Quase metade dos brasileiros já mentiu sobre estar desempregado para pessoas próximas

Cultura tem viés inconsciente que incentiva mentira como proteção social

Distorções na autorrepresentação são comuns dentro e fora das redes sociais. A todo momento, pessoas podem se enganar entre quem elas têm sido e quem elas gostariam de ser. Isso para não falar entre a linha tênue entre “ser” e “ter”, que para muita gente é um sinônimo óbvio, e as projeções de um vir a ser. A depender da rede social, o “ter” pode definir o “ser” por meio da exposição de bens, atributos físicos ou sucesso. No caso do LinkedIn, o sucesso é interpretado pelas conexões e seguidores em grande parte a depender do status da empresa para qual a pessoa trabalha ou pelo cargo que ela ocupa.

Um levantamento feito pela plataforma mostra o quanto a autorrepresentação profissional influi nas relações reais de trabalho e pessoal das pessoas. De acordo com a rede social, 45% dos brasileiros já mentiram sobre estarem sem emprego para alguma pessoa mais próxima. Desempregadas, elas mentiram por vergonha (55%) e/ou por acreditarem que a condição diminuiria suas chances de encontrar um emprego (27%). Quase metade dos entrevistados acredita que ficam em desvantagem em relação a outros candidatos na hora de aplicarem para uma vaga.

Eles estão errados?

Na pesquisa feita com 2 mil profissionais de todo o País entre outubro e novembro de 2020, contudo, há uma ressalva a quem pensa que sim: sete em cada dez pessoas concordam que há menos estigma negativo associado ao desemprego atualmente por causa dos efeitos da pandemia no mercado de trabalho.

Questão de responsabilidade

Ao comentar a pesquisa, Ana Claudia Plihal, executiva de soluções de talentos para o LinkedIn, lembrou como culturalmente no Brasil a questão de estar empregado ou não tem uma tendência à responsabilização. “Temos uma forte cultura em que o desemprego é, muitas vezes, considerado como uma consequência do desempenho do profissional e não devido à falta de oportunidades do mercado. Por isso, muitos tendem a esconder este fato com receio de não conseguirem se recolocar. O levantamento nos surpreendeu e mostrou a necessidade de mudar este viés inconsciente tanto do ponto de vista do profissional, quanto das empresas. Em outros países, como França e Reino Unido, não ter um trabalho fixo é encarado com mais naturalidade.”

Sentimentos e razões

Quando perguntados sobre a situação de busca de emprego, 36% dos entrevistados na pesquisa do LinkedIn se disseram estressados e preocupados por não encontrarem algo novo, enquanto 30% se descreveram confusos por não terem retorno das empresas e 17% afirmaram que se sentiam derrotados por terem sido rejeitados nos processos. Além disso, quase metade já informou que deixou de se candidatar em até cinco oportunidades que desejavam porque sentiram que não tinham as habilidades necessárias.

A percepção de carência de certas habilidades e competências fez boa parte dos entrevistados transformar as ansiedades em atitudes. Durante o período de desemprego, 41% deles iniciaram ou fizeram algum curso gratuito para aumentar seus conhecimentos, enquanto 38% estavam trabalhando informalmente e 29% passaram a um formato de freelancer ou emprego temporário como alternativa de renda.

Update

Estar desempregado também pode trazer a desvantagem de ficar desatualizado sobre ferramentas, metodologias e tendências da área em se trabalha. A exemplo dos entrevistados da pesquisa que se propuseram fazer algum curso para aumentar as chances de se colocar no mercado de trabalho, um update nas habilidades digitais parece um grande acerto. Diante das externalidades que levaram ao desemprego, usar o aflitivo tempo livre para se aprimorar é uma das atitudes de chamar a responsabilidade para si e sublimar sentimentos em razões.

Há algum tempo, está aumentando a desigualdade digital entre profissionais e há cada vez menos profissionais de TI no mercado. Para qualquer visão entre ter e ser, avançar nos conhecimentos de tecnologia e aceitar as mudanças no modus operandi no trabalho pode funcionar tão bem ou melhor que mentir (por mais que a mentira seja uma ferramenta social importante para a sobrevivência e esteja para além da espécie humana).

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