Profissionais anseiam por uma jornada de trabalho mais flexível. É possível?

Nesse modelo mais flexível, o foco deve ser nos resultados, e não no processo de construção durante a jornada de trabalho

Profissionais anseiam por uma jornada de trabalho mais flexível. É possível?

Uma jornada de trabalho com horários mais maleáveis é a vontade de grande parte dos profissionais: 73% dos trabalhadores dizem querer ter mais flexibilidade no expediente. Os dados são da pesquisa Flexibilidade no Mercado de Trabalho, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Ibope.

E esse anseio pode ser o reflexo de uma outra mudança: a das relações de trabalho. Para a professora Sonia Prado, coordenadora dos cursos de Gestão de RH e Psicologia da Universidade Estácio de Sá, o cenário no ambiente produtivo, de fato, alterou-se drasticamente nas últimas décadas.

“À medida que novas tecnologias foram surgindo e novos métodos de trabalho foram sendo criados, mudou a forma de as pessoas se relacionarem no ambiente de trabalho, e as próprias condições de trabalho também mudaram muito. A ampliação dos direitos sociais, civis e políticos durante todo o século XX alterou sobremaneira o ambiente das organizações e provocou inúmeras nos processos de gerenciamento de pessoas”, elucida Sonia Prado.

Ainda de acordo com a pesquisa da CNI, o desejo de flexibilidade na jornada dos trabalhadores pode ser traduzido quando 64% dos entrevistados disseram que gostariam de reduzir o intervalo de almoço para, em contrapartida, sair mais cedo do trabalho e, assim, evitar o horário de pico de trânsito.

A pesquisa indica também que o trabalhador gostaria de poder dividir os 30 dias anuais de férias em mais de dois períodos e com períodos mais curtos: 60% dos entrevistados se mostraram favoráveis a esta possibilidade.

É possível uma jornada de trabalho pode ser construída pelas entregas?

É certo que as empresas só conseguem sustentar seu negócio com a participação de pessoas, por mais avançada e necessária que seja a incorporação da tecnologia em seus diversos níveis, processos e operações.

E, para pensar em uma jornada de trabalho constituída a partir da entrega, segundo Prado, como trata-se de uma mudança cultural, as empresas estão investindo logo na admissão dos seus colaboradores.

As vagas, quando abertas, já são desenhadas não somente por tarefas, as chamadas hard skills, mas também por competências comportamentais, as soft skills, cada vez mais buscando talentos que apresentem maturidade ou compromisso a ponto de receberem e assumirem as atividades com responsabilidade de entrega qualitativa e dentro dos prazos, sem necessidade de controle acirrado por parte da gestão.

Contudo, faz-se necessário um investimento no desenvolvimento das lideranças para que se tenha um processo bem delegado. Se não o fizer, o líder vai contribuir para a insatisfação do liderado e provavelmente para a busca de outras oportunidades no mercado.

“Com disciplina, consciência e clareza o colaborador conseguirá realizar todas as atividades planejadas e entregar resultados muito mais efetivos e significativos no fim de cada projeto e no tempo previsto”, esclarece a professora.

Para o diretor de RH da Sanofi Brasil, Pedro Pittella, é importante ter transparência na comunicação e na negociação de metas e entregas. Tudo isso pode ser feito com avaliações mais completas e transparentes, deixando claro para o funcionário o que a empresa espera dele e ouvindo como a empresa pode ajudá-lo. O foco deve ser nos resultados e não no processo de construção dos mesmos.

“Isso deve ocorrer desde a entrevista com o candidato, deixando claro os valores da empresa, como são os processos de estabelecimento de metas e avaliação de resultados e seguindo pós-contratação, com uma comunicação eficiente, sempre escutando e dando feedback ao funcionário. A liderança deve ser um exemplo para que a equipe consiga se organizar, atitudes como dar empoderamento e responsabilidade ao colaborador são essenciais, isso faz parte da gestão eficiente e todos saem ganhando. Oferecer recursos que facilitem o trabalho e redesenhar a organização também são essenciais”, pontua Pedro Pittella.

A professora Sonia Prado ainda elenca algumas providências consideradas importantes para dar suporte e viabilizar o trabalho da equipe em home office, focando a entrega, e não o controle de horas trabalhadas:

● Dar acesso remoto às informações aos colaboradores de forma rápida e segura;
● Disponibilizar arquivos com as informações em nuvem para que todos tenham acesso, promovam sempre que necessário, chamadas em vídeo em tempo real, chat e por meio de ligações para que mantenham os funcionários bem-informados e a comunicação bem alinhada;
● Há a necessidade de providenciar assinaturas remotas validadas para agilizar emissão de documentos necessários para o bom andamento das atividades;
● A empresa precisa tomar algumas precauções quanto à segurança dos dados, portanto há a necessidade de maior investimento na parte de segurança de dados remotos;
● Pensar em ter sempre um backup na nuvem como serviço, economizando e promovendo mais segurança para a empresa.

As inovações nas relações e na jornada de trabalho

A reforma trabalhista trouxe diversas alterações e novidades para as relações de emprego. Entre as mudanças previstas, estão a regulamentação e criação de regras para o home office, permitindo essa flexibilização da jornada de trabalho.

“Permitir uma maior liberdade de ações por parte do trabalhador no momento da demanda, e não no momento em que a empresa acharia adequado, é um fator motivador ao colaborador. A entrega passa a ser o foco. E o que se tem visto é que a produtividade tem aumentado, os custos das empresas diminuído e o que é melhor, colaboradores mais motivados”, destaca a professora.

Também não se pode esquecer das mudanças de perfil dessa nova geração, que é marcada por jovens que nasceram em um contexto tecnológico desenvolvido, e que exige do mercado de trabalho adaptação, não apenas no ambiente organizacional, mas também na gestão de talentos.

Já para Pedro Pittella, as inovações nas relações de trabalho podem ser observadas nas multiplataformas de comunicação.

“Antigamente você conhecia da empresa somente a área em que atuava. Hoje é possível trabalhar e ter a visão do todo, entender que o seu trabalho impacta em várias áreas. Esse senso de responsabilidade e colaboração dá ao colaborador a real importância de seu papel na empresa. Também as novas formas de trabalhar em times multifuncionais e seguindo a metodologia ágil cria novas funções que até pouco tempo não existiam. Tudo caminha para mais flexibilidade e empoderamento”, considera o diretor de RH da Sanofi Brasil.


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