A sociedade do cansaço é cada vez mais realidade; como se blindar?

A vida moderna naturalizou a cobrança excessiva por produtividade e positividade; com tanta pressão por perfeição, saúde física e mental pedem a conta

Foto: Shutterstock

“Já amanheci cansada.” O meme, que circula pela internet e é ilustrado por um desenho infantil, provavelmente, foi criado por uma criança, mas faz sucesso nas redes sociais ao resumir uma sensação que domina boa parte da sociedade adulta: o de que nem boas noites de sono são suficientes para restaurar o vigor e a disposição, por isso, não raramente amanhecemos cansados.

O que pouca gente sabe é que essa sensação permanente de exaustão tem explicação na filosofia: de acordo com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, vivemos na sociedade do cansaço, que naturalizou a cobrança excessiva por produtividade, pela alta performance e pelos resultados, tudo isso sob o pano da positividade. Com tanta pressão, saúde física e mental pedem a conta.

Ter um olhar crítico sobre esforços e objetivos, reconhecer-se imperfeito e buscar por tempo de qualidade longe de telas e de trabalho são algumas das alternativas para se blindar dessa patologia da sociedade moderna.

Entenda a sociedade do cansaço

Pare e reflita: quantas vezes você já se cobrou e se frustrou por não ter a produtividade que esperava em um determinado dia ou período de tempo? E quantas vezes você já se deparou com o perfil de um colega de faculdade no LinkedIn, observou a empresa onde ele trabalha ou a atual situação profissional dele, comparou com sua situação e se sentiu deprimido ou fracassado?

Questionamentos e sentimentos como estes, que têm como pano de fundo a busca excessiva por produtividade, alta performance, desempenho e resultado são decorrentes da sociedade do cansaço, um termo cunhado por Byung-Chul Han, que se dedicou a entender como o modelo de produção da última fase do capitalismo tem interferido na vida das pessoas. Os resultados foram reunidos no livro Sociedade do Cansaço.

“Esse filósofo defende que a sociedade atual valoriza o desempenho, a alta performance, o resultado, a máxima produtividade. O problema é quando essas coisas não acontecem. As pessoas tendem a se sentir frustradas, deprimidas e fracassadas”, explica a psicóloga e psicoterapeuta Ana Gabriela Andriani, doutora em educação pela Universidade de Campinas (Unicamp).

O cansaço extremo, por sua vez, na visão do filósofo, favorece o surgimento de patologias que afetam a saúde física e mental, como a hiperatividade, o déficit de atenção, o transtorno de personalidade borderline, a ansiedade, a melancolia, a depressão e a síndrome de burnout.

Outra característica marcante da sociedade do cansaço levantada pelo filósofo sul-coreano é a individualização e o isolamento. “As pessoas vivem cercadas por outras, mas estão isoladas dentro de si”, explica a psicoterapeuta.

A cobrança em excesso, somada ao surgimento de patologias e à individualização resulta ainda em um outro problema: o uso excessivo de medicamentos. “Para poder desempenhar bem seus papéis, as pessoas vêm se utilizando de artifícios químicos e medicamentos para que oscilações emocionais não aconteçam. Elas não podem ficar tristes nem desmotivadas; precisam garantir a estabilidade de humor e a alta produtividade sempre”, explica Ana Gabriela Andriani.

Para o psicanalista clínico Diego Felipe Silva Cavalcante, da clínica Kaizen, excesso de estímulos e de informações, a globalização e o avanço tecnológico, a obsessão em querer atender às expectativas geradas pela sociedade e o esforço do indivíduo em ser produtivo, autêntico e inovador são alguns dos fatores que mais contribuem com a sociedade do cansaço.

A violência da positividade

“Não desista”, “Tudo dá certo no fim. Se não deu certo é porque ainda não chegou o final”, “Busque a felicidade a todo momento. Sempre”. Frases como essas são facilmente encontradas em perfis de redes sociais e têm como intenção servir de motivação para que as pessoas persistam na busca por seus objetivos.

