A certeza da mudança e a necessidade do protagonismo

Não podemos escolher se vamos jogar, mas podemos escolher que jogo queremos jogar

Foto: Pexels

85% das profissões no mercado de 2030 ainda não existem. A previsão é de um estudo encomendado pela Dell Technologies ao Institute for the Future (IFTF), que contou com a participação de 3.800 líderes de médias e grandes corporações de 17 países, incluindo o Brasil.

Muito desta transformação vem em decorrência dos avanços da tecnologia, que decretam o fim de algumas profissões enquanto dão origem a uma série de outras, em todas as áreas. Este é um caminho sem volta e sem fim. Não dá para colocar o gênio novamente dentro da lâmpada. Quem quiser aumentar suas chances de prosperar no mercado vai precisar se adaptar e aprender continuamente, mesmo se a sua profissão estiver entre aquelas que continuarão a existir.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 70 e foi criado numa sociedade que prestigiava poucas carreiras além de medicina, direito, administração, engenharia e publicidade, na qual títulos e diplomas eram garantias de status e sucesso, confrontar-se com essa realidade é algo surpreendente, maravilhoso ou completamente aterrorizante – dependendo da maneira como cada um encara a perspectiva de um processo de aprendizagem contínuo e vitalício.

Protagonismo e não-linearidade

O paradigma da linha de montagem tradicional, de uma linearidade e conformidade que poderiam ser aplicadas não apenas à indústria mas também à educação, carreira, economia e à vida de uma forma mais ampla, mostra-se inadequado para um mundo tão diverso e dinâmico quanto o nosso. Para além da velocidade das transformações ser cada vez maior, sedimenta-se a visão de que existem inúmeros caminhos para o sucesso, assim como múltiplas noções do que é sucesso.

No jogo infinito da vida, da política e dos negócios não há vencedores nem perdedores definitivos, já que ele não acaba nunca. As normas e os participantes estão sempre mudando, junto com os mercados, as leis e as sociedades.

Não podemos escolher se vamos jogar, mas podemos escolher que jogo queremos jogar – e como jogá-lo. Isso exige protagonismo do indivíduo. Não no sentido de uma obrigação de se sobressair, de ter ou brilhar mais do que outras pessoas, mas de ser “dono” das suas escolhas e da sua identidade, traços de personalidade, habilidades e defeitos. Protagonista da sua própria vida, enfim.

A busca pelo autoconhecimento é, portanto, o primeiro passo na jornada do protagonismo e uma bússola valiosa na trilha para a realização pessoal e profissional. Este caminho, como qualquer pessoa com tempo de estrada suficiente pode atestar, é tudo, menos linear. Não é à toa que livros e palestras sobre liderança e empreendedorismo falam tanto em resiliência, que nada mais é do que a capacidade do indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas.

Deixar o paradigma obsoleto para trás e abraçar o presente em eterna e acelerada transformação é entender que mais importante do que saber a resposta certa para um problema conhecido é estar apto a produzir uma resposta adequada diante de uma situação inédita. É preciso abraçar também os erros como parte do processo, mas para prosperar é inaceitável não se aprender com eles.

A prática

A ARCA é fruto desta não-linearidade. Era março de 2017 quando eu e meu sócio Mario Sergio entramos pela primeira vez no galpão que viemos a transformar em nosso negócio. Estávamos à procura de um local que pudéssemos alugar para a realização de um evento europeu, que pretendíamos trazer ao Brasil pela empresa em que trabalhávamos naquele momento.

Ao atravessarmos o portão de ferro, nos vimos em um ambiente sujo, degradado, mas ao mesmo tempo imponente, cheio de personalidade e com enorme potencial. Só tinha um problema: o galpão era de propriedade de um grande e tradicional grupo de empresas, a Votorantim, que não tinha interessem em alugá-lo pontualmente para um evento de techno.

O espaço guardava a mesma atmosfera industrial do Gashouder, uma das principais edificações do complexo Westergas, em Amsterdã, que além de ser o local original do evento para o qual estávamos procurando uma casa no Brasil era também o ponto focal do processo de revitalização da zona oeste da capital holandesa, que teve início na década de 90 e foi impulsionado pela indústria criativa.

A conexão foi imediata, assim como a compreensão de que era possível fazer algo da mesma natureza por aqui. A demanda era clara, pois sabíamos da dificuldade que era encontrar lugares como a ARCA disponíveis para eventos em São Paulo. A experiência de anos trabalhando juntos com grandes festivais e eventos internacionais nos dava uma boa noção do que produtores e agências consideravam essencial em um espaço como aquele, além do que era possível criar ali em termos de experiência e ambientação. Isso sem falar da importância de conhecermos um ao outro trabalhando, tendo plena consciência da complementaridade dos nossos perfis, das nossas habilidades, da visão e valores que compartilhamos, assim como das nossas diferenças e defeitos.

A decisão de dar o salto, no entanto, veio apenas meses depois. Quando o grupo norte-americano do qual a empresa em que trabalhávamos fazia parte decidiu cortar os investimentos no Brasil, decidimos sair junto com mais outra então colega, Andrea Galasso, para nos dedicarmos a desenvolver o que ainda era o embrião da ARCA. Andrea trazia a experiência prévia de trabalhar com eventos de arte, dança e performances, além de ter sido CEO de uma grande agência de eventos corporativos antes de trabalhar junto comigo e com o Mario em festivais como Tomorrowland Brasil, Electric Zoo e Milkshake. Trouxe ainda a Tatiana Aulicino, quarta e última sócia-fundadora da ARCA, com quem havia trabalhado anteriormente e que tinha também sua própria agência de eventos.

Assim como a Tatiana, no início da ARCA cada um de nós dedicava-se também a algum outro negócio em paralelo. Em meados de 2019 um acaso do destino fez com que eu e o Mario deixássemos nossos outros negócios praticamente no mesmo momento. Foi exatamente numa conversa sobre essa coincidência que decidimos criar a M-S Live, vislumbrando a oportunidade de realizar nossos próprios eventos de música na ARCA.

Pela M-S, lançamos 3 eventos internacionais, todos eles com ingressos esgotados, até que em março de 2020, exatos três anos após aquela primeira visita ao galpão, a pandemia chegou ao Brasil – nos levando a adiar o terceiro evento apenas dois dias antes da sua realização. Em paralelo a isso, Andrea e Tatiana decidiram deixar a ARCA para dedicarem-se a projetos pessoais.

Isso fez com que eu e o Mario repensássemos os dois negócios, integrando as duas estruturas em um único escritório e numa única organização funcional. Para tanto, foi fundamental contar com colaboradores em quem confiamos e que nos completam, com a mesma atitude empreendedora que nós, a mesma disposição para encarar o desconhecido.

Estamos desbravando, trabalhando num espaço de eventos cuja meta é ser catalisador de uma transformação positiva de todo o seu entorno – e numa empresa de eventos cuja meta é ser catalisadora de uma transformação positiva de todo o seu mercado. Já aprendemos muito, tivemos que nos adaptar e nos reinventar algumas vezes. Outras tantas virão. Mas pouco a pouco vamos chegando mais perto dos nossos objetivos, mesmo que não seja em linha reta.


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