Digital e inclusivo: promessa ou ilusão?

Painel no Viva Tech em Paris debate os efeitos da digitalização nas políticas de inclusão e diversidade. Confira

Foto: Shutterstock

Um dos efeitos mais perversos da pandemia foi seu impacto sobre a saúde mental das pessoas. Uma das únicas defesas possíveis contra a escalada e o contágio do vírus da Covid-19 foi o distanciamento social, o que modificou radicalmente padrões de conduta, afeto e relacionamento das pessoas mundo afora. Por outro lado, a digitalização, o uso intensivo de ferramentas de comunicação digital ofereceu meios alternativos para manter um nível mínimo de socialização e interação. Ainda assim, as consequências para a saúde mental foram brutais, com um aumento significativo de stress, neuroses e depressão 

Outra consequência, pouco estudada, diz respeito à forma pela qual as interações digitais reforçaram, mantiveram ou reduziram as políticas de inclusão, diversidade e desigualdade em diferentes níveis. Durante o Viva Tech, evento global de tecnologia e inovação que acontece em Paris ao longo dessa semana, pudemos ver um debate esclarecedor sobre esse fenômeno, reunindo Karen Dolva, CEO da No Isolation e Jean Guo, CEO da Konexio, com mediação de Louise Ekland. As políticas de isolamento social, aliadas aos estados de solidão atingiram com mais força os grupos mais vulneráveis da sociedade, justamente o foco do trabalho da No Isolation e da Konexio. 

Segundo Karen Dolva, a No Isolation aplica tecnologia, reúne e compartilha conhecimento para oferecer soluções que combatam a solidão nos grupos fragilizados. Ela observa que a saúde mental é condição necessária para manter a saúde do corpo e que pessoas solitárias têm até 29% a mais de chance de sofrerem de doenças cardíacas, número comparável à população fumante. Basicamente, a No Isolation desenvolve dispositivos e ferramentas de comunicação que ajudam a combater a sensação de solitude das pessoas em suas vidas. 

Entre os produtos da empresas, destacam-se basicamente: 

  • AV1, uma espécie de avatar à distância que permite que crianças e jovens com doenças congênitas participem da vida escolar através de um aplicativo para celular ou tablet. 
  • KOMP, uma espécie tablet com visual retrô que não requer nenhuma habilidade digital prévia dos usuários e permite que filhos e netos compartilhem fotos, mensagens e façam chamadas de vídeo para seus avós sem nenhuma familiaridade com dispositivos digitais. 
  • O AV1 vem se mostrando um poderoso auxiliar para ajudar crianças com deficiência em sua atividade escolar. Porém, Karen não se ilude e acredita que em algum momento terá de encarar algum efeito negativo da tecnologia: “por isso temos de ser extremamente cuidadosos e vigilantes o tempo todo”, destaca. Esse cuidado pode ser verificado desde o modelo de venda, pois os robôs só podem ser adquiridos pelos pais e jamais oferecidos diretamente às crianças doentes. 

 

Já a Konexio, empresa comandada por Jean Gue é uma plataforma que promove a inclusão de refugiados e populações desfavorecidas na força de trabalho por meio de treinamento em habilidades tecnológicas e construção de comunidades. Com a chegada da Covid-19, a empresa dedicou-se a entender o impacto da pandemia nessas comunidades, a partir do diagnóstico de que a maior parte não estaria apta a trabalhar on-line. Jean fala de pessoas que viram empregos transformarem-se radicalmente, criando lacunas de competências para pessoas com formação escolar insuficiente e que precisam então ser preparadas para carreiras do futuro. 

A Konexio trabalha em 3 regiões, África, América do Norte e Europa e seus programas de treinamento permitiram que 70% dos participantes estejam hoje empregados. Uma parte desses cursos de qualificação acontece diretamente em campos de refugiados, em parceria com as Nações Unidas. “É claro que observamos essa certa segregação digital, mas vemos um horizonte muito maior de oportunidades que possam resgatar a dignidade de populações carentes”, observa a CEO. 

