Home office e burnout: como identificar crises e obter qualidade de vida

Muito além do estresse diário, a síndrome requer atenção especial

Home office e burnout: como identificar crises e obter qualidade de vida

A síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, é um distúrbio emocional que resulta de situações de trabalho desgastante e que demandam muita competitividade ou responsabilidade, segundo o Ministério da Saúde. A principal causa da doença é justamente o excesso de tarefas, comum em profissionais que atuam diariamente sob pressão constante.

Contudo, no último um ano e meio, por conta da pandemia de Covid-19, não só esses tipos de funcionários apresentaram sintomas da síndrome, uma vez que o home office, medida de apoio ao isolamento social para conter o vírus, se tornou realidade e alterou a rotina de trabalho de indivíduos que nunca haviam experimentado o formato.

Por isso, é relevante entender quais são os sinais do burnout para que, mesmo em trabalho remoto, o colaborador saiba o momento certo de procurar ajuda profissional a fim de manter sua saúde mental em ordem.

Estresse x burnout: como identificar uma crise

Dizer que está estressado devido à alta demanda no trabalho é algo que existe desde antes da pandemia. Mas quando o mundo vira de cabeça para baixo de um dia para o outro, é necessário dar mais atenção às manifestações físicas e psicológicas. Afinal, as atividades presenciais ficaram suspensas por um longo período e a casa se tornou o espaço para todas as experiências: estudos das crianças, delivery de refeições, compras on-line e por aí vai.

A psiquiatra do Hospital Santa Paula, Lívia Beraldo, reforça que com o home office, toda hora se tornou hora de trabalho e de cumprir prazos. “No modelo de trabalho presencial, ficava bem definido onde começava o trabalho e onde começava a vida pessoal. Temos que estabelecer limites para que a jornada seja menos exaustiva”, complementa.

E é nesse ponto que Luciene Bandeira, psicóloga, cofundadora da Psicologia Viva – maior player digital de saúde mental da América Latina – e integrante do Grupo Conexa, diferencia historicamente o estresse, enquanto reação natural perante os fatos, de algo prejudicial à saúde.

“O estresse é um mecanismo psicofisiológico de grande importância para a sobrevivência dos animais e dos seres humanos. No passado, quando nossos ancestrais das cavernas se deparavam com situações de perigo, precisavam reagir imediatamente para se defender. Essas reações às ameaças desencadeiam uma série de ajustes no corpo: o coração se acelera, a respiração fica mais rápida e uma cascata de marcadores químicos (adrenalina, noradrenalina e cortisol) é derramada para preparar o organismo para a ação”, explica. Nesse caso, por atuar de forma positiva, o estresse é chamado de eustress.

“Entretanto, após séculos, na vida moderna, outras situações nos colocaram à prova, como pressões para atingir metas, o trânsito congestionado ou o acúmulo de pequenos problemas que se repetem todos os dias. Isso pode afetar a saúde, a qualidade de vida e a sensação de bem-estar”, afirma a especialista. Por causar desgaste de energia, essa manifestação é conhecida por distress.

Pensando nas formas com as quais o estresse se expressa no organismo, a psicóloga, cofundadora da Psicologia Viva e integrante do Grupo Conexa elenca os principais sintomas:

● Psicológicos/emocionais: cansaço mental, perda de memória, falta de concentração, apatia e desânimo, ansiedade, preocupação excessiva, alterações de humor, irritabilidade excessiva, incapacidade de relaxar, sentimento de solidão e isolamento, depressão ou tristeza, evitar responsabilidades, relaxar através de vícios (tabaco, álcool, drogas);
● Físicos: sensação de cansaço, dores musculares, dores de barriga, azia, tonturas e náuseas, tiques nervosos, perturbações no sono e alimentação, alterações nos níveis de colesterol e triglicerídeos, dores de cabeça e no peito, alergias, queda de cabelo, herpes e taquicardia.

