A experiência da Tesco na pandemia

A gigante varejista britânica foi submetida a um duro teste de resiliência durante a pandemia. Vale a pena saber como superou esse desafio e a sua perspectiva para o futuro

Durante o último ano, o varejo global passou por um dos mais duros testes da história. Em todos os mercados, grandes e pequenos varejistas sofreram com as consequência do novo coronavírus e tiveram de reinventar seus negócios. Lockdowns, funcionamento restrito, digitalização, desconfiança dos consumidores, a chegada das vacinas. A enorme volatilidade cobrou um preço alto em termos de fechamento de lojas, desemprego, dívidas e políticas de auxílio dos governos.

É possível afirmar que nenhuma rede varejista, por maior que seja, passou ileso pelos efeitos da pandemia. Nesse sentido, vale a pena conhecer e aprender com a visão e as práticas de empresas que demonstraram resiliência e racionalidade para enfrentar esse momento e agora se preparam para um futuro pós-pandemia. John Allan, CEO da Tesco, o maior varejista do Reino Unido e um dos maiores do mundo, falou com Sally Elliot, da Spencer Stuart sobre a experiência da Tesco nos últimos meses durante o Retail Connected.

John Allan mostrou grande entusiasmo ao falar sobre como a Tesco suportou bem os efeitos da crise e conseguiu manter a “nação alimentada”, assim como muitos outros varejistas. Em sua opinião, o varejo desempenhou um papel crucial no mundo todo garantindo a segurança e o abastecimento das populações. “Resiliência e agilidade para acompanhar mudanças foram pontos altos da experiência da Tesco nesse período, enquanto as taxas de mortalidade elevadas foram o ponto mais lamentável”, destaca.

Para o CEO, a pandemia mostrou claramente que a maior parte das empresas deve fazer muito mais do que simplesmente se dedicar a ganhar mais e mais dinheiro. Elas devem se dedicar a servir melhor segmentos sociais para pavimentar um caminho de sucesso no longo prazo. A pandemia acelerou essa tendência e motivou os consumidores a desenvolverem uma nova consciência acerca do papel das companhias. “A resposta da Tesco durante os primeiros dias da crise, foi a de permanecer com as lojas abertas a qualquer custo, assegurando que a cadeia de valor pudesse garantir o suprimento de alimentos para a população, com toda a segurança, distanciamento social e limitação do número de clientes nas loja, enquanto expandimos a capacidade de entrega on-line.”

A empresa dobrou a capacidade de entrega, treinou fortemente os colaboradores para que pudessem atender a demanda, em um movimento que se estendeu por todo o varejo alimentar do Reino Unido.

Relação entre varejo e governo

John destaca que a atitude do governo, de financiar o funcionamento das empresas ao longo do ano passado (com isenção de juros) foi importante para manter o equilíbrio da oferta e as lojas aptas a continuarem funcionando mesmo durante os meses mais rigorosos da pandemia. Apesar disso, a Tesco, particularmente mostrou, nas palavras de John Allan, força para se manter relativamente rentável e lucrativa durante o ano de 2020. Agora, a empresa está apta a retornar esses recursos para o setor público. A resposta do governo diante dos impactos econômicos da pandemia ajudou a preservar milhares e milhares de empregos em um momento crítico.

O relacionamento entre o governo e o setor privado tende a ser mais produtivo a partir dessa experiência com a pandemia. O CEO da Tesco afirma que é imprescindível que as empresas e o governo se unam para criar empregos, para compensar os efeitos deletérios dos meses de lockdowns e sofrimento. “É hora de trabalharmos juntos, governo e empresas, no sentido de recuperar o crescimento econômico, não apenas para recuperar aqueles que perderam seus empregos durante a pandemia, mas também para incluir no mercado toda uma força de trabalho jovem que procura oportunidades”, enfatiza. Palavras simples que serviriam perfeitamente para o momento brasileiro atual.

Responsabilidades da liderança

John Allan destaca que a liderança corporativa precisa assumir 3 grandes responsabilidades nesse momento sensível:

  • Definir um propósito claro, que possa ser entendido claramente pelos stakeholders e que sirva como pilar da cultura do negócio;
  • Estratégia para chegar aonde a companhia planeja chegar – uma estratégia que precisa ser acompanhada e defendida constantemente pelo board;
  • Dedicar total empenho para levar a empresa adiante, fornecendo todo o apoio possível da liderança para o negócio.

Para fazer frente a essas responsabilidades, a liderança precisa se dedicar a criar seguidores. O líder precisa ser um grande comunicador, para engajar colaboradores de uma forma íntegra e sólida. “Não existem líderes sem seguidores, e o papel do líder é inspirar pessoas para isso”, afirma o CEO.

Ao mesmo tempo, a liderança precisa balancear as necessidades e expectativas de diversos stakeholders, colaboradores, acionistas, consumidores, autoridades locais e, no caso da Tesco, representantes de mais de 2.800 comunidades. Uma complexa rede de influências e pressões que demanda uma grande habilidade de comunicação.

Questões relativas à sustentabilidade, diversidade, redução de emissões, uso determinados insumos, são cada vez mais sensíveis e se tornam cada vez mais complexas. Vários varejistas buscam fazer acordos conjuntos para evitar aquisição de produtos oriundos de áreas desmatadas ou com culturas predatórias e essa tendência vai se consolidar podendo trazer impactos para muitas economias (a Tesco parou de comprar carne do Brasil por exemplo). John Allan ressalta que há muito capital disponível para negócios sustentáveis e em busca de empresas com boas credenciais ambientais.

Razões para otimismo

O CEO da Tesco defende que há razões para otimismo e que boas perspectivas no horizonte. A vacinação progressiva fará com que as pessoas possam resgatar algum grau de socialização, com efeitos positivos para a economia, não apenas no Reino Unido, mas em todos os países que consigam acelerar seus programas de imunização.

A criação de oportunidades, por meio do incentivo à diversidade, traz amplas possibilidades de inovação e criação de oportunidades para os negócios, e poucos setores são tão receptivos à essa adoção quanto o varejo, destaca o executivo. O varejo é extremamente promissor, uma grande indústria, é importante para a economia e sempre cria oportunidades para talentos, ainda mais nesse período de intensa transformação.


+ Notícias 

CX para um mundo novo: ideias para o varejo 

3 negócios disruptivos que prometem dar o que falar 






Acesse a edição:

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS