A hora e a vez da logística: o que o consumidor espera de inovações do setor?

Novas práticas, impulsionadas pela pandemia e com foco na experiência do consumidor last mile, já são vistas no mercado

A hora e a vez da logística: o que o consumidor espera de inovações do setor?

O setor de logística vem crescendo de forma importante desde o começo da pandemia e em todo o mundo. No primeiro trimestre de 2021, por exemplo, o PIB do transporte terrestre cresceu 3,6% no Brasil, segundo o Radar CNT do Transporte. Esse aumento é reflexo de um impacto provocado pelas compras online.

Segundo Patrícia Tiensoli, CEO da Total Transportes e Logística, esse baque é percebido nos pedidos que chegam à empresa. “Se antes havia uma folga, um respiro maior entre as demandas para atendimento de lojas do segmento varejista, com cerca de três a quatro dias, hoje recebemos demandas para carretos em 24 horas”, exemplifica.

“Um erro no início do processo, um atraso que seja, gera um efeito dominó que termina lá na casa do consumidor. Temos que estar preparados, com veículos com manutenção em dia, profissionais experientes, usar de tecnologia para garantir a entrega e atuar com muita seriedade. Isso vale do first mile até o last mile”, afirma.

A companhia tem clientes do varejo e indústrias e presta serviço de transporte, cross docking e abastecimento de lojas com produtos de linha branca, eletro portáteis, móveis, tintas e por aí vai. “Trabalhar a logística é um verdadeiro balé, tudo precisa ser sincronizado e muito bem calculado. Quando o cliente me pede para fazer o serviço em 24 horas, considero que tenho 18”, explica a profissional.

Diante de tudo isso, é inevitável que os gestores do setor pensem em como a tecnologia pode gerar inovação e, consequentemente, uma transformação cultural do segmento. Por isso, é primordial compreender como o cenário atual se construiu.

Tudo é logística – e o consumidor quer o melhor serviço

De acordo com relatório da Neotrust, o e-commerce brasileiro registrou mais de 300 milhões de compras e teve faturamento superior a R$126 bilhões em 2020. Esse crescimento levou também grandes redes varejistas a disputarem o título de quem entrega mais rápido, motivadas pelas preferências do consumidor.

Além disso, pesquisa sobre consumo global da PwC mostrou que, no país, 47% dos consumidores consideram que a capacidade de entregar o produto de forma rápida e demonstrar confiabilidade é um dos pontos mais importantes na hora de comprar on-line.

O mesmo estudo revela que 41% dos clientes estão dispostos a pagar a mais para receber seu produto no mesmo dia, e 24% pagaria também a mais para receber o pedido em, no máximo, uma ou duas horas. A questão central, nesse caso, é bem clara: atender com precisão às demandas, já que o consumidor está cada vez mais exigente em suas compras on-line e, consequentemente, as organizações que contratam o serviço de transporte também.

Para Amaury Vitor, economista e gerente de operações da DHL Express, o incremento das vendas digitais veio para ficar e o setor expresso claramente tem um papel fundamental nesta demanda, haja visto que os consumidores querem seus produtos no menor tempo possível, com previsibilidade e alternativas de entrega, em tempos e locais alternados, o que o setor de carga expressa tem totais condições de ofertar.

Outro ponto de atenção que as transportadoras devem levar em consideração é a instauração e popularização, desde o ano passado, de um novo modelo de compra, o click & collect. E nessa disputa entre quem entrega primeiro, aprimorar processos em necessário em toda a cadeia logística – desde a carreta que atravessa estados e transita entre centros de distribuição até o pequeno caminhão de entrega.

“Se antes a preocupação era com os galpões e CDs, hoje é preciso dar atenção ao abastecimento das lojas das próprias redes e também lojas parceiras que se transformaram em hubs”, compara Patrícia Tiensoli.

Na prática: fintech conecta logística e tecnologia

Foi lançado, em agosto de 2021, o Venda+ Empreendedores Digitais, serviço que permite iniciar um negócio próprio on-line sem precisar ter estoque. A plataforma foi criada para aqueles que desejam aproveitar oportunidades de trabalhar com e-commerce, mas não querem lidar com a complexidade de estruturar e operar uma loja virtual do zero. Resultado de uma joint-venture entre a Afinz e a Venda e Cia, o negócio funciona no modelo dropshipping.

Nele, o vendedor é responsável pela comercialização dos produtos, mas todas as demais etapas – produção, entrega, faturamento, gestão de estoques e fornecedores, pagamento e outras obrigações – são garantidas pela Afinz e seus parceiros. Com o auxílio de templates prontos, os lojistas ficam responsáveis pela criação da loja virtual. O empreendedor é quem escolhe os produtos que estarão nas suas prateleiras.

Ele também pode definir os preços com auxílio de inteligência artificial, margem de lucro desejada e personalizar a aparência da loja. Daí, pode se concentrar na divulgação do seu espaço virtual. Ainda há opção de integrar a loja com ferramentas como WhatsApp, Instagram e Facebook para impulsionar a exposição e os acessos.

Para o presidente e CEO do grupo da Afinz, Claudio Yamaguti, outra vantagem de usar o sistema é o acesso simultâneo a múltiplas opções de produtos. Isso porque caso o empreendedor optasse por uma solução própria, a complexidade de lidar com vários fornecedores seria bem maior.

“A nossa missão é usar a tecnologia para que as pessoas possam ter suas necessidades atendidas de forma simples. E, com ajuda de nossos parceiros integrantes de nossa plataforma aberta, oferecemos todas as condições para que cada empreendedor faça a sua loja do seu próprio jeito”, diz o executivo.