Desse modo, no âmbito laboral, as consequências negativas de altos níveis de estresse são percebidas pelas licenças médicas e faltas ao trabalho, queda de produtividade, desmotivação, irritação, impaciência, dificuldades interpessoais, relações afetivas conturbadas, divórcios, doenças físicas variadas, depressão e ansiedade.

Para prevenir o estresse, a melhor maneira, segundo Luciene Bandeira, é afastar os fatores que causam esses sentimentos e reservar um tempo para o autocuidado, seja através da prática de exercícios físicos, acupuntura ou meditação.

“Melhorar a qualidade das estratégias de enfrentamento também é de extrema importância para evitar o adoecimento. A psicologia pode contribuir, pois auxilia a pessoa a encontrar padrões de comportamento, atenção e motivação para enfrentar os estímulos estressores. Assim, ela usará seus esforços para manter, restaurar ou reparar as necessidades básicas de relacionamento, competência e autonomia”, descreve.

Porém, é necessário ficar alerta: o indivíduo deve começar a desconfiar de que o estresse se tornou algo a mais quando as reações físicas são em níveis patológicos ou evidenciam sintomas de doenças, segundo Alfredo Maluf Neto, psiquiatra do Hospital Albert Einstein.

“Podem acontecer somatizações, desde cardiovasculares, neurológicas, osteomusculares musculares, até gástricas. No campo psíquico ou emocional, é possível desenvolver transtornos ansiosos, depressivos, insônia ou quadros graves, como psicoses”, elenca o médico.

Um desses sintomas é a síndrome de burnout – uma espécie de expressão máxima do estresse. Seus sinais, que são um pouco mais complexos e estão exclusivamente relacionados às preocupações do trabalho, podem ser divididos em três dimensões:

● Exaustão emocional: sensação de esgotamento de recursos físicos e emocionais;
● Despersonalização/cinismo: reação negativa ou excessivamente distanciada em relação às pessoas que devem receber o serviço;
● Baixa realização pessoal: sentimento de incompetência ou perda de produtividade

Isso acontece porque o burnout é um quadro contínuo e crônico, que se repete ao longo de grandes períodos. Ou seja, não é só mais um dia estressante de serviço. “Observar os sinais que podem prenunciar uma crise é fundamental, como alteração do sono, fadiga, ansiedade e mudanças de humor. Com isso, deve-se redimensionar a duração das atividades laborais e até mesmo procurar ajuda psicológica e/ou médica”, pontua Alfredo Maluf Neto.

Para tanto, o primeiro passo é o paciente reconhecer que está em crise ou desenvolvendo burnout. “É importante que as pessoas que estão ao redor, como a família, conversem e fiquem atentas aos sinais. No entanto, só um profissional qualificado poderá fazer um diagnóstico adequado e indicar a melhor forma de tratamento”, coloca Lívia Beraldo.

Dicas para ter mais qualidade de vida

Cada caso da síndrome requer atendimento individualizado para melhor amenizar os sinais e sintomas, mas Luciene Bandeira, Alfredo Maluf e Lívia Beraldo listam ações e alterações gerais de rotina que proporcionam momentos de bem-estar dentro de casa.

Respire e expire
Respire lentamente, utilizando o diafragma, e solte o ar pela boca. É importante tentar manter pensamentos positivos e o foco na solução, e não no problema para que as coisas se ajustem.

Regule as horas de sono
O ideal é dormir oito horas por noite, mas é possível encontrar pessoas que dormem menos de seis. Isso prejudica o bom funcionamento do organismo e afeta o humor, por exemplo.

Pratique atividades físicas regularmente
Movimentar o corpo ajuda a aliviar o estresse, além de liberar substâncias associadas ao prazer, como a endorfina.

Concilie as atividades de trabalho com o lazer
Ter equilíbrio na rotina é essencial para dar o descanso que o corpo humano requer. Produtividade não é sinônimo de trabalho 24 horas. É preciso relaxar e ter tempo para se dedicar aos hobbies. Corpo são, mente sã.


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