Olhando para os invisíveis

Dado esse contexto de atuação dessas duas jovens empresas inovadoras, a mediadora Louise Ekland as questionou sobre como é possível atingir essas populações, essas comunidades para mostrar suas propostas de valor, como atingir os “invisíveis”?

A Konexia busca agências locais para estabelecer parcerias que permitam vislumbrar e compreender o alcance total de exclusão de indivíduos de uma realidade digital e as consequências sociais decorrentes. Ainda assim, Jean comenta que as novas gerações, mesmo em comunidades carentes e desfavorecidas assumem um comportamento que privilegia o uso de apps como TikTok ou Snapchat para se comunicarem, mas logicamente não têm contas de e-mail. Isso quer dizer que os mais jovens não seguem o “código social”, o “código de conduta” corporativo que possa inclui-los no mercado de trabalho. “São talentos que não encontramos no LinkedIn, obviamente”, afirma. Por isso, os programas de capacitação devem enfocar habilidades fundamentais, básicas, que permitam inserção nesse “código laboral”. 

Karen, por sua vez, afirma que é necessário mergulhar fundo na sociedade, para conhecer as pessoas que efetivamente precisam de ajuda. E quando se trata de isolamento, abandono, não existe um grupo específico. São pessoas de todos os perfis vítimas desse problema social, apesar das estatísticas ressaltarem uma incidência maior entre os idosos.  

E como a pandemia acelerou essa lacuna entre pessoas “analógicas” e “digitais”? A No Isolation trabalha para ajudar pessoas com dificuldades cognitivas, crianças ou idosos, o que torna especialmente complexo que saibam como utilizar tablets e smartphones de modo efetivo. Um dispositivo como o KOMP ajuda os idosos a receber e visualizar fotos de seus parentes sem nenhuma necessidade de interagir com a tela de um smartphone, o que traz um excepcional ganho emocional.

Um dado global: 75% dos adultos com mais de 75 anos nunca fizeram uma chamada por vídeo pela internet. Da mesma forma, os treinamentos da Konexio, apesar de terem sido concebidos no modo on-line tiveram de ser adaptados para atender aos refugiados nas diversas localidades que nem sempre dispunham de uma conexão com a internet. 

1 bilhão de empregos a menos?

A CEO da Konexio comenta que cerca de 1,2 bilhão de postos de trabalho serão impactados pela transformação digital nos próximos 10 anos, o que implica na busca de soluções capazes de garantir trabalho digno para o máximo de indivíduos. O que mais o futuro reserva para a inclusão digital? Na opinião de Karen, mais e mais pessoas no continente europeu terão necessidade de buscar apoio para enfrentar a solidão, uma questão de saúde e política pública que deverá ser enfrentada pelas autoridades competentes.

As habilidades de formação de estudantes e profissionais estão se alterando profundamente, o que torna necessário que os programas de educação e qualificação se adaptem e antecipem essas mudanças. É necessário equipar melhor os jovens para enfrentar um futuro que demanda profissões e posições de trabalho diferentes. 

A visão de empresas como a No Isolation e a Konexio joga luz sobre as boas possibilidades que novas empresas podem trazer para a sociedade e o mercado, aumentando as chances da inclusão digital e permitindo que mais e mais pessoas possam colher os benefícios das novas tecnologias.

As palavras de Karen Dolva definem bem essa visão otimista: “quando eu fiz ciência da computação eu me apaixonei por uma indústria que poderia inventar qualquer coisa e ao mesmo tempo ser tão brutal, injusta e orientada à eficiência. Mas por que ela precisa necessariamente assim? Para mim, eu sempre encarei que podíamos ser como uma espécie de Fisher-Price (empresa de produtos infantis educativos) que lançaria produtos que respeitassem públicos diferentes, que fossem inclusivos e não apenas para pessoas como eu”. 


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