Cresce a presença das mulheres nos conselhos das empresas. O que isso representa?

Apesar do avanço de mulheres na liderança, a representação feminina em cargos executivos e sêniores ainda segue a passos lentos

Cresce a presença das mulheres nos conselhos das empresas. O que isso representa?

De acordo com uma análise divulgada pela consultoria norte-americana Pearl Meyer, o número de mulheres presente nos conselhos das 200 maiores empresas do S&P 500 – o índice do mercado norte-americano de ações, composto com as 500 maiores empresas do mundo – passou de 19% em 2010, para 32% em 2020, um salto significativo de mulheres na liderança.

Mas, apesar do progresso em relação ao número de mulheres nos conselhos dessas grandes empresas, uma pesquisa complementar também da Pearl Meyer revela que esse maior foco e ação demonstrados no nível do conselho não levaram a aumentos na representação feminina em cargos de liderança executiva e sênior, que é de 28%, enquanto a representação geral da força de trabalho feminina na mesma pesquisa é de 48%, em média.

Para a publicitária Flávia Mello, investidora e mentora de empresas fundadas por mulheres e que estão desenvolvendo soluções para o público feminino, como SafeSpace, Oya, Feel, HerMoney e The Feminist Tea, de fato, o número de mulheres no board vêm crescendo e isso é uma sinalização positiva de que a diversidade de gênero tem ganhado outras proporções.

“Contudo, ao olhar mais cuidadosamente, vemos empresas falando que têm 50% de mulheres no quadro de funcionários e quando vamos olhar no detalhe, todas essas mulheres estão abaixo do nível de gerência, então acaba que não vemos mulheres nos altos cargos de liderança, e muito menos em board. Então, ao ver mulheres ocupando cargos onde decisões estratégicas estão sendo tomadas é muito positivo para a equidade de gênero. Isso é muito significativo, pois vemos que existe um teto de vidro onde as mulheres não conseguem passar do nível de gerência, e forçar a presença feminina no conselho administrativo é uma forma de começar a mudança de cima para baixo, e não de baixo para cima, como tem sido feito há muito tempo sem mudanças expressivas na diversidade de gênero das empresas”, considera a publicitária.

Mas, ela faz um alerta: “por outro lado, se a gente for olhar os números, não podemos nos esquecer que 32% não é 50%. A gente fala que é um número animador, é uma mudança significativa sim, mas é o famoso ‘cresceu de nada para alguma coisa’. Então, 32% ainda não é equilibrado”, considera Flávia Mello.

Disparidade de gênero: um olhar que vai além dos números

Para a mestre em direito constitucional e gestora da Condurú Consultoria, Simone Gallo, a maior representatividade de mulheres em conselhos consultivos e de administração tem sido uma grande conquista, decorrente de holofotes colocados pelo mundo para este ambiente que, historicamente, era ocupado por homens com muitos anos de experiência, em um mercado corporativo tradicional.

As demandas externas de governança, pautas ESG e holofotes para algo tão intrínseco da empresa fez com que a pressão aumentasse para a representatividade das mulheres.

Contudo, Simone Gallo pondera que, mesmo em cargos de alta liderança, é essencial que as mulheres tenham voz para poder apresentar o que tem sido feito, a partir da chegada de alguém heterogêneo.

“Outra questão importante: a mulher está no conselho, mas será que tem voz? É ouvida ou continua ocorrendo com ela o que ocorre em muitas empresas e ambientes? Mansplaining e manterruping (quando um homem explica coisas óbvias à mulher, e quando um homem interrompe a fala de mulheres), podem gerar efeito de tornar neutra ou muitas vezes nula a participação da mulher neste ambiente, historicamente machista. Isto porque precisamos entender se os iguais que historicamente ocupam aquele espaço estão abertos para ouvir alguém que nunca ocupou aquele espaço e aquela cadeira”, pontua a gestora da Condurú Consultoria.

Não é “mimimi”

A disparidade nos cargos de liderança tem muitas influências. O acúmulo das funções domésticas ainda muito concentrado na mulher, o cuidado dos filhos e a gestão do lar, por exemplo, ainda são muito mais concentrados na mulher do que no homem.

Dados da pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher e a Cidade”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o IBOPE Inteligência revelam que 36% das mulheres ficam mais com o filho do que a outra pessoa que cuida, e 33% das mulheres não dividem cuidados com ninguém. Ou seja, 69% das mulheres cuidam sozinhas ou praticamente sozinhas dos filhos.

Dados do IBGE também revelam que mais de 80% das crianças no Brasil possuem a mãe como primeira responsável e 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai no registro, por exemplo.

Portanto, as outras atividades que são extra-profissionais são muito desbalanceadas, e elas recaem muito sobre a mulher. Além disso, outros aspectos têm a ver, realmente, com o preconceito.

“Vemos, inclusive, que muitas mulheres têm dificuldade de avaliar outras mulheres tão positivamente quanto os homens. As mulheres precisam ter performances muito superiores para ter avaliações parecidas com a dos homens. Diversos aspectos relacionados à vida pessoal e profissional que ainda carrega todos os estigmas e todos os preconceitos, e a falta de inclusão para a mulher no ambiente de trabalho, a falta que ela tem de apoio, de mentoria, de networking, porque tudo é marcado por muitos anos de disparidade de gênero”, pondera Flávia Mello.

É hora de as empresas se adequarem

Para a publicitária, para mudar o cenário de equidade de gênero em empresas, é preciso continuar falando sobre isso.

“Essa conversa nunca pode sair de pauta. Primeiro porque é necessário que a gente equilibre o mundo para que ele seja mais justo. Segundo porque, realmente, constrói empresas com culturas mais fortes e mais resilientes – em um ano onde passamos por uma crise sem precedentes, a gente vê o quanto culturas corporativas são fundamentais para que as empresas prosperem nesse cenário. Terceiro porque diversas pesquisas mostram o quão lucrativas as empresas são quando são mais diversas e têm esse foco de trazer diferentes pontos de vista para as tomadas de decisões”, enumera Flávia Mello.

Na visão da publicitária, o consumidor é diverso, logo, os tomadores de decisão também devem representar essa diversidade da população e do consumidor.

Mulheres na liderança

O cenário da mulher no mercado de trabalho é tão diverso quanto o próprio mercado de trabalho. Contudo, para avançar rumo à equidade de gênero é preciso que a mulher tenha condições iguais, independentemente do mercado onde ela atua.

E isso extrapola o contexto empresarial e o ambiente de trabalho, mas passa também pelo apoio, pela rede que ela tem para ajudar, principalmente na criação dos filhos, e no acesso que ela tem à educação.

“Precisamos ficar de olho nos índices de violência doméstica, de violência sexual, pois tudo isso influencia muito na performance que essa mulher tem no trabalho, no que ela faz em seu ofício. Precisamos fortalecer a sociedade como um todo para que a gente garanta que essa mulher tenha condições igualitárias de entrar em um mercado competitivo como o que temos hoje. Nos dias atuais, a briga, definitivamente, não é justa. Temos mulheres sobrecarregadas com todas as outras funções, com todas as violências e com todas as outras desigualdades que existem”, salienta Flávia Mello.

Sendo assim, ter mulheres nos conselhos administrativos pode ser considerado um grande avanço. Apesar dos números ainda não serem tão animadores como poderiam ser, eles são um indício de que as coisas podem começar a melhorar a partir de agora se todos nós – homens e mulheres – tivermos comprometidos a mudar esse cenário, não por filantropia, mas porque já foi provado que é mais rentável e que constrói empresas mais fortes e mais lucrativas – que, no final, é o que todas as empresas querem ser.


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