O problema é quando elas mascaram a realidade, fazendo parecer que não existem objetivos impossíveis de serem alcançados, colaborando com as cobranças em excesso.

“O ritmo de vida cobrado por nossa sociedade faz com que tudo pareça ser possível de ser alcançado, o que gera em nós uma autocobrança muito grande e a expectativa de ser sempre possível alcançar os melhores resultados. Em outras palavras, é o excesso do trabalho munido do sentimento de liberdade, o que gera a chamada ‘violência da positividade’”, explica Diego Felipe Silva Cavalcante.

Neste sentido, é justo atribuir às redes sociais uma parcela da responsabilidade pelas patologias decorrentes da sociedade do cansaço. “A necessidade de se expor e se mostrar feliz o tempo todo, bem-sucedido e realizado em troca da aprovação social – que vem por meio de curtida e likes – é outro fator que contribui para nos levar à exaustão, ao esgotamento mental, uma vez que nunca ficamos plenamente satisfeitos com nossos resultados”, avalia.

Ana Gabriela Andriani concorda com o pensamento do colega e reforça: “As redes sociais reúnem momentos de felicidade, de conquista e de perfeição: são corpos esculturais, profissões de alto desempenho, relações perfeitas… Tudo isso contribui para que as pessoas se sintam exigidas a serem assim também, a buscarem a perfeição, a estarem em um alto nível de rendimento e produtividade e a serem sempre felizes, mobilizadas, motivadas e superinformadas”, acrescenta a doutora.

Como se blindar dos efeitos da sociedade do cansaço

Busque o sentido das coisas

Entender os motivos pelos quais você faz determinadas coisas ou toma algumas atitudes é o primeiro passo para não cair nas armadilhas da sociedade do cansaço.

“É preciso questionar o sentido das coisas que fazemos, de nossa atividade profissional, das atividades com as quais nos envolvemos, das nossas relações e do uso das redes sociais. Esse olhar crítico é fundamental para que possamos identificar o quanto nossas atitudes são pautadas em coisas que são, de fato, significativas pra gente ou o quanto estamos fazendo isso porque outras pessoas fazem ou porque estamos em um piloto automático”, orienta Ana Gabriela Andriani.

“A ideia é parar para refletir sobre como está conduzindo sua vida, e, mais que isso, permitir-se sentir o desconforto e o tédio. Aliás, não tente desesperadamente fugir do tédio”, orienta o psicanalista clínico Diego Felipe Silva Cavalcante.

Aprenda a lidar com suas imperfeições

Reconhecer-se como um ser humano, com falhas, é o segundo passo para quem deseja se blindar dos efeitos da sociedade do cansaço. “É preciso aprender a lidar com nossas faltas e imperfeições. É preciso entender que a gente não dá conta de estar em um alto nível de performance, rendimento e entrega no trabalho o tempo todo; que não existem relações perfeitas nem corpos perfeitos, e que não é possível estar sempre estável emocionalmente”, explica a psicóloga.

Além disso, Ana Gabriela Andriani destaca a instabilidade com que se desenrolam as situações existenciais. “A vida não acontece em uma curva de ascensão. Saber disso é importante para que a gente possa se conhecer mais e se aproximar de nós mesmos”, pontua.

Busque por momentos com qualidade de vida

Por fim, a terceira orientação dada pelos especialistas é buscar por momentos que proporcionem relaxamento e qualidade de vida, além de usar as redes sociais com moderação.

“Aprenda a contemplar a vida, a viver o momento. Preste atenção em cada detalhe do seu dia, leia mais livros, medite. Além disso, procure deixar o celular um pouco de lado e use as redes sociais e outras interações digitais com moderação. Quando você tirar férias, tire férias de fato e desligue-se de seus afazeres”, ensina o psicanalista da clínica Kaizen.


+ Notícias 

8 motivos para incluir a prática de meditação na rotina 

Dicas práticas para desenvolver o autocontrole






Acesse a edição:

MAIS LIDAS

VEJA MAIS

ÚLTIMAS

VEJA MAIS