De olho em mercado inexplorado, fintechs investem no interior do Brasil

Regiões menos urbanizadas podem atrair novos clientes, e fintechs estão de olho no consumidor não-bancarizado ou sub-bancarizado

De olho em mercado inexplorado, fintechs investem no interior do Brasil

O cenário financeiro brasileiro tem sido solo fértil para as fintechs. Só no primeiro quadrimestre de 2021, 4 bilhões de dólares foram investidos nas startups financeiras do país – um número que tende a aumentar, à medida que outros players importantes atinjam seu pleno desenvolvimento.

Os dados são do Distrito, plataforma que reúne o maior banco de dados sobre startups e inovação do Brasil. Segundo a empresa, o setor de fintechs vêm numa crescente desde 2012 e apresentou crescimento exponencial no biênio 2019-20, quando superou a marca de 1 bilhão de dólares por dois anos seguidos.

Dentre tantos fatores sócio-culturais para essa efervescência, podem ser considerados o tamanho do Brasil, com mais de 213 milhões de habitantes, assim como o amplo mercado consumidor ainda não-bancarizado ou sub-bancarizado e a enorme concentração bancária.

Segundo o Relatório de Economia Bancária do Banco Central, em 2020 as cinco maiores instituições bancárias do país concentravam cerca de 79,2% do mercado bancário. Na outra ponta, de acordo com dados da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (CONTRAF-CUT), apenas entre os anos de 2019 e 2020, foram fechadas 558 agências bancárias no país.

Para fechar essa equação, segundo dados do Instituto Locomotiva, em 2019, o Brasil ainda tinha 45 milhões de pessoas sem conta bancária. Destes, 61% estavam fora dos grandes centros.

Fintechs trazem boas alternativas para o interior

De acordo com Frederico Pompeu, sócio e head do boostLAB, hub de negócios de tecnologia do banco de investimentos BTG Pactual, nos últimos dez anos, as fintechs democratizaram o acesso de milhões de brasileiros a serviços financeiros e bancários que antes demandava uma viagem para outra cidade, por exemplo e, dessa forma, os serviços são mais inclusivos, pois são menos demorados e burocráticos.

“Se antes era preciso uma série de documentos e comprovantes para abrir uma conta em um banco, hoje isso pode ser feito em poucos minutos, de casa e com segurança. Além disso, algumas fintechs oferecem cartões e contas sem a tradicional anuidade”, diz.

“Outras são especializadas em um público específico, como os idosos e, com isso, investem na usabilidade e experiência do cliente com o aplicativo. E principalmente, por serem digitais, as fintechs chegam onde muitos bancos não têm uma agência física, como em locais periféricos e municípios mais isolados do interior do país”, elenca Frederico Pompeu.

O head do hub de negócios do BTG Pactual também acredita que o Open Banking virá para ampliar ainda mais a inclusão dos brasileiros aos serviços financeiros. “Os usuários que aceitarem participar, receberão das fintechs e dos bancos tradicionais ofertas de serviços e produtos com condições e taxas personalizadas ao seu perfil e histórico e, dessa forma, terão o direito de escolher diferentes empresas para cada operação e ainda centralizar tudo em um único lugar: no aplicativo que eles escolherem”, destaca.

Para Frederico Pompeu, outro fator catalisador para o avanço das fintechs no interior do país é o fechamento das agências bancárias por parte dos grandes bancos em atuação no Brasil.

“O fato é que antigamente os bancos precisavam dessa capilaridade para chegar até os clientes. Havia um lado muito forte na questão do relacionamento físico entre gerente e cliente, mas o mercado mudou, as pessoas se transformaram, então hoje os clientes buscam uma experiência ágil e digital, com isso as fintechs ganharam um espaço muito grande que tem ainda muito a crescer”, acrescenta.

Contudo, o executivo revela um detalhe importante: nem todos os nichos são tão simples assim. No setor agrícola, por exemplo, ainda existe uma demanda muito grande dos bancos conhecerem de perto os produtores, principalmente para que os créditos sejam dados da maneira correta, mais justa e confiável.

Entretanto, o mercado agrícola já se movimenta para gerar informação, sem necessariamente estar perto do produtor rural.

“Um excelente exemplo é uma investida que temos, que é a do Agro, pois eles conseguem analisar de forma remota qualquer área agrícola do Brasil, sabendo se o produtor planta bem ou não, sem necessariamente ter tido contato direto com ele nos últimos anos. É importante ressaltar que o monopólio que alguns bancos tinham em relação à informação do produtor está acabando. Isso de certa forma diminuiu a necessidade da agência bancária física”, afirma Frederico Pompeu.

Mobile banking em ascensão

O fato é que a pandemia foi outro acelerador para dois fatores importantes na escalada das fintechs para o interior: fechamento de agências bancárias e crescimento vertiginoso do acesso à internet para resolver quase tudo bem na palma da mão.

Em 2020, pela primeira vez, as transações realizadas em aplicativos bancários representaram 51% do total das operações feitas no país, de acordo com a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2021. Isso significa que muita gente que ainda resistia ou tinha alguma objeção em relação ao uso dos bancos online passou a usar o serviço. O número de transações feitas pelo celular chegou a 52,9 bilhões, ante 37 bilhões no ano anterior.

Ainda de acordo com a Febraban, 34% de todas as transações bancárias no Brasil em 2020 foram feitas por meio dos smartphones; no mesmo período, o acesso pelo computador foi responsável por apenas 23% dessas movimentações, demonstrando o progresso da digitalização bancária por meio do celular.


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