Vocês vão me abandonar agora? #diganãoaoetarismo

No Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado nesta sexta-feira, 01, a colunista Tati Gracia divide os seus aprendizados do curso de Gerontologia, que estuda e conhece mais a fundo o nosso processo de envelhecimento

Tudo começou em janeiro deste ano. Quando finalmente optei por fazer o curso de Gerontologia, para estudar e conhecer mais a fundo o nosso processo de envelhecimento. Foi uma decisão bastante natural para mim, afinal desde sempre sou muito próxima dos idosos, porém até então não tinha percebido que era desse grupo de pessoas que eu mais gostava desde pequena.

Gerontologia

Boas histórias devem ser para sempre

Não por coincidência, quando cheguei a São Paulo, há cerca de 20 anos, vinda do Rio de Janeiro, meu primeiro movimento em território paulistano foi participar de um grupo voluntário chamado Cão Idoso – uma ONG que levava pets para passar os finais de semana em uma ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos). Os cães eram treinados para poderem conviver com os mais velhos e eu adorava passar o sábado com eles.

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Nesse período, muitos dos que ingressavam não davam conta desse compromisso voluntário porque no final de semana seguinte acontecia, invariavelmente, de um idoso não estar mais na instituição. Mas meu caso era diferente: eu queria que aquele fosse o melhor momento que eu pudesse proporcionar a eles. Aquilo era puramente instintivo, não era nada racionalizado, que já me levasse a pensar em um futuro curso de Gerontologia.

Aos poucos, fui observando outros episódios da minha vida que foram me dando indícios de uma conexão real e verdadeira com esse público. No ambiente familiar, pelo fato de ser a primeira neta, eu tive uma relação bastante ativa e especial com as minhas avós, inclusive em relação a um acontecimento que marcou muito a minha vida.

Os óculos que seriam “meus óculos da empatia” são, na verdade, os da minha avó | Arquivo pessoal

Pouco antes da minha avó materna vir a falecer, eu havia pedido seus óculos como “herança”. A razão pela qual eu os queria era simples: tinha vontade de ver o mundo como ela enxergava, ainda que metaforicamente. Hoje, nos momentos em que realmente preciso olhar a vida de uma forma diferente e me colocar no lugar do outro, os óculos que seriam “meus óculos da empatia” são, na verdade, os da minha avó. Com eles, eu consigo enxergar as coisas e o mundo com outro olhar.

“Como não existe um produto para quem acompanhou a marca a vida inteira?”

Quando eu trabalhava na Natura aconteceu outro fragmento bastante interessante. Na época, eu liderava a área de Consumer Insights da empresa para o segmento de skincare e ajudei a lançar a linha Chronos 70+. Aquilo, há mais de uma década, foi um movimento diferenciador para a marca e marcante na minha vida.

Eu me lembro como se fosse hoje: um dos feedbacks mais importantes que obtive sobre a ação veio de um grupo de pesquisa em que se destacou uma senhora. Ela comentou que, na sua opinião, a marca estava bem atrasada em lançar aquela linha de produtos. “Como vocês não vão ter um produto para quem acompanhou vocês a vida inteira! Vocês vão me abandonar agora?” São frases que ainda ecoam na minha cabeça.

O fato é que sempre gostei muito mais de dedicar meu tempo conversando com idosos do que brincando com crianças. Pouco a pouco eu fui percebendo que era uma área que estava genuinamente dentro de mim. Depois que eu comecei a entender e me especializar no comportamento humano, dei o próximo passo: procurei saber o que é o comportamento durante o processo de envelhecimento e quais são, de fato, os temas relevantes na vida desse público.

Empatize com o você de amanhã

O que me impulsionou a me inscrever nesse curso foi a vontade genuína de entender melhor o envelhecimento e quais são as dores físicas e emocionais desse processo para poder empatizar com esse público e, assim, começar a propor comunicações inclusivas e soluções de inovação que fossem mais empáticas e que eu conseguisse de alguma forma, finalmente, influenciar as agendas.

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Então, fui procurar o nível de conteúdo ao qual eu poderia ter acesso para entender mais acerca do processo de envelhecimento à luz da saúde. Encontrei a escola-referência no Brasil: o Hospital Israelita Albert Einstein de ensino e pesquisa, onde o curso fala sobre a área do envelhecimento em si. Mais do que apenas receber um conteúdo para empatizar com os idosos, hoje eu consigo entender muito melhor os meus pais – que já têm mais de 70 anos – e projetar a minha vida e o meu próprio processo de envelhecimento – o que eu gostaria de fazer quando eu tiver 70 anos e qual o plano que eu quero traçar juntamente com a minha família para que eu mesma tenha a possibilidade de escolher e não que escolham por mim.

Deixo aqui o link de acesso a minha pós em Gerontologia – quem sabe você se interessa!

Amar é faculdade, cuidar é dever

Portanto, é um curso que vai muito além de somente pensar sobre a perspectiva da área da saúde e faz você refletir sobre si mesma e se projetar. É quase como se fosse um curso de tendência, mas tendência da vida real.