Quanto aos bastidores, o especialista conta que todo processo de produção, faturamento e expedição fica a cargo dos fornecedores. No entanto, é possível otimizar processos logísticos, fiscais e de meio de pagamento através de integrações, split payment e compensação fiscal.

“O serviço trabalha com tecnologia capaz de realizar cálculo de frete por múltiplas origens. Ou seja, podemos ter fornecedores espalhados por todo o país que conseguem entregar os melhores valores de frete baseados na origem do fornecedor x destino do comprador”, exemplifica.

A plataforma possui carrinhos compartilhados para todos os lojistas, o que permite com que o comprador realize pedidos contendo produtos e fornecedores diferentes, efetuando um único pagamento, igual ao que ocorre em grandes marketplaces do mercado.

“Os lojistas revendedores têm flexibilidade para definir o seu próprio preço de revenda. E, assim, conquistam os seus ganhos sobre as vendas com total liberdade, sem se preocupar com comissões tabeladas”, expõe Claudio Yamaguti.

Inovações do setor nos últimos tempos

Sobre o comportamento do cliente, pesquisa da PwC também mostrou que os consumidores estão mais adeptos a compras em lojas locais, ou seja, perto de casa. Isso significa que eles estão buscando cada vez mais produtos em pequenos comércios.

E isso representa um desafio para o setor de logística em todo mundo, já que as transportadoras vão ter que capilarizar suas entregas. Cada vez mais, os clientes exigem máximo conforto, querem comprar sem sair de casa, retirar perto de casa ou receber em curtíssimo prazo.

A CEO da Total Transportes e Logística prevê que os smart lockers, que já existem nos Estados Unidos e funcionam como terminais inteligentes para postar e retirar encomendas, são tendência. Eles costumam ser instalados em pontos urbanos estratégicos e lugares com grande circulação de pessoas, como estações de metrô e shopping centers.

Em cidades menores, lojinhas de bairro, postos de combustíveis poderão ser pontos de retiradas, o que facilitará a vida de todo mundo. Para o transportador, por exemplo, reduzirá o índice de reentrega nas situações em que o cliente não é encontrado em sua casa. Confira também outras inovações que os especialistas preveem para o segmento:

● Veículos de carga com dispositivo rastreador;
● Sistemas integrados de acompanhamento;
● Aumento e criação de galpões com tecnologia otimizada para uso de robôs;
● Uso de drones;
● Pick-up store;
● Soluções para o last mile (bikes e crowd shipping);
● E-commerce com integração de ferramentas e plataformas (privacidade, segurança, navegação amigável, agendamento de entregas e logística reversa).

Uma parcela desses exemplos já é possível de ser encontrada no Brasil por meio dos investimentos da DHL Express, previstos em seu plano de sustentabilidade, que visam melhorar a experiência do consumidor last mile.

“Colocaremos em operação nas próximas semanas 10 bikes e cinco scooters elétricas, estimulando o EcoDelivery, e dois caminhões elétricos até o final do ano. Vamos introduzir mais 10 veículos elétricos em 2022 e outros 35 em 2023”, revela Amaury Vitor.

Em suas instalações no Gateway de Viracopos, em Campinas, a companhia está captando energia através de placas solares. Da mesma forma, fez parceria com uma rede de armários inteligentes, a Clique Retire, para oferecer mais pontos de retirada de mercadorias, com ampla oferta de endereços e maior flexibilidade de horários, e ampliou a rede de parceiros comerciais que oferecem pontos de postagem e drop-off.

A empresa, através da Divisão Aviation, também comprou oito novos Boeing cargueiros 777- cujas entregas estão previstas para 2022 – fechou parceria com a startup Eviation para a compra de 12 aviões elétricos. Por fim, em várias cidades da Europa, Ásia e Estados Unidos já estão em operação triciclos elétricos com boa capacidade de carga e excelente agilidade. Essas ações foram iniciadas com o intuito de alcançar a meta de redução de emissões líquidas a zero até 2025.

A logística brasileira em relação aos países do exterior

Tratando-se da evolução do setor de logística no país é natural que surjam comparações com as outras potências. Em relação aos países de primeiro mundo, em uma análise geral, Patrícia Tiensoli acredita que há uma desvantagem no que tange à qualidade das estradas, mas que a aposta em utilização de inteligência artificial está no caminho correto.

“Nosso setor está na expectativa que o Documento Eletrônico de Transporte (DTe) venha para facilitar processos, o que reduz substancialmente a necessidade de papel nas operações e traz impacto positivo ao meio ambiente”, exclama.

Amaury Vitor, economista e gerente de operações da DHL Express coloca que o país ainda tem gargalos na infraestrutura logística, que precisam ser resolvidos rapidamente, principalmente nos modais rodoviários – estradas em péssimas condições -, aéreo e marítimo – desburocratização na liberação alfandegária e vistoria de cargas -, além das questões fiscais (bi tributação) e segurança (altos índices de roubos).
Claudio Yamaguti comenta que quando o assunto é dropshipping, o Brasil está apenas engatinhando em relação à China, porque os comerciantes on-line de lá conhecem esse modelo de negócio e o operam com sucesso. “Acredito que temos muito pano para manga para costurar daqui pra frente. O nosso país é muito rico em diversidade, empreendedorismo e criatividade, não tenho dúvidas de que avançaremos bastante, é só uma questão de tempo”, finaliza.


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