilhada”, aponta o CEO da Trocafone.

Uma prática inclusiva fomentada pela pandemia

Para Guille Freire, ainda existe no Brasil uma distância grande entre os grupos econômicos, o que viabiliza a existência da mediação entre aparelhos usados, como os celulares adquiridos pela classe A/B sendo vendidos para os grupos C/D, por exemplo.

Prova da viabilidade deste negócio são os números da própria Trocafone. A startup, que nasceu em 2014, já captou US$ 34 milhões em 8 rodadas de investimentos e vendeu mais de 1,5 milhão de dispositivos usados. “No ano da pandemia, crescemos 40% em vendas online, principalmente por conta da busca de smartphones e tablets com valores acessíveis para quem teve que se preparar às pressas para o trabalho home office ou aula online e não dispunha de recursos financeiros para comprar aparelhos novos”, pontua o executivo.

Mudança de paradigmas

De acordo com Guille Freire, uma pesquisa da GlobalData mostrou que o mercado de usados deve atingir US$ 64 bilhões nos próximos quatro anos, ultrapassando o segmento de vendas tradicionais até 2024.

Os seminovos têm se tornado uma tendência, e hoje não há mais uma pressão para obrigatoriamente adquirir um celular novo para que ele seja um aparelho funcional e de qualidade.

Além disso, o direito de consertar é um movimento de conscientização que também vem ganhando muita força e pode contribuir de forma significativa para a redução do lixo eletrônico.

“Acredito que é um mercado com futuro promissor, assim como o de carros seminovos, por exemplo, que é um segmento muito consolidado e quase tão grande quanto o de veículos novos”, finaliza o CEO da Trocafone.


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