É um momento rico em que estou aprendendo de tudo – desde planejamento financeiro a quais são as políticas públicas de defesa da pessoa idosa, os direitos e os deveres. Você sabia que é lei que os filhos cuidem dos pais? Pois então… eu sempre tive na minha cabeça que minha obrigação de mãe é cuidar da minha filha e ponto. Não poderia estar mais enganada. Se você tiver interesse no tema, conheça o Estatuto do Idoso, que pode ser bastante útil para você como filho e no seu futuro.

Nesse sentido, existe aqui uma oportunidade enorme e já vemos startups surgindo para impulsionar o movimento. Se você precisa de ajuda para cuidar de algum idoso da sua família, ou gostaria de empreender nesse segmento, dê uma olhadinha no The Gerontechnologist.com. Você, assim como eu, se surpreenderá – pode acreditar!

No Brasil, idoso cuida de idoso

O que vemos muito hoje, no Brasil, é idoso cuidando de idoso. Sim, porque a OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que, a partir dos 60 anos, você é idoso. Então, a realidade brasileira é alguém de 60 anos cuidando de outro idoso de 80.

Segundo a inédita Pesquisa Cuidadores do Brasil, realizada por Veja Saúde e Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) com 2.047 cuidadores familiares e 487 profissionais de todas as regiões do país, seis em cada dez cuidadores familiares têm pelo menos 50 anos e quase 30% estão na casa dos 60 ou mais. Estamos diante de uma geração de idosos cuidando de idosos. Se você dedica parte do seu tempo para cuidar dos seus pais ou avós, te convido a conhecer mais sobre o estudo e entender as dificuldades desse dia a dia.

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Ao problematizar o envelhecimento ativo, a OMS toma por base o conceito de atividade, que está atrelado a quatro pilares: saúde (bem-estar biopsicossocial), participação (social – cidadania – cultural, espiritual), segurança/proteção, e aprendizagem ao longo da vida (aprendizado contínuo formal ou informal). Importante ressaltar que esses eixos podem acontecer simultaneamente e, na medida em que estão interligados; essa divisão é apenas conceitual.

Vale lembrar que, no dia 1° de outubro, é celebrado o Dia Internacional da Pessoa Idosa – a data serve como um alerta para a sociedade civil sobre a necessidade de proteção e cuidados com os idosos.

Muito julgamento e pouco conhecimento

Voltando à abordagem interdisciplinar, um dos pontos que me chamam mais a atenção é primeiramente entender todos os aspectos psicológicos referentes ao tema do curso. Frases que antes usávamos, muitas vezes sem nem nos darmos conta, como “essa pessoa está ficando velha, está ficando teimosa”. Além de ser preconceituosa, é uma afirmação de quem simplesmente ignora o conteúdo. A pessoa, na verdade, sempre foi assim, mas agora o fato dela estar velha também nos faz classificá-la como teimosa. Concluímos que ainda existe muito julgamento com pouco conhecimento.

Na esfera digital, memes aos montes costumam invadir as redes sociais com frases como “vendo gaiola para idoso teimoso”, “velho teimoso” e “idoso parece criança”. Seja de forma implícita ou explícita, isso também é classificado como discriminação contra pessoas idosas, com os mesmos mitos e estereótipos comumente relacionados à velhice. #idadismo #etarismo


Na esfera digital, memes aos montes costumam invadir as redes sociais

Agora pense em alguém falando isso dos seus pais ou mesmo de você daqui a alguns anos! Que tal?

Quando você olha para os seus pais e avós à luz de um curso de Gerontologia, você desenvolve inúmeras habilidades, como a da empatia, e passa a entender porque o outro está se comportando daquela forma. Você começa, então, a querer mudar o seu hoje de forma a garantir o seu amanhã de forma mais saudável.

É um curso que faz você se aproximar da sua família, se preparar melhor para seu futuro envelhecimento e querer colaborar para que a sociedade como um todo se desenvolva e seja mais inclusiva. O mais importante é você entender o holístico e, consequentemente, o impacto que isso gera.

Depois do término de cada aula semanal, invariavelmente eu ligo para os meus pais para pedir desculpas por algo que eu não sabia ou não entendia e talvez tenha criticado, perguntar o que eles acham que eu deveria fazer no meu futuro e dizer que eu amo muito eles porque hoje compreendo as dificuldades que eles passam em determinadas situações.

A potência do curso, portanto, está mais na magnitude de você entender os seus pais e as pessoas com quem você convive, estar consciente de que também vai chegar lá e se preparar para um envelhecimento saudável.

Somado a tudo isso, entender que é seu papel e dever lutar contra o etarismo e o ageísmo, porque você é – e será cada vez mais – parte importante dessa história. Afinal, começamos a envelhecer no momento em que nascemos.

“Este é um sonho coletivo: viver até os 85 anos, não estar doente, não depender de ninguém e estar ativo, incluído. Para isso, é preciso que esta comunidade não exclua.” (Prof. Dr. Alexandre Kalache)

PS: este artigo é dedicado ao Dia Internacional do Idoso, que é celebrado no dia 1º de outubro. Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de sensibilizar a sociedade mundial para as questões do envelhecimento, dando ênfase à necessidade de proteção e cuidados da população idosa.

*Tati Gracia é referência em comportamento de consumo e empatia no Brasil. Mestre em Análise do Comportamento, atua como Diretora de Marketing Excellence da Mondelēz International, é professora no MBA FGV e autora do livro Empatia, humanização além do marketing.


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