As tendências visíveis da revolução alimentar que acontece debaixo do seu nariz

Consumo consciente conspira nas redes e cria extensões nas grandes empresas e pequenas fazendas

Fonte: Unsplash

Sob uma revolução, há várias revoluções em curso. Não é preciso ir muito longe em especulações infundadas e pseudointelectuais para acreditar que grandes mudanças estruturais abrem margem a uma porrada de outras grandes, médias e pequenas rupturas. Tampouco é preciso divagar muito para se convencer de que a pandemia é um catalizador histórico, como tanto dizem e repetem historiadores e gurus em evidência no Vale do Silício. Sendo assim, não é preciso argumentar muito para convencer que a Quarta Revolução Industrial com todo seu chacoalhão nas telecomunicações, na energia e no dinheiro inclui uma revolução alimentar. Revolução esta também acelerada pela pandemia. Mas a Danone quis argumentar sobre uma revolução alimentar. Argumentar a favor.

Ao apoiar um projeto de pesquisa de três anos de uma agência internacional de estratégias para sustentabilidade, a multinacional francesa quis entender, quantificar, qualificar e interpretar o que — e como — as pessoas pensam e falam sobre os alimentos e a alimentação. Usando o Google, pesquisadores da agência londrina de sustentabilidade Futerra desenvolveram um barômetro de conversas e interações nas redes e no site de busca capaz de medir o pulso relacionado a assunto de alimentação. O monitoramento que começou no segundo semestre de 2018 mostra resultados relevantes em 2021, expondo também o papel incisivo da pandemia nas conversas e ações tanto no mundo físico quanto virtual.

Em torno de agosto de 2018, foram registradas 30 milhões de menções sobre alimentos e alimentação. Em agosto de 2020, com a Covid bombando mundo afora, o número batia os 55 milhões. Hoje, antes de completar a periodicidade do terceiro ano, o número de menções e conversas supera os 107 milhões. Se você acha que isso acontece porque há mais pessoas conectadas, lembre-se que a conectividade global que não necessariamente socializa populações neste debate avançou de 47% do planeta em 2018 para pouco mais de 50% em 2021, segundo a agência We Are Social.

“As menções são referentes a como a comida é feita e qual o papel do indivíduo diante disso. O que mudou foi que de novembro de 2019 para abril de 2021 a quantidade de conversas explodiu e a mudança climática se tornou um top of mind estável e chave nas conversas. Esta é uma tendência estável: a conexão de uma cadeia social de alimentos com um novo senso de ativismo”, explica Solitarie Towsend, fundadora da Futerra.

Histórico e as possibilidades do presente

Antes da pandemia, as pessoas se preocupavam mais com a exploração que a cadeia de alimentos exerce sobre o pequeno agricultor, questionando os preços de compra dos alimentos, formas de investimento e possibilidades de financiamento, conforme conta Towsend. Com a pandemia, passou-se a questionar profundamente a remuneração do pequeno agricultor, criando-se um senso de conexão. “Mudou-se a ‘condenação’ do vegano e passou a haver mais consenso de que todo mundo precisa de acesso. Ao mesmo tempo, o debate começou a ver mais engajamento e pedidos de conselhos, com menos emissão de opinião e mais procura de informação”, observa a pesquisadora.

A partir daí, acadêmicos e especialistas no assunto acreditam que o pequeno agricultor tende a ser tratado como herói do clima no futuro, enquanto há um anseio por melhores salários e proteção a esse trabalhador essencial.

O papel das grandes empresas

Chefe global de crescimento da Danone, a azerbaijana Nigyar Markmudova explica que a empresa bancou a pesquisa de mapeamento e qualificação de menções sobre alimentação na internet por uma questão vocacional da marca. “É natural para nós. Acreditamos que a missão mais importante que podemos assumir é trazer comida saudável par ao máximo de pessoas possível. Essa conexão entre saúde do planeta e das pessoas impacta nas escolhas de todos: pessoa, comunidade e ambiente.”

Para ela, uma empresa global como a Danone precisa ser multilocal e empoderar as pessoas com real escuta e compartilhando ações coletivas. “Nossas marcas são uma pequena parcela do que as pessoas comem todos os dias, e por isso podemos fazer coisas melhores. Somos todos membros da revolução alimentar.”

Entre as ações coletivas da Danone, Nigyar ressalta o papel educativo das marcas na dieta do consumidor e nas práticas do produtor. “Elas têm um papel ético de agir e se comprometer. É preciso educar, mostrar que o produto um pouco mais caro traz uma transparência radical sobre o valor nutricional e social. É preciso também transparecer a produção, o que é algo que toda a indústria ainda tem muita dificuldade no geral.”

Alta da agricultura regenerativa

A completa mudança da cultura alimentar global cujas menções e conversas foram avaliadas pelo estudo da Futerra envolve uma ampla adoção da agricultura regenerativa. Combinação de agricultura sustentável, ela é uma alternativa de conservação e reabilitação dos sistemas agrícolas e alimentares que tende ao apoio crescente, dada ao favorecimento que dá à regeneração das camadas superiores do solo, ao aumentando a biodiversidade, ao ciclo da água e aos serviços do ecossistema, como resiliência a mudanças climáticas e fortalecendo da saúde e vitalidade do solo.

Codiretora da cooperativa afroindígena Soul Fire Farm, Leah Penniman conta que a agricultura regenerativa não só fortalece as comunidades e o solo, mas como altera toda a soberania na cadeia alimentar. “Mais de 95% das terrar plantadas nos Estados Unidos são de brancos. É preciso lutar pela justiça racial e plantação. É o que fazemos, e a pandemia aprofundou o que temos feito, já que cada vez mais as pessoas querem plantar sua própria comida e saber de onde ela vem.”

Leah vê as técnicas e tecnologias indígenas cada vez mais populares de agora em diante, até mesmo porque a maioria das calorias que consumimos vem do pequeno agricultor, lembra ela.

Caminho sem volta

As menções e conversas analisadas pela pesquisa da Futerra têm se traduzido em ações há um tempo. Grandes empresas sabem o quanto têm se esforçado para adequar sua cadeia de valor às premissas de responsabilidade expressadas pelo consumo consciente dentro e fora das redes sociais. A conexão irreversível das pessoas sobre a origem e impacto da comida e o elo com a comida real devem imperar cada vez mais.

Para o chefe de inovação da HowGood, Ethan Solivev, a tendência é de alta da valorização do saudável e do agricultor que serve a comunidade. Mas isso não quer dizer que as grandes empresas não se reconsolidem a partir de tal movimento. “É uma dinâmica interessante de transformações em larga e pequena escala”, frisa ele.

Para Ethan, ainda é preciso quebrar as cadeias de fornecimento. “Esse termo e esse funcionamento de cadeia são um legado colonial. A gente coloca as pessoas nas cadeias e força a uma adaptação. As pessoas podem viver de forma mais harmoniosa e construindo a partir das conexões entre elas. Mas para isso ainda temos muito o que fazer para construir a próxima ‘geração de comida’.”

Para o especialista em inovação, o futuro que a revolução alimentar no guarda é cada vez mais descentralizado e um consumo consciente focado nos impactos. Ainda assim, Ethan vê sinais claros de mudança no curto prazo, como uma quantidade massiva de produtos com muito mais transparência sobre informação dentro dos próximos 12-18 meses.

 


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