O conceito de “Grande Dispersão”, de Scott Galloway, como ferramenta de sobrevivência

Escritor e guru do Vale do Silício alerta para desvantagens de fenômeno global e atrofiamento da empatia

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Em tempos de tanta incerteza, quem liga um ou outro ponto em uma leitura que faz sentido ganha a atenção. Mais do que nunca de alta praticidade no dia a dia, a filosofia está à flor da pele, pois conhecimentos profundos sobre a vida e a sociedade parecem os únicos antídotos para sobreviver em um mundo representado nas mídias como assustadoramente frívolo e antipático. A partir disso, o mundo também ficou cheio de futurólogos e futuristas. Não é preciso navegar muito tempo no LinkedIn e outras redes sociais para se deparar com millennials vendedores de ideias filtradas a partir de três leituras de Yuval Harari e Amy Webb com umas aulas cocriadas em uma instituição de ensino super cool e disruptiva.

Mas aqui vem uma tese de peso: o conceito de “Grande Dispersão“, do professor da Universidade de Nova York Scott Galloway, que foi o principal painelista no primeiro dia do CIAB FEBRABAN 2021, que acontece até sexta-feira (25). Segundo o professor autor dos livros “A Álgebra da Felicidade” e “Os Quatro”, a Grande Dispersão é um fenômeno comparável à Globalização e à Digitalização (até mesmo porque se apresenta como uma teoria que une estes dois conceitos).

Em sua apresentação no evento da FEBRABAN, Galloway compartilhou sua percepção de dispersão em setores-chave da economia e da vida em sociedade. Repitamo-la resumidamente aqui, mas, sem antes, claro, definir o substantivo pelas palavras do pensador: “Dispersão é a habilidade de distribuir produtos ou serviços sobre uma grande área quando e onde eles mais são necessários, eliminando fricções e custos desnecessários.”

Setores dispersos

Tendo em vista a definição de dispersão proposta por Galloway, pode-se dizer que a Amazon dispersou o varejo pelos computadores e telefones e a Netflix dispersou os DVDs pelas telas de casa, por exemplo. Zoom e Spotify também expressam dispersões profundas em indústrias — o que nada mais são que mudanças de paradigmas. A chegada da pandemia, segundo ele, mais acelerou mudanças do que as provocou — trazendo “décadas em questão de dias”, como propõe ele. “Tempo é uma função de mudança e o Corona é um catalisador. No Brasil e na América Latina, essa aceleração deve ter sido de seis ou sete anos para a chegada do home office e equidade de renda.”

Tal aceleração aparece no home office, na telemedicina e no ensino a distância. Grandes saltos de mudança aparecem na sede das empresas, nos consultórios e hospitais, escolas e campi. “Veremos dispersão nas sedes (das empresas), setor hoteleiro e no espaço do escritório”, entende o professor, citando o advento do Airbnb e comparando ponderadamente os grandes empreendimentos imobiliários corporativos a pirâmides egípcias de pouca função. “O sistema de saúde está se dispersando nos smartphones, com menos médicos nos hospitais e boom da telemedicina”. Há dispersão também na educação, dada a insustentabilidade até dos modelos de ensino remoto, de alto preço — a exemplo de suas próprias aulas, como ele mesmo disse. (Note que há diferença entre ensino remoto e ensino a distância.)

Galloway lembra que não se trata apenas de dispersões no mundo físico. A mídia também passa por grande mudança dispersiva. As mídias sociais são uma forma de dispersão que possibilitam conexões, competições e debate com as comunidades dispersas. Galloway menciona a dispersão midiática causada pelo streaming de filmes e séries por assinatura, cujas receitas traduzem para onde está indo a riqueza. Depois de um turning point entre 2017 e 2018, quando o entretenimento de bilheteria e assinatura de streaming empataram, a pandemia fulminou os cinemas e teatros para uma receita de US$ 2,1 bilhões, enquanto os streamings chegaram a US$ 20,2 bilhões nos EUA em 2020.

