O hidrogênio verde pode transformar a indústria e os hábitos de consumo

Adotar medidas sustentáveis se tornou essencial para o futuro das próximas gerações

Foto: Pexels

Mais de 90% da produção mundial é originada por meio de origem fóssil (carvão mineral, gás natural e petróleo), o que produz o chamado hidrogênio cinza, que se torna um forte poluente atmosférico ao liberar gás carbônico. No entanto, através da eletrólise, processo que permite a obtenção de hidrogênio ao utilizar eletricidade de fontes limpas e renováveis, é possível separar o oxigênio e o hidrogênio da água, obtendo, assim, o hidrogênio verde, sem emissão de CO2.

É o que chamamos de combustível do futuro. Afinal, buscar uma solução para descarbonizar a indústria é uma questão de sobrevivência. Para conter o aquecimento global e viabilizar o futuro do planeta, é imprescindível reduzir as emissões de CO2 de forma drástica e rápida. E um dos caminhos é substituir os combustíveis fósseis por recursos renováveis e, nesse cenário, o hidrogênio entra como peça-chave dessa grande transformação, viabilizando uma economia zero carbono.

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Transformação sustentável com hidrogênio verde

A temática se torna ainda mais relevante nos dias atuais, uma vez que o Hydrogen Council calcula que, até 2050, o mercado de hidrogênio verde será responsável por cerca de 20% da demanda de energia no mundo. Ele é estimado em US$ 2,5 trilhões, em 2050, cerca de metade do mercado atual de petróleo. Sua principal vantagem é a versatilidade, que permite a produção de fertilizantes hidrogenados (amônia e ureia), aliar a descarbonização ao setor de siderurgia e oferecer alternativas para a mobilidade.

Nesse sentido, pesquisadores, governos e empresas têm defendido o hidrogênio verde, pois é um dos elementos mais abundantes no planeta e uma matéria-prima muito importante para a indústria. Há décadas existem tecnologias estabelecidas para se produzir esse insumo de forma sustentável e em larga escala, como é o caso da eletrólise da água. O processo é simples e consiste em usar eletricidade de fontes limpas e renováveis para separar o oxigênio e o hidrogênio da água, obtendo, assim, o combustível verde.

“Estou bastante convicto de que o hidrogênio verde será o combustível do futuro, pela sustentabilidade que oferece ao planeta contra o aquecimento global e pela maneira simples em como é obtido. Isso é a tecnologia-chave para a descarbonização do setor industrial, pois, até o momento, é a única tecnologia madura e dimensionada para a produção de hidrogênio verde”, pontua Paulo Alvarenga, CEO da thyssenkrupp para a América do Sul e vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK).

“Os produtos verdes só se tornam economicamente viáveis se forem produzidos e utilizados em escala industrial multigigawatt. Só assim os efeitos do escalonamento podem se refletir em uma estrutura de custos melhorada”, pontua.

Como as empresas se inserem nesse contexto

Muito se fala em ESG e já está claro que as companhias devem ir além dos debates: é necessário agir. Para Alvarenga, o papel das empresas para conter o aquecimento global é crucial, a fim de zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050, meta estabelecida no acordo de Paris, de 2015.

“A thyssenkrupp estabeleceu como objetivo ser uma empresa neutra em carbono até 2050, não apenas em seus próprios processos e na energia comprada, mas também nas emissões de seus produtos. Com isso, até 2030, temos como meta reduzir em cerca de 30% as emissões da produção e na compra de energia, bem como diminuir as emissões do uso dos produtos em 16%”, explica. “A agenda ESG é hoje o principal direcionamento das grandes empresas para guiar os seus investimentos tecnológico e industrial. É inevitável buscar novos caminhos, e a promoção de novas alternativas de negócio, limpas e transformadoras em todos os setores mercadológicos, será decisiva para conduzir o planeta a um futuro mais promissor. No setor de energia, pesquisadores, governos e empresas têm defendido que o hidrogênio verde é praticamente a única opção de conversão e armazenamento, de fato, totalmente sustentável para descarbonizar a economia”, alerta o especialista.

O potencial do Brasil e de suas parcerias internacionais

O Brasil é um dos países com maior potencial de geração de energia elétrica renovável do mundo (mais de 80% da matriz é de energias hídrica, eólica, solar e de biomassa), com um dos menores custos marginais de produção. Isso sem contar que a intermitência das fontes solar e eólica pode ser compensada pela fonte hídrica — uma combinação praticamente imbatível no cenário mundial. Desta forma, o País é candidato a se tornar um dos maiores produtores e exportadores mundiais de hidrogênio verde.

