Como a pandemia afetou o plano de carreira dos brasileiros

Insatisfação com atual trabalho, busca por propósito e vontade de fazer mudanças na carreira profissional aumentaram durante a crise estabelecida pelo novo coronavírus

Foto: Shutterstock

A pandemia trouxe impactos diretos sobre o plano de carreira dos brasileiros. Frente aos desafios econômicos impostos pelo novo coronavírus, mais gente passou a temer o desemprego, ao mesmo tempo em que passou a considerar a existência de um propósito como algo muito importante para a carreira profissional.

O resultado deste cenário pode ser notado em pesquisas, que demonstram que mais da metade dos brasileiros estão insatisfeitos com a atual situação da vida profissional e, embora muitos sintam medo em fazer a transição de carreira ou de emprego por conta do atual momento, planejam mudanças no futuro.

Novo plano de carreira considera propósito e equilíbrio entre vida pessoal e profissional

A pandemia chegou sem avisar e colocou em xeque a atuação de organizações de diversos setores e, junto delas, carreiras sólidas e estruturadas. Com as restrições de circulação, empresas fecharam as portas e a fila do desemprego aumentou.

Ao mesmo tempo, a circulação do vírus provocou perdas humanas no mundo inteiro e levou pessoas de diferentes idades e níveis escolares a se questionarem sobre os rumos de sua vida profissional, incluindo na reflexão critérios que vão bem além de ter uma carreira sólida e longa e dos valores que constam na folha de pagamento; entre eles estão propósito, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, talentos e paixões.

Uma pesquisa realizada pela Mindsight, startup voltada para soluções para área de Recursos Humanos (RH), transparece este cenário. De acordo com o levantamento, 85% dos entrevistados consideram mudanças em seu plano de carreira, enquanto 73% têm a percepção de avanço lento ou estagnação no trabalho.

A mesma pesquisa aponta ainda que 57% dos profissionais estão desempregados e em busca de recolocação. Entre os empregados, 33% estão à procura de um novo trabalho.

Um outro levantamento realizado pela Pearson, empresa global de educação, constatou que 76% dos brasileiros passaram a repensar suas trajetórias profissionais por conta da pandemia e cerca de 60% disseram temer ter que mudar de carreira.

“São dados interessantes e muito expressivos. Neste cenário, enxergo dois grupos. O primeiro é composto por pessoas que tinham planos de fazer movimentos de carreira, mas por conta da atual situação não se sentem seguras ou enxergam que esse talvez não seja o melhor momento”, analisa a coach e estrategista de carreira Graziele Neves, mentora de mestrado de Business na Universidade Católica do Porto e CEO da The Lighthouse Consultoria.

O segundo grupo, de acordo com ela, é composto por pessoas que enxergam na crise uma oportunidade de fazer mudanças no plano de carreira. “São pessoas que são atraídas pela ideia de participar de projetos significativos, que causem algum impacto positivo na comunidade ou no mundo, tendo em vista o cansaço mental, a infelicidade no trabalho durante a pandemia e a ausência de um propósito profissional”, explica Graziele.

Aumento da pressão e mudanças nas relações de trabalho acentuam sensação de descontentamento

Apesar das dificuldades presentes no atual cenário, com o aumento no desemprego e menos oportunidades, alguns fatores ganharam peso na balança dos profissionais que desejam mudar seu plano de carreira.

“As relações de trabalho sofreram muito nos últimos tempos: tem a questão do home office, da perda de contato com os colegas da equipe, das dificuldades da gestão do trabalho remoto e também o aumento da pressão – aliás, se antes as pessoas já trabalhavam com pressão elevada, no atual cenário é preciso apertar ainda mais o cinto, reduzir, cortar, entregar… Tudo isso é muito estressante”, considera a executiva.

Mas como as empresas podem agir para contornar essa situação e reter talentos? De acordo com Graziele Neves, o caminho passa pela humanização na gestão de pessoas, por políticas de inclusão e diversidade e por práticas que foquem no equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “As empresas terão que fazer o dever de casa. Torna-se cada vez mais necessário investir na formação de líderes que se importem genuinamente com o bem-estar de seus funcionários, porque esses profissionais estão cada vez mais buscando significados e propósitos – eles querem se expressar através do trabalho”, considera.

Além disso, práticas sustentáveis, compromisso com a comunidade e com o meio-ambiente, que tornem a empresa capaz de impactar positivamente no meio onde estão inseridas também são essenciais.