Outra dispersão acelerada pela pandemia está nos câmbios, com a falta de confiança nas moedas a partir das emissões dos Bancos Centrais, sobretudo o Federal Reserve, e a consequente alta do Bitcoin. “Mas também haverá dispersão em produtos e inovação no setor bancário e monetário”, especula o estudioso citando o Nubank como exemplo de inovação nesse sentido na América Latina.

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Desvantagens

Para Galloway, a dispersão oferece o mesmo potencial de criação de riqueza que a globalização e a digitalização. E dispersão, também, devemos estar mais conscientes das desvantagens. As mudanças de paradigma citadas por ele trouxeram vantagens e catalisaram prosperidade, mas em termos de progresso, é pouco. Pegue as redes sociais e o anywhere office como exemplos — as redes diminuíram consideravelmente o atrito saudável na busca de verdades e ciência ao passo que trouxeram grande desinformação e conspiração. Mas, no geral, para ele, o alcance de prosperidade com pouco progresso está na economia em que o vencedor leva tudo.

É aí que o criticismo de Galloway se volta aos monopólios, oligopólios e Big Techs, pois a menor quantidade de empresas leva à menor geração de empregos, segundo ele. Galloway aponta que o percentual de receita anual entre 2019 e 2020 de empresas como Adidas, GAP, Nike e Carrefour caíram globalmente, enquanto Walmart e Amazon avançaram. A Amazon, aliás, é uma grande promessa futura de curto e longo prazo para o publicitário, uma vez que deve se tornar a empresa que mais deve crescer no setor de saúde por volta de 2025, já que tem sua Alexa, seus smartwatches e um grande investimento já feito para o desenvolvimento de um kit de teste de Corona.

Outra gigante que deve crescer ainda mais é a Apple. “Vejo ela oferecendo todos seus produtos antes do lançamento. ‘Olhe, família Galloway, temos este kit de lançamento do relógio com o último telefone e tablet com todos seus dados já inseridos’. Em vez de tentar levar gente para as lojas e sites todos os dias, a Apple propõe um outro mindset de relação mais saudável e duradoura com o consumidor”, prevê o guru do Vale do Silício. Segundo ele, a Apple ainda deve anunciar a entrada no mercado de carros e concorrer pesado com a Tesla.

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A dispersão da empatia e o “suicídio dos virgens”

Galloway não nega que a Grande Dispersão tem inúmeros benefícios tangíveis. Mas sua provocação está no alerta de que ela pode poder de corroer nossos vínculos já enfraquecidos de comunidade e cooperação, já que o distanciamento passa a ser cada vez mais estrutural. Deixar de ir ao escritório é uma economia de tempo e emissões, mas este local é mais do que um local de trabalho — é um equalizador onde pessoas de origens diferentes se trombam, conversam e lancham espontaneamente. Para Galloway, a dispersão é prima da segregação, e a segregação reduz a empatia.

Com bolhas cada vez mais fechadas em suas verdades, a falta de empatia e as riquezas se concentrando, o estudioso pensa que a juventude desfavorecida tende ao desespero e isolamento na participação social. A marginalização da juventude, sobretudo no caso do homem, será fonte de manifestações, protestos, revoltas e violências — algo que ele chama de “suicídio de virgens”, já que pesquisas apontam que homens deixarão de se relacionar afetivamente cada vez mais, convivendo com abstinência sexual.

Como solução do problema de sua tese, o professor sugere uma revisão pessoal das relações, além de um compromisso ético dos mais favorecidos de trabalhar para um mundo mais justo, para cuidar dos mais velhos e aprimorar e desenvolver relações. “Em todo painel faço essas perguntas no final: já não é hora de você passar a cuidar dos seus pais ou qualquer pessoa mais velha? Você tem a relação que gostaria com seus irmãos”.

 


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