A importância da astronomia para a transformação tecnológica

Os estudos na área são capazes de gerar soluções úteis ao avanço da sociedade em geral

A importância da astronomia para a transformação tecnológica

Segundo dados apresentados pela Agência Espacial Brasileira, somente em 2018 foram gastos cerca de U$70 bilhões pelas empresas governamentais espaciais de todo o mundo. Os investimentos foram feitos, em sua maioria, pelos Estados Unidos, China e Japão. Com o alto valor envolvido na pesquisa em inovações no setor, a sociedade em geral também acaba sendo beneficiada.

Entre os exemplos mais práticos desses avanços estão a descoberta e o aprimoramento dos sistemas de câmeras dos smartphones e o do GPS. Além disso, recentemente, a descoberta do Hélio-3, que pode se transformar em um combustível limpo para viagens interplanetárias, tem levado países a explorarem o que os chineses chamam de “a energia do futuro”. Esses são apenas alguns dos fatores que indicam que o debate sobre a importância da astronomia em prol da transformação tecnológica é atual e necessário.

A importância da astronomia para o desenvolvimento

A astronomia é uma ciência que analisa corpos celestes que se localizam fora da atmosfera da Terra. Considerada por alguns uma das áreas do conhecimento mais antiga, ela auxilia no entendimento da formação e do desenvolvimento do universo. E, para tanto, investimentos em pesquisas espaciais, equipes, infraestrutura e testes são primordiais.

Ao pensar no aspecto histórico, Denisson Guimarães, graduando em bacharelado em física e monitor do Observatório Didático de Astronomia da Unesp, considera que o término da Segunda Guerra Mundial (1945) e a Guerra Fria (1947-1991), que foram palco da corrida espacial, representam o período de maior destinação de recursos financeiros para fins tecnológicos da história da humanidade. Graças a essa disputa, tecnologias foram produzidas ou aperfeiçoadas.

“Na prática, para estudarmos os astros de maneira geral, precisamos ter novos equipamentos, sejam eles foguetes, naves espaciais, telescópios, roupas, ferramentas e, claro, computadores de alto desempenho. Atualmente, toda a parte digital teve seu maior desenvolvimento com as pesquisas espaciais, já que, com a necessidade de processar grandes quantidades de informações e dados, ela se tornou imprescindível”, afirma Cláudio Carvalho, bacharel em física e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para o profissional, a corrida espacial não parou e não vai parar, apenas o contexto que se modificou. Consequentemente, a astronomia vai continuar ligada aos desenvolvimentos tecnológicos.

“Basta ver os projetos para montar uma base na Lua, a ida à Marte, além de outros objetivos, como revisitar o planeta Vênus e as luas de Júpiter. Olhando, por exemplo, para a base lunar, depois que os primeiros humanos chegarem lá, vários estudos surgirão em vista de novos problemas. A necessidade de naves espaciais mais rápidas já está sendo parcialmente atendida com novas pesquisas, pois quando tratamos de dimensões astronômicas, precisamos de velocidade”, explica Denisson Guimarães.

“A astronomia tem um papel fundamental para o desenvolvimento científico. Muitas das coisas que temos nos dias atuais são provenientes da incessante necessidade do homem de entender o universo em que ele vive e dos embates dos países envolvendo interesses políticos”, pontua. Para ele, o aprimoramento de telescópios e observatórios trarão muitas informações acerca do universo que mudará a compreensão enquanto civilização.

O setor aeroespacial também terá impacto e será um dos maiores protagonistas da próxima revolução tecnológica. Muitas agências espaciais privadas, como a Space-X e Blue-Origin, já entenderam esse potencial e desenvolvem programas ousados de turismo e exploração espacial juntamente com agências governamentais. “Nunca estivemos tão perto de mandar um humano para outro planeta e não me restam dúvidas que esses programas, assim como na corrida espacial, trarão tecnologias significativas”, salienta.

Tecnologias do cotidiano advindas da astronomia

Embora seja um segmento bem específico, as pesquisas em astronomia podem gerar resultados que vão além do escopo previsto e que acabam tendo aplicações no cotidiano da sociedade em geral – daí surge a capacidade da temática em atuar como mola propulsora de novos saberes. Cláudio Carvalho e Denisson Guimarães elencam alguns desses recursos:

• Velcro;
• Celulares (via pesquisas em semicondutores, processos de miniaturização, polímeros, ligas e filmes metálicos);
• Câmeras fotográficas;
• Computadores;
• Comida congelada/desidratada;
• Forno de micro-ondas;
• Freezer;
• Cryocooler;
• Satélites meteorológicos;
• Satélites de monitoramento para uso agrícola;
• Tênis de corrida;
• Espuma para travesseiros;
• Pneus mais seguros para veículos.

Todavia, para o monitor do Observatório Didático de Astronomia da Unesp Bauru, a área não tem o seu potencial completamente explorado por alguns motivos. “Atualmente, nos encontramos em um mundo totalmente conectado e dependente dessas tecnologias. A sociedade consome o produto final sem nem mesmo entender que isso demanda tempo para ser desenvolvido e produzido em larga escala. Para progredir, é necessário, cada vez mais, investimento em ciência, capacitação de profissionais, condições laboratoriais de trabalho e políticas fiscais que permitam e estimulem o livre desenvolvimento tecnológico”, coloca.

O papel do Brasil nos estudos astronômicos

A importância da astronomia para o desenvolvimento de pesquisas e da transformação tecnológica é clara, e o Brasil, em comparação com outros países, não fica muito para trás, pois existem diversos estudos em andamento no INPE e nas universidades (USP, UFRGS e Unesp).

Tanto que em 28 de fevereiro de 2021, o país lançou o Amazônia-1, o primeiro satélite 100% produzido por cientistas brasileiros com tecnologia nacional e apoio do setor privado aeroespacial interno. Esse foi um marco para a tão sonhada autonomia tecnológica, que impulsiona o desenvolvimento de indústrias desse setor e a retenção de talentos no Brasil.

Entretanto, Denisson Guimarães lembra que, mesmo tendo uma posição geográfica favorável, é graças a cooperação internacional que o país consegue se manter dentre as potências com maior produção na área, sendo referência na América do Sul.

Talvez por isso existem diversos brasileiros trabalhando no exterior, na agência norte-americana NASA ou na Europa com a ESA, e participando de projetos de grandes telescópios e equipamentos no geral no Chile. Por isso, Cláudio Carvalho faz um alerta. “Não é possível ter um país desenvolvido sem o ensino de qualidade em física, matemática e química. Temos que enfrentar nossos reais problemas, chega de soluções paliativas”, completa.

“Se o país investir pesado em ciência e tecnologia, principalmente no setor espacial, colheremos muitos frutos que poderão nos beneficiar enquanto povo e economia. Isso é fundamental para que tenhamos um país soberano e autossuficiente. A única coisa que precisamos é acreditar em nosso potencial e haver a implementação de políticas que forneçam suporte para esse tipo de exploração intelectual”, finaliza Denisson Guimarães.


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