“E mais: todas essas políticas de inclusão e sustentabilidade precisam ser vividas dentro da empresa, não bastam estar no papel”, reforça Graziele Neves, que conclui: “Não tem erro. Gente feliz, saudável, bem cuidada e bem disposta contribui mais, diminui o turnover, gera mais resultado, aumenta o engajamento e contribui para que a empresa seja bem-vista e desejada pelos talentos e consumidores”.

10 dicas para realizar uma transição de carreira de forma segura

Se você sente incômodo em relação ao seu atual trabalho, passa boa parte de sua jornada esperando pelo fim do dia e sente ansiedade aos domingos porque a segunda-feira está chegando, atenção: talvez seja necessário começar a refletir sobre uma transição de carreira.

Para os profissionais que desejam fazer mudanças em seu plano de carreira, Graziele Neves recomenda planejamento e autoconhecimento. Confira, abaixo, algumas dicas da executiva sobre o assunto.

1. Invista no autoconhecimento

Descubra mais sobre suas motivações e sobre o que realmente quer para si. Às vezes, uma pequena mudança dentro da sua atual área de atuação ou empresa pode te trazer mais satisfação e talvez você não precise realizar uma transição de carreira.

2. Identifique o que gosta e sabe fazer bem

Buscar refletir a respeito de suas competências e habilidades, considerando a opinião das pessoas que já trabalharam com você é um dos passos para quem deseja fazer uma transição de carreira. Desta forma fica mais fácil encontrar propostas alinhadas com o seu propósito e habilidades

3. Avalie a nova área de atuação e as competências necessárias

Outra etapa importante para quem planeja mudar de carreira é identificar as competências exigidas na nova área de atuação. Com base nelas, elabore um diagnóstico, considerando quais habilidades você possui e quais ainda precisa desenvolver.

4. Informação é poder

Pesquise e estude sobre a nova área de atuação ou negócio: quanto mais informações tiver, melhor será para estruturar a mudança e alinhar expectativas. “É possível pesquisar na internet, em livros, jornais e revistas que falam sobre o tema. Também é válido conversar com profissionais da área. A missão, neste ponto, é conhecer os prós e contras envolvidos neste novo mercado”, orienta Graziele Neves.

5. Rede propulsora

Identificar as pessoas que podem colaborar com a transição de carreira também é uma etapa importante. “São pessoas que fazem parte do seu network e podem colaborar, seja trazendo informações, conexões ou mesmo gerando oportunidades para você”, destaca a fundadora da The Lighthouse Consultoria.

6. Planeje-se financeiramente

Se a mudança que você deseja fazer necessitar de investimento em cursos, compra de materiais, redução de salário ou até mesmo envolver a criação de um negócio próprio, você precisa se organizar e planejar financeiramente para não ter surpresas. “Verifique qual é o investimento necessário para realizar a mudança e se planeje. Em algumas situações você precisará de uma reserva financeira para se manter durante o período da transição”, pontua Graziele Neves.

7. Use o tempo como aliado

Planejar a mudança considerando o tempo é outra etapa importante para quem deseja fazer uma transição de carreira. “Estabeleça um prazo para realização de cada objetivo ou passo a passo e visite o seu plano com frequência. Desta forma, você consegue acompanhar e gerir de perto o seu planejamento de mudança”, ensina a executiva.

8. Experimente

Buscar maneiras de se aproximar da carreira na qual você pretende atuar é uma das formas de fazer a transição com segurança. “Experimente. Seja voluntário, trabalhe pro-bono, atue como sombra de outro profissional, mas entre em contato com esta nova área ou atividade. Este passo é importante para alinhar as expectativas e te colocar mais próximo da realidade”, recomenda Graziele Neves.

9. Tenha calma e confie no seu processo

A coach e estrategista de carreira ainda pontua que é comum sentir ansiedade e ter novos questionamentos quando se inicia uma transição de carreira, por isso, ter calma e confiar no processo é uma questão importante.

“Tenha em mente que você acabou de sair da zona de conforto e está em um negócio que talvez não domine tanto. Respeite esse momento, lembre-se que você se planejou e, se necessário, reveja o plano e faça pequenos ajustes”, destaca.

10. Celebre!

Reconheça os seus esforços e celebre até mesmo as pequenas conquistas, afinal, você teve a coragem de planejar uma mudança e realizá-la. Tenha gratidão pela sua evolução.


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