Com capacidade atual de manufatura de eletrolisadores de 1GW por ano, e atualmente ampliando a cadeia de fornecimento para atingir 5GW, a thyssenkrupp é uma das empresas com maior capacidade de fornecimento de plantas de eletrolise de água para produção de hidrogênio verde no mundo, tendo em vista que já forneceu mais de 150 plantas de amônia e mais de 600 plantas de eletrólise em diversos países. E esse processo é ainda mais promissor quando se nota que o Brasil ainda possui uma base industrial instalada, que gera um mercado interno relevante.

Se considerarmos só a demanda do mercado interno, o hidrogênio verde pode ser empregado pelo setor de óleo e gás no refino do petróleo, para produção da gasolina e do diesel. É claro que ainda há de se considerar o diesel verde, obtido pela hidrogenação de óleos vegetais, e que vem sendo acrescido ao diesel convencional de forma crescente no Brasil, mas o hidrogênio verde segue como uma boa alternativa. Outro setor muito importante para a atuação desse novo combustível é o de fertilizantes nitrogenados, o que contribuiria para reduzir os custos de produção do setor agrícola e sua dependência estratégica de um insumo essencial, visto que 80% dos fertilizantes usados no país são importados. Vale ressaltar que a indústria nacional de fertilizantes está estagnada há anos em função do alto custo do gás natural.

Contudo, na maioria dos casos, ainda que tenha vantagens e seja uma alternativa bem mais relevante para a indústria, o hidrogênio verde ainda é menos competitivo do que o hidrogênio cinza — produzido a partir de fonte fóssil. Assim, para torná-lo mais competitivo, estima-se que seja preciso instalar cerca de 65GW de eletrólise da água ao longo dos próximos anos, para que a economia de escala permita diminuir os custos de produção, segundo estudo do Hydrogen Council em parceria com a consultoria McKinsey.

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Hidrogênio verde: uma alternativa positiva, mas ainda mais cara e complexa

Para que o combustível seja mais vantajoso em competição com o de origem fóssil, é necessária uma política governamental que crie um mecanismo para garantir a compra do hidrogênio verde, similar ao atual modelo de leilões de energia no Brasil, o que viabiliza os investimentos privados na cadeia produtiva. A Alemanha já deu os primeiros passos nesse sentido e estabeleceu, em 2020, sua Estratégia Nacional do Hidrogênio, pela qual pretende investir €$ 9 bilhões em projetos — não apenas em território alemão, como também em outros países —, o que garante o suprimento de hidrogênio verde para o mercado local. O governo alemão considera o combustível a principal opção sustentável para o país se tornar climaticamente neutro até 2050.

Outra referência importante é a Aliança Brasil-Alemanha para o Hidrogênio Verde, plataforma criada por entidades empresariais para intermediar a compra e venda do insumo para a Alemanha, o que reforça a relevância do Brasil como fornecedor internacional.

O Brasil pode gerar hidrogênio verde de forma altamente competitiva e eficaz para consumo doméstico e para exportação. Segundo o Governo Federal, o País está avançando no estudo do potencial da regulamentação e dos mercados de hidrogênio, com uma perspectiva realista e que contribua para o desenvolvimento tecnológico e industrial. “Resta saber se haverá, de fato, a mobilização necessária para aproveitar essa janela de oportunidade, dada a dinâmica internacional. Já há grandes empresas com décadas de experiência nessa tecnologia consolidada, comprometidas com a sustentabilidade ambiental e com o desenvolvimento desse mercado”, afirma Alvarenga. “O potencial de ganho vai além do investimento produtivo, emprego e renda. É possível reposicionar internacionalmente a imagem do Brasil como um país engajado na causa ambiental e um dos celeiros energéticos do mundo”, completa.

A demanda geracional bate à porta

É importante ressaltar que o debate sobre hidrogênio verde tem sido cada vez mais frequente devido à uma necessidade atual e que tende a ocupar a agenda nos próximos meses. Isso porque, segundo pesquisa da Growth for Knowledge (GfK), crises como a pandemia de Covid-19 atuam como aceleradores de mudanças sustentáveis, tanto que 53% dos consumidores acreditam nas reivindicações ambientais nos rótulos de produtos e na publicidade.

O meio ambiente, agora considerado um valor pessoal, instiga reflexões —  o papel do homem e das organizações em prol do planeta, revisitação dos hábitos de consumo e, consequentemente, dos consumer insights que podem ser gerados desde então. Dessa forma, o estudo traz um dado animador: 48% dos clientes consideram a questão ambiental antes de fazer uma compra. E os olhares se voltam à geração Z, que desde 2019 se mostra preocupada como avanço do efeito estufa e conservação da fauna e flora. Para ela, a inovação deve andar lado a lado com a sustentabilidade, para que a possibilidade de ter uma vida saudável seja regra, e não exceção.


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