Empresas tomam a responsabilidade da educação em TI

Tentativas de criar mão de obra podem ser cada vez mais frustradas por demanda internacional em home office

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Se o setor de tecnologia é um oásis na dura realidade que a economia brasileira vive no momento, é preciso redobrar a atenção com sua água. Sem profissionais de TI, não há investimento ou oportunidade que se garanta. Assim, diante do gargalo de profissionais de tecnologia, empresas estão tomando a responsabilidade na educação em TI para dar um jeito de matar sua própria sede.

E sabem que a fonte pode secar ainda mais.

“Há uma diferença brutal de profissionais e vagas. Temos um gap, até mesmo porque a gente não tem formado profissionais de tecnologia o suficiente desde antes da pandemia. Tivemos um leapfrog, e, de uma hora para outra, todo mundo teve que trabalhar no digital”, explica Fabrício Cardoso, fundador e diretor-geral da SoulCode Academy sobre como o deserto começou a se formar.

Diante do apagão, empresas têm firmado parcerias com edtechs para a elaboração de cursos intensivos e dirigidos, de forma que o profissional sai do forno já encaminhado a trabalhar com tecnologia. “Temos a jornada do desenvolvedor de ponta a ponta. Um curso introdutório, os cursos de especialização para quem já está no mercado e o de educação continuada. No curso introdutório, que é totalmente gratuito, observamos o desempenho dos iniciantes e eles já conseguem bolsa das empresas para os cursos intermediários”, conta COO da Rocketseat, Rodrigo Terron, ressaltando que estudantes chegam a ser contratados como “júnior” em vez de estagiário.

O modelo de negócios das edtechs nascentes para educação de profissionais de TI parece até desenhado a partir da falta de profissionais. Enquanto no passado cursos tendiam a ser caros, hoje estão mais acessíveis justamente para colaborar com a escolha daquele que busca seu caminho em tecnologia. Empresas financiam e participam de projetos de educação oferecidos pelas edtechs para que os preços sejam mais atraentes.

“Mas há também empresas e organizações que estão com a gente pela impacto social da inclusão digital“, comenta o diretor-geral da SoulCode Academy. Segundo ele, essas organizações também colaboram com seus conhecimentos para a profissionalização dos alunos. “Elas trazem comunicação, planejamento de carreira e competências de profissionais do futuro – as soft skills para inseri-los na liturgia corporativa.”

Subemprego digital

Rodrigo Terron observa que vemos uma alta taxa de desemprego enquanto há uma carência de mão de obra em TI no Brasil. “Claro que educação leva tempo, mas isso significa também que não estamos conseguindo alocar contingente. Formamos mais de 18 mil talentos nos últimos três anos, mas a necessidade de mão de obra que o mercado tem é muito maior do que as escolas podem dar”, observa o COO da Rocketseat. “Mas não se trata só de preparar para um emprego. As escolas preparam para uma carreira.”

Os educadores comentam que muitos dos alunos que passam pelas escolas se tornam a maior fonte de renda de suas famílias. “Além de impactar a vida dela e dos familiares, a pessoa tem a chance de sair do subemprego digital, no qual trabalha em uma solução ou serviço de tecnologia, mas não está inserido na tecnologia, como um entregador. Temos parcerias com empresas de entrega que querem justamente ajudar colaboradores a se desenvolver”, revela o diretor da SoulCode.

apagão de profissionais de TI brasil

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O oásis vai secar?

Há grandes chances da sufocada oferta de profissionais de TI ficar ainda mais comprometida. Ainda que edtechs trabalhem na capacidade máxima possível para suprir a demanda de empresas de todos os portes e necessidades, há dois fatores barométricos em questão: primeiro, a permanente manutenção das soluções e serviços em tecnologia; segundo, as demandas transoceânicas que absorvem talentos brasileiros.

“O produto digital nunca está pronto. O usuário tem necessidades específicas, vai dando o feedback e passa a querer um produto ‘assim'”, diz Rodrigo Terron sobre a relação de tecnologia e experiência do usuário. “A necessidade de mão de obra para atualização está muito complexa e vai piorar. A gente já perdia milhares de talentos para o mundo, mas agora parece que o apagão está só começando. As empresas começam a vir pescar no nosso aquário. Perceberam as certas qualidades dos brasileiros – como adaptação – e isso está transpassando a barreira do idioma. Idioma e geografia já não são uma barreira tão grande”, alerta o COO da Rocketseat.

Ainda que empresas e organizações brasileiras se esforcem para agilizar a formação de profissionais de TI, empresas internacionais se movimentam de olho nos brasileiros. A Carta e a Brex, ambas do Vale do Silício, estão montando escritório no Brasil e já contam com dezenas de desenvolvedores.

Tal fato tem a ver com a pandemia, uma vez que diversos países passaram a carecer de profissionais de TI para criar mundos digitais na educação, no varejo, na medicina e outras áreas da vida socioeconômica. Só no ano passado, foram mais de US$ 13 bilhões investidos em edtechs no mundo – 50% a mais que em 2018, que até então era o recorde, segundo a global de softwares financeiros PitchBook.

Canadá, Portugal e diversos outros países com dólares e euros começaram a fazer propostas para programadores brasileiros em um momento de forte desvalorização do real, ascensão do home office e libertação financeira com soluções de fintechs. De acordo com um levantamento feito pela plataforma de transferências internacionais Remessa Online, as exportações brasileiras de serviços de tecnologia da informação cresceram 20% no primeiro bimestre, fazendo com que pagamentos por serviços exportados sejam a principal operação de seus clientes, que são na maioria desenvolvedores, designers, cientistas de dados, entre outros profissionais